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Política

Eleições 2010

A campanha de Marina Silva

por Celso Marcondes — publicado 10/03/2010 19h04, última modificação 18/08/2010 19h07
Em quarto lugar nas pesquisas, a candidatura da senadora se organiza, mas há importantes questões a resolver

Em quarto lugar nas pesquisas, a candidatura da senadora se organiza, mas há importantes questões a resolver

Desprovida da estrutura que deve sustentar os candidatos que disputam a ponta nas pesquisas de opinião, a coordenação da pré-campanha da senadora Marina Silva à presidência tem sido obrigada a fazer hora-extra para criar uma base mínima de trabalho.

O maior desafio é implementar a estratégia para tornar a candidata mais visível para os eleitores. Ninguém lamenta os 8% de intenções de votos que aparecem nas últimas pesquisas, mas preocupa que Marina ainda seja uma desconhecida para mais da metade do eleitorado, com seu nome circulando com certa desenvoltura apenas entre as camadas médias da população dos grandes centros.

Para mudar essa realidade, participações em programas populares de rádio e televisão têm sido corriqueiras para a senadora nas últimas semanas. Segundo o ex-deputado federal pelo PT, hoje no PV, Luciano Zica, membro da coordenação e responsável por sua agenda, esse é um caminho importante para ser trilhado, mas insuficiente: “a presença física é requerida nos vários cantos do País, mas por ora tivemos que optar pela concentração das atividades nos maiores centros urbanos”, ele lamenta. Foi a fórmula encontrada “para que ela fale diretamente para mais gente e também diminua a necessidade de locomoção e os gastos decorrentes”, disse Zica.

Os jovens e a internet
A juventude é a faixa etária prioritária a ser atingida neste momento. Fabio Feldmann - virtual candidato ao governo de São Paulo - acredita que é lá que se concentra o público mais permeável à marca da candidata. “Os jovens ficam conosco”, ele garante. Visitas às universidades já fazem parte do dia a dia de Marina e a expectativa é que aí exista terreno “para criar um movimento que reúna uma militância aguerrida, como no passado teve o PT”, disse.

No comando verde aposta-se muito nas correntes que surjam da divulgação de declarações de apoios de pessoas renomadas em vários segmentos. Os nomes do cineasta Fernando Meirelles, dos cantores Caetano Veloso, Maria Bethânia, Marisa Monte e Adriana Calcanhoto, além de Gilberto Gil, puxariam uma das listas. Os educadores José Eli da Veiga e Rubem Alves, os religiosos Leonardo Boff e Frei Betto, o empresário Oded Grajew, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, o escritor de livros de auto-ajuda Augusto Cury e os economistas Chico de Oliveira e Eduardo Gianetti da Fonseca, encabeçariam outra. Especula-se que outro “notável” que pode aderir à campanha seja o ex-ministro da Saúde Adib Jatene, com o qual Marina almoçou no dia 8 passado.

Mas é na internet que os coordenadores da campanha apostam a maior parte das suas fichas para potencializar apoios e arrecadar finanças. O site do “Movimento Marina Silva por um Brasil Sustentável”, conta com mais de quatorze mil voluntários - como eles se intitulam - inscritos e já orienta a todos para confeccionar adesivos, broches e camisetas de campanha. No Facebook, a senadora passou dos dois mil amigos e no seu Twitter pessoal estão inscritos quase oito mil seguidores.

Profissionalizar a direção da campanha é outra meta a ser atingida. Hoje os nove membros da coordenação são voluntários e quatro deles podem ser candidatos a outros cargos e obrigados a se desligar da instância, a começar pelo vereador Alfredo Sirkis (PV/RJ), que é o coordenador geral. O biólogo João Paulo Capobianco, que foi secretário executivo de Marina no Ministério do Meio Ambiente, é um dos braços direitos da senadora e o mais cotado para assumir a coordenação geral quando a coisa pegar fogo. Guilherme Leal, presidente do Conselho Administrativo da Natura e virtual candidato à Vice-Presidência, já tem papel chave na coordenação, fazendo o elo com os setores do empresariado permeáveis ao discurso do desenvolvimento sustentável. O comando atual é completado pelo antropólogo Beto Ricardo, do Instituto Socioambiental, e por outros quatro dirigentes do Partido Verde: Regina Gonçalves, Marco Antônio Mróz, Roberto Kishinami e Sérgio Xavier.

No caminho da “profissionalização” foram chamados para dirigir a área de imprensa os jornalistas Mauro Lopes e Nilson de Oliveira e para coordenar o que chamaram de “inter-mídias” o jornalista Caio Túlio Costa. Uma área vital permanece descoberta, pois ainda não foi contratado um publicitário ou uma agência de propaganda para conduzir a campanha na mídia.

Os palanques estaduais
A definição das candidaturas pelo Brasil afora é outra questão trabalhosa. No Rio de Janeiro está consolidada a dobradinha do deputado Fernando Gabeira com o ex-deputado tucano Márcio Fortes. Em São Paulo, devem ser sacramentados os nomes do ex-deputado federal Fabio Feldmann para governador e do empresário Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos, para o senado. Candidaturas próprias do PV devem ser também lançadas ao menos nos estados de Minas Gerais (o deputado José Fernando Aparecido), Pernambuco, Paraná e Santa Catarina. No Distrito Federal e no Rio Grande do Sul trabalha-se para que saiam coligações.

Alianças com o Partido dos Trabalhadores? Sintomaticamente, só deve acontecer no Acre, terra de Marina. Entre os dirigentes do PT é grande a mágoa com a senadora e dentro do PV ainda é forte a ala que quer distância dos petistas. Na Bahia, até houve quem defendesse uma aliança com a candidatura petista de Jaques Wagner, mas a idéia não prosperou e o deputado federal Luiz Bassuma vai encabeçar a chapa.

Campanha para ganhar ou para marcar posição?
Porém a grande questão que está na mesa é a seguinte: há chances de derrotar Serra, Dilma e Ciro Gomes e eleger Marina presidente? Ou o objetivo central é sair da batalha com o PV mais forte e a defesa de um desenvolvimento economicamente sustentável mais presente para uma parcela maior da população?

Ao menos por enquanto, parece que não há consenso sobre este dilema entre o comando verde, só que a questão não é de pouca monta. Da definição do objetivo central para as eleições dependem o discurso e o plano de governo que Marina apresentará ao longo da campanha.

Já é fato que o mote da “terceira via” se consolida: “nem PT, nem PSDB”, é o que sintetiza as últimas declarações da candidata e de sua equipe mais próxima. À imprensa, a senadora chegou a declarar que, se eleita, gostaria de governar aproveitando “os melhores dos dois partidos”.

É comum também ouvir entre os verdes a condenação à tentativa do presidente Lula em transformar as eleições presidenciais num “plebiscito”. “A polarização que tomou conta das últimas eleições é nefasta para o País”, afirma Ricardo Young. “É uma disputa que se sobrepõe ao programa, onde os meios justificam os fins”, ele diz.

Mas isso parece não bastar para definir a candidatura alternativa e deixar claro seu objetivo para 2010. Marina Silva tem a marca indelével de uma trajetória dedicada à defesa do meio ambiente. Por conta disso, a pergunta que mais ouve dos jornalistas é se sua campanha será “um samba de uma nota só”. O que, pode-se deduzir, significaria a opção por uma campanha para fortalecer o PV e suas teses.

, a senadora respondeu à repórter Cynara Menezes: “quando as pessoas falam isso (que a campanha seria monotemática) é porque ainda não estão familiarizadas com a as conquistas do socioambientalismo dos últimos 30 anos. O desenvolvimento sustentável pressupõe ter propostas com critérios de sustentabilidade para todos os setores da economia, educação, ciência e tecnologia, agricultura. Isso vai ser traduzido num programa de governo.”

Respondendo à mesma questão para o jornalista Kennedy Alencar, na RedeTV, ela disse: “todos os graves problemas sociais do Brasil, até as catástrofes que temos enfrentado, têm a ver com a questão ambiental, atingindo as pessoas mais pobres”. E acrescentou: “tudo está ligado à questão do desenvolvimento sustentável; a educação, a saúde, a industrialização”.

É um discurso compreensível e coerente com sua trajetória, mas nada fácil de ser digerido pelo grande público. Parte dele pode até, ao longo da campanha, compreender a mensagem da candidata se traduzida para o popular, algo como “o cuidado com a natureza melhora sua condição de vida”. Mas o que a maioria dos eleitores pobres do País vai esperar dos candidatos são propostas claras e diretas para os principais problemas: educação, saúde, programas sociais, habitação.

O programa que o PV apresentou na TV no horário gratuito do TRE, em janeiro, flertou com essa linha, ao fazer questão de bater com destaque na tecla da educação, como se buscasse um segundo ponto de apoio para escorar a campanha.

Marco Antônio Mróz explica que o plano de governo da campanha será resultado dos trabalhos de duas frentes, uma dentro do PV, que agora “revitaliza seu programa” e outra mais ampla, composta por vários grupos setoriais que discutem cada área específica, reunindo especialistas. Segundo ele, “até o final de abril o plano de governo estará pronto”. Além disso, exatamente para ajudar no combate à percepção de uma campanha restrita, se pretende lançar em maio o que eles chamaram de “Conselho Político”, formado por especialistas em cada área.

Conseguir apresentar propostas objetivas para os temas populares no pouquíssimo tempo que terá disponível na televisão pode ser decisivo, se o objetivo for vencer as eleições. “Se conseguirmos passar para o segundo turno, ninguém bate a Marina. Aí serão dois candidatos com os mesmos dez minutos de tevê. E nos debates ela não perde de ninguém”, disse um dos articuladores verdes. Se Ciro Gomes desistir da candidatura presidencial e José Serra manter a curva descendente, avalia-se que a campanha pode ganhar novo fôlego em breve.

Vai daí que a ascensão pouco a pouco, colocando como meta chegar logo aos dois dígitos nas pesquisas, pode fortalecer a tese dos que acreditam na vitória. Alfredo Sirkis, otimista em texto publicado no site do PV, avaliou comparando a pesquisa IBOPE de novembro 2009 com a de fevereiro 2010: “Marina no voto total estimulado: (foi) de 6% para 8%. Entre os que ‘votam com certeza’ em um dos candidatos: 5% para 6%. Entre os que ‘poderiam votar’: 17% a 21%. Marina ainda é, de longe, a menos conhecida. Isso tem evoluído lentamente. Os que dizem que ‘conhecem bem” aumentaram 5% para 7%. Os que ‘conhecem mais ou menos’: 16% para 19%, os que ‘só ouviram falar’ caíram de 51% para 41%”.

Indagado sobre as perspectivas de vitória, Ricardo Young sintetiza seu sentimento com uma frase: “é uma candidatura de superação”.

Seu provável companheiro de chapa em São Paulo, também é otimista, mas entende a gravidade do desafio: “Em toda minha trajetória política (ele já foi deputado federal e secretário do Meio Ambiente no governo Mário Covas) eu atuei em diversas áreas, mas não tem jeito, todo mundo só associa meu nome à questão ambiental”.

A pergunta fica: ao final do ano, a senadora Marina Silva será conhecida da maioria dos brasileiros como o grande nome do País na defesa do meio ambiente ou como o melhor nome para enfrentar nossos graves problemas sociais sob a ótica do desenvolvimento sustentável?