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A diáspora do PMDB gaúcho

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 27/11/2009 18h17, última modificação 07/09/2010 18h18
As fileiras do PMDB gaúcho estão se dividindo. No momento, o partido oscila entre dois candidatos para o Palácio Piratini em 2010. De um lado, José Fogaça, prefeito de Porto Alegre. De outro, Germano Rigotto, ex-governador do estado.

As fileiras do PMDB gaúcho estão se dividindo. No momento, o partido oscila entre dois candidatos para o Palácio Piratini em 2010. De um lado, José Fogaça, prefeito de Porto Alegre. De outro, Germano Rigotto, ex-governador do estado. Ambos falam bem um do outro e ambos repetem duas, três, dez vezes por semana que não são candidatos. Mas ambos estão em campanha há alguns meses e travam uma luta feroz nos bastidores.

Depois da balança pender para o lado de Fogaça, na última semana as esperanças de Rigotto de vencer a disputa interna se reascenderam. O ex-governador, por conta de um intrincado xadrez da luta sucessória, atraiu novamente os holofotes da mídia. Na quinta-feira, o jornal Zero Hora, que durante meses não escondeu seu entusiasmo com o nome de Fogaça, sob a cartola “Mudança de Rumos”, trazia a chamada “Agora, PMDB quer Rigotto ao Piratini”. A imprensa revelava também a preferência dos prefeitos do PMDB gaúcho pelo ex-governador, que recebeu 46% das indicações contra 42 para o prefeito de Porto Alegre numa consulta interna.

Os motivos da divisão
A candidatura do prefeito de Porto Alegre encerra grandes riscos. Fogaça teria de abandonar o governo a quase três anos da conclusão de seu mandato. Faria isso num momento bom para Porto Alegre, por conta, inclusive, dos investimentos federais na cidade, tendo em vista a Copa em 2014. Deixaria muitos louros para seu vice, José Fortunatti, do PDT. E uma eleição é sempre uma eleição. Pode-se ganhar, pode-se perder. Ainda mais que o adversário principal será o ministro da Justiça, Tarso Genro, com todo apoio do governo Lula.

Já Rigotto não teria nada a perder. Pode carregar o fardo da derrota para Yeda Crusius na sua reeleição, mas atualmente não tem nenhum cargo. Os motivos da disputa, portanto, não estão na superficialidade da política. Eles são mais profundos.

Depois de ter ofertado ao país líderes como Getúlio Vargas, de um lado, e os generais presidentes da Ditadura Militar, por outro, o Rio Grande do Sul tem se posicionado na contra-mão do Brasil nas duas últimas décadas. O que divide o PMDB gaúcho não é o cálculo eleitoral e as dificuldades das alianças com os trabalhistas. A divisão está em como se posicionar diante do Brasil em geral e do governo Lula em particular. Rigotto acompanha a maioria do PMDB nacional, nutre simpatias pelo governo Lula. Fogaça é um tucano disfarçado, faz o que pode e o que não pode para viabilizar a oposição ao governo federal.

O jogo dos aliados
O Rio Grande do Sul é um estado de forte tradição trabalhista. Berço do PTB de Getúlio, o trabalhismo, somando o PDT e o PTB, possui 11 das 55 cadeiras da Assembleia. Em 2008, o PDT elegeu 344 prefeitos, 236 vice-prefeitos e 3.521 vereadores. Já o PTB elegeu 31 prefeitos, 45 vice-prefeitos, e 374 vereadores. Por conta destes 20% da Assembleia e do enraizamento que possui, o trabalhismo em 2010 é a noiva da eleição.

A tradição do PTB, quando se trata de alianças e acordos, é a do seu líder maior, o senador Sergio Zambiasi. Por ora, o PTB está anunciando uma candidatura própria, através do deputado Augusto Lara. Alianças só serão definidas lá por maio do ano que vem. É o que Zambiasi sempre faz: espera o quadro ficar mais claro para só então colocar suas fichas.

Já o PDT, segmentado por lutas internas muito fortes entre um campo que apóia o governo Lula, e outro que é radicalmente contrário, se dispõe a definir ainda este ano sua posição, mas cobra um preço alto pelo seu apoio. Assediado por Fogaça, o PDT exigiu, além dos 2 anos e nove meses que Fortunatti teria como prefeito, apoio para a sua reeleição na prefeitura, a posição de vice no governo do Estado e uma vaga para o Senado na chapa. Isso num quadro em que seu presidente, Romildo Bolzan, prefeito de Osório, não esconde sua simpatia pela candidatur do ministro Tarso Genro.

A hora do espanto
Na luta interna do PMDB, Fogaça quer empurrar a decisão sobre 2010 para frente. Quanto mais cedo isso acontecer, pior para ele. Já o contrário acontece com Rigotto, que está sem mandato. O ex-governador quer uma decisão já.

O fato é a hora dos gaúchos decidirem o que fazer diante das mudanças que houveram no mundo está chegando e em todos os partidos, e com muita radicalidade no PMDB, restaram duas alternativas: acompanhar o lulismo e se somar na construção do novo Brasil, ou manter-se aferrado às bandeiras do que se convencionou chamar “neoliberalismo”.

Posso estar enganado. Alguém já disse que o futebol é uma caixinha de surpresas. A política, mais ainda. Mas penso que o eleitor gaúcho já decidiu o seu rumo. E à esquerda ou à direita, uma geração de políticos gaúchos construídos sob os parâmetros do século XX está sendo abandonada pelo eleitor à beira do caminho. E vai “cair do cavalo” em 2010.