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Política

Censura

A demissão de Rita Kehl vista pelos portugueses

por Redação Carta Capital — publicado 13/10/2010 16h29, última modificação 13/10/2010 16h29
O jornal O Pùblico entrevistou a psicanalista e deu grande destaque ao caso

O caso da psicanalista demitida ou o poder da imprensa brasileira

Jornal "O Estado de São Paulo" acusado de censura

Por Alexandra Lucas Coelho, de O Público

Maria Rita Kehl entra no Teatro Nelson Rodrigues, puxando a sua mala de rodinhas. Vem de São Paulo, onde mora, para falar aqui, no centro do Rio de Janeiro. Todo o Brasil anda a discutir o caso dela, pelo menos o Brasil ligado à Internet. Mas Maria Rita não mudou o que estava planeado: vir falar neste palco, a convite do grupo fundado por Augusto Boal, um mito do teatro brasileiro.
Foi para Boal que Chico Buarque escreveu Meu Caro Amigo ("Aqui na terra tão jogando futebol ?/ Tem muito samba, muito choro e rock"n"roll / Uns dias chove, noutros dias bate sol / Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta"). Era a ditadura no Brasil e Boal estava exilado em Portugal ("um beijo na família, na Cecília e nas crianças", mandava Chico).

E cá está Cecília, viúva de Boal, a dar agora um beijo de boas-vindas à amiga Maria Rita. Daqui a pouco, quando subir ao palco, Cecília vai contar como Boal escolheu Maria Rita como primeira leitora de todos os seus textos, e como seria o primeiro a homenageá-la hoje, tantos anos depois da ditadura: "Hoje, uma colega nossa foi censurada. Era isso que eu queria dizer em nome do Augusto e meu."

Cecília é uma das divulgadoras do abaixo-assinado que se solidariza com Maria Rita. O primeiro signatário é Antonio Candido, decano dos ensaístas brasileiros, logo depois vem Francisco Buarque de Hollanda, e à hora de fecho desta edição havia mais 1100 nomes assinando por baixo disto: "Consideramos perigoso e estarrecedor que um órgão de imprensa importante como o "Estadão", com 135 anos de lutas em prol da liberdade democrática, um jornal avesso à censura por história e tradição, que este mesmo jornal se sinta hoje à vontade para afastar um de seus colaboradores apenas por manifestar opiniões que desagradam à sua direcção."

Maria Rita Kehl é o caso da psicanalista que foi demitida pelo diário "O Estado de São Paulo", vulgo "Estadão", depois de uma crónica que deu brado. "Censura, claramente", apontam os críticos. "Uma histeria" aproveitada politicamente, diz o jornal.

O caso expõe bem os dois Brasis que nesta segunda volta se continuam a confrontar. De um lado, o Brasil do povo, que vê em Lula sobretudo um líder que tirou 30 milhões da pobreza. Do outro, o Brasil das elites, que vê em Lula sobretudo um populista saloio. Cenas da luta de classes, em 2010.

A demissão I
Maria Rita Kehl senta-se com o PÚBLICO no balcão, enquanto os técnicos fazem ensaio de som. Com o seu ar de maria-rapaz tímida mas firme, aos 58 anos é das psicanalistas mais respeitadas do Brasil. O que é que aconteceu entre ela e o "Estadão"?

"Eu tinha uma página no Segundo Caderno desde Fevereiro. Fui convidada a escrever sobre Psicanálise, não aceitei, e a editora do caderno disse que então eu podia escrever sobre o que quisesse, mas que Psicanálise seria bom. Fiz 18 colunas, nenhuma era sobre Psicanálise, e as últimas foram sobre política. A penúltima foi sobre o aborto."

Tema que se tornou central na campanha, com uma pressão sobre Dilma Rousseff, acusando-a de ser a favor, e os candidatos em geral a afirmarem-se "pela vida", para não perderem o voto religioso.

"Eu escrevi que o que dizem ser "defesa da vida" é uma raiva contra a liberdade sexual da mulher: se quer ter sexo, tem que ter filhos, como uma punição", resume Maria Rita. Essa foi a penúltima crónica. "E a última, que se chamava Dois Pesos... era sobre a desqualificação do voto dos pobres no Brasil."

Maria Rita quis "analisar o argumento que aparece muitas vezes de que os pobres votam na Dilma porque não querem trabalhar, só receber a Bolsa Família". Um argumento ouvido pelo PÚBLICO até entre jovens patrões do interior de Minas. "Eu dizia que se alguém deixa um emprego pelos 200 reais, no máximo, da Bolsa Família, é porque os patrões estão pagando menos de metade de um salário mínimo. O meu outro ponto é que quando os ricos de São Paulo votam pelos seus interesses parece normal. Mas quando os pobres votam pelos seus interesses parece anormal, como se fosse voto comprado. Quando o que se passa é que os pobres, que nunca tiveram direitos, agora têm uma consciência maior e votam pelos seus direitos."

A crónica era isso. "Saiu no sábado, 2 de Outubro, e recebi muitas mensagens no email agradecendo." Os comentários no jornal eram menos simpáticos. "Na terça-feira, 5, a editora ligou dizendo que os leitores que mais têm pressão, o conselho do jornal e os accionistas estavam muito descontentes, que a coluna estava muito política e eles esperavam uma coisa mais de comportamento, que estavam a pensar acabar com a coluna, mas que a editora ainda ia conversar com o director [de conteúdos] Ricardo Gandour. Mas imediatamente depois isso chegou à Internet. Centenas de mensagens no Twitter a perguntar: "Você foi demitida?"". Durante umas horas, contou-lhe um amigo, Maria Rita Kehl "foi o nome mais citado no Twitter a nível nacional e internacional". Maria Rita resolveu telefonar à editora, Laura Greenhalgh, a dizer: "Espero que saiba que eu não faria isso, "vazar" para a Internet." A editora falou com o director de conteúdos, e ligou a Maria Rita a dar a resposta. "Disse que, como o assunto tinha vazado na Internet, a situação tinha ficado insustentável e aí a coluna terminava mesmo. Quando perguntei por que não me avisara antes [que não estavam satisfeitos com o rumo mais político da crónica], ela disse que não fazia isso, interferir, como se fosse censura."

O que o "Estadão" fez "é expulsão por motivos políticos", resume Maria Rita. "Li que ele [Gandour] disse que não era político, que os colunistas vão e vêm, mas isso não é verdade. Eu estava lá só desde Fevereiro. A posição dele é muito cínica, acho que devia assumir. Eu começava a crónica dizendo que o Estadão tinha feito bem em declarar o seu voto em José Serra, porque assim o debate se tornava mais claro. E então me posicionei como colunista. Pode chamar-se de censura, sim. E como saber se poderemos confiar na imprensa quando mesmo esse jornal que já foi censurado faz a mesma coisa?"

A contrapartida boa é que "apareceu esse outro Brasil, o que sente que a imprensa não é isenta", diz Maria Rita. "A cada dia tem mais de 100 mensagens no meu email, e Twitter nem consigo acompanhar."

A demissão II
"Não é uma demissão", afirma Ricardo Gandour, ao telefone com o PÚBLICO. "O jornal tem 92 colunistas. Colunistas vão e vêm. Infelizmente, as conversas com a colunista tiveram um tratamento politizado, e o jornal não tinha essa intenção. Ela escrevia a cada 15 dias, e a ideia era que fosse centrada na Psicanálise. Então, no início da semana passada, iniciámos uma conversa a dizer que a coluna teria de mudar de rumo. Ela fez uma contra-proposta e nós estávamos analisando. Aí teve esse vazamento absurdo na Internet, e essa gritaria precipitou a decisão, foi uma histeria." Então a decisão de acabar já estava tomada e apenas foi precipitada? "Naquele momento, já estava tomada. Queríamos dar outro enfoque àquele espaço."

Mas Gandour recusa terminantemente a ideia de censura. "Esse jornal tem uma tradição. Jamais censurou uma linha de seus 92 colunistas. As colunas que se disseram alvo de problema foram publicadas integralmente. Todas as colunas enviadas foram publicadas."

Quem hoje abra o site do "Estadão" vai ver logo em cima, do lado esquerdo, um quadradinho a dizer "Há 439 dias sob censura". Porque o jornal fez uma investigação sobre o filho do ex-Presidente e actual líder do Senado José Sarney, e a justiça proibiu a publicação de material relacionado com o caso.

Gandour acha que esse, sim, é um caso de censura, não o de Maria Rita. "O movimento em torno de Maria Rita é legítimo, mas as pessoas que querem igualar isto a Sarney estão querendo aliviar o caso Sarney." Que, para Gandour, tem tudo a ver com o regime Lula. "Quem segurou o Sarney foi a base aliada do Governo, já de olho nas eleições deste ano."

Em suma: "Quem achar que isto [Maria Rita] é comparável a censura, faz um uso político indevido. Não fomos nós que vazámos para a Internet. Alguém quis criar facto político."

A divisão
Mas no próprio "Estadão" há quem tenha mostrado publicamente o seu desconforto. Sem citar Maria Rita, o jornalista e professor da USP Eugénio Bucci dedica a sua última coluna a defender o pluralismo, lembrando: "A frase mais que famosa de Voltaire - "Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito de dizê-las" - vem agora em nosso socorro." E Bucci questiona o estado de saúde da imprensa brasileira: "Muito se diz que sem imprensa livre não há democracia, mas será que a nossa imprensa, hoje, está à altura dos desafios que pesam sobre a nossa democracia?"A revista "Veja" - que trouxe ao de cima o escândalo Erenice Guerra em véspera das eleições - fez uma capa com Lula a levar um pontapé no rabo. O Brasil do povo, de que Lula é a encarnação, acha que a "Veja" olha o povo com desdém. No último comício Lula-Dilma, em São Paulo, havia cartazes contra a "Veja" e contra a "Folha de São Paulo". Com a ressalva de determinados jornalistas individuais, muita gente vê os patrões da imprensa todos alinhados de um lado: o lado anti-Lula.

"Esse mal-estar é real", diz ao PÚBLICO Jânio de Freitas, de 78 anos, jornalista e analista veterano, colunista da "Folha". "Criou-se na imprensa brasileira uma indisposição quanto a Lula e à continuidade do Governo por intermédio de Dilma. Mas não há nenhuma indicação objectiva de que Lula fosse criar constrangimentos à imprensa. A imprensa brasileira é muito forte politicamente e é um grande poder. Quando se move, geralmente obtém o que quer. Não há registo de um interesse verdadeiro da imprensa que tenha sido contrariado. Não há nenhum caso de constrangimento da imprensa no regime Lula." O caso Sarney não é exemplo, descarta este analista, à semelhança de outros ouvidos pelo PÚBLICO. "Foi uma decisão estritamente judicial. Pode ter havido influência do advogado para obter essa proibição, mas isso não envolve o Governo Lula de nenhuma maneira."

O que a imprensa receia é "uma regulamentação para evitar excessos", ideia bem anterior a Lula, e que Jânio Freitas encara positivamente, por achar que esses excessos existem mesmo.

De resto, a tensão imprensa-Lula tem a ver com "um preconceito de classe". "A elite brasileira é extremamente preconceituosa e há uma grande influência desse preconceito na visão da imprensa quanto ao Lula, não apenas neste caso." Os oito anos de Lula não diluíram as fronteiras. "Essa elite considera intolerável alguém que não saiu da universidade e sobretudo não tem posses. Porque essa elite não é culta, pelo contrário. A parcela culta é muito pequena."

Quanto ao "Estadão" concretamente, Freitas não poupa críticas: "É um jornal que não aceita contrariedade à sua linha política, e evita casos assim escolhendo adequadamente os seus colaboradores. A Maria Rita não faz parte de uma corrente de pensamento que possa ser convidada a escrever no "Estado" sobre qualquer assunto." Criado como "um jornal liberal, de combate à escravatura", desde que "a terceira geração de herdeiros assumiu a direcção, no começo dos anos 60, há uma linha única". Maria Rita, remata este analista, é um caso de "censura, claramente".

O director de conteúdos, Ricardo Gandour, contesta: "O jornal acompanhou todos os sucessos do Governo Lula com muito detalhe. Mas sempre foi um fiscalizador da máquina pública. Temos a consciência tranquila de que estamos a fazer um trabalho completo sem ódio nem sectarismo. Este episódio de Maria Rita não pode tirar isso. O Presidente Lula quis dar ideia de que a imprensa está contra ele. Nada disso. Os grandes sucessos económicos do seu Governo foram manchete. A grande crítica é a de que ele não contribuiu para a liturgia do cargo. O Presidente não é um partido, não pode fazer campanha. É nessa confusão que as pessoas estão entrando."

"Liturgia do cargo" será certamente uma expressão longínqua para os 30 milhões que Lula tirou da pobreza. Em 2006, lembra Maria Rita, o que aconteceu foi que os "fazedores de opinião não fizeram opinião, estavam todos contra Lula e Lula foi eleito". O grande defeito de Lula, reconhece ela, "foi não ter combatido eficazmente a corrupção". E talvez seja isso que lhe vai dificultar a vida nesta eleição.

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