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A blindagem dos Correios

por Gerson Freitas Jr — publicado 12/01/2011 10h04, última modificação 13/01/2011 12h31
Dilma nomeia Wagner Pinheiro para pôr fim à era dos escândalos
A blindagem dos Correios

Dilma nomeia Wagner Pinheiro para pôr fim à era dos escândalos. O ex-presidente da Petros tem a missão de dar mais transparência à empresa, foco de denúncias no governo Lula. Por Gerson Freitas Jr. Foto: Danilo Verpa/ Folhapress

Dilma nomeia Wagner Pinheiro para pôr fim à era dos escândalos

A presidenta Dilma Rousseff parece disposta a secar a fonte de onde minaram as maiores crises enfrentadas pelo governo Lula. Estopim do escândalo do mensalão e do “Erenicegate”, que ajudou a empurrar a última disputa­ presidencial para o segundo turno, a Empresa de Correios e Telégrafos (ECT) passa por uma reformulação.
As mudanças começam de cima. Antigo feudo do PMDB, a estatal, que deve fechar as contas de 2010 com uma receita próxima de 12 bilhões de reais, passou, pela primeira vez, para as mãos do Partido dos Trabalhadores. Wagner Pinheiro de Oliveira, ligado ao PT de Campinas, assume a presidência com o objetivo de dar mais transparência e melhorar a gestão da estatal, que teve toda a diretoria renovada.

Economista formado pela Unicamp, Pinheiro presidiu o Petros – segundo maior fundo de pensão do País, dono de um patrimônio de 51 bilhões de reais – durante os dois mandatos de Lula. Antes disso, foi presidente do Banesprev, além de diretor da Federação dos Bancários da CUT e da Associação dos Funcionários do Banespa, entre 1996 e 2002.

Pinheiro foi uma escolha pessoal de Dilma Rousseff, com quem trabalhou pela primeira vez ainda na equipe de transição para o primeiro mandato de Lula, no fim de 2002. O então presidente do Petros soube do convite por meio do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, apenas no dia 29 de dezembro, quatro dias antes de assumir a nova empreitada. “Não tinha como recusar um convite desses, por parte da presidenta. Me senti duplamente prestigiado”, afirma.

O novo presidente dos Correios terá de correr para se inteirar do novo negócio. Sua primeira missão será destravar o concurso público para a contratação de novos servidores. O processo foi aberto em dezembro de 2009, mas se arrastou na Justiça ao longo do ano passado, devido a irregularidades no contrato firmado entre a empresa e a Fundação Cesgranrio, que aplicaria os testes. Em dezembro, a estatal resolveu embargar o concurso e devolver o dinheiro aos mais de 1 milhão de inscritos. A promessa é de que um novo edital, para a contração de até 10 mil funcionários, seja lançado ainda no primeiro bimestre.
O economista terá ainda de resolver o imbróglio com as mais de 1,4 mil agências franqueadas que operam sem licitação – um problema que dura mais de 15 anos. Segundo determinação da Justiça, essas agências deveriam ter sido fechadas no dia 10 de dezembro, o que poderia provocar um “apagão postal”, mas o governo publicou uma Medida Provisória prorrogando a autorização de funcionamento até 11 de junho deste ano.
Ainda em 2009 os Correios abriram licitação para 1,4 mil novas agências franqueadas, mas os atuais franqueados questionaram os editais e conseguiram adiar a conclusão do processo. “O novo concurso público e a licitação das novas franquias são os dois assuntos que teremos de resolver logo de cara”, afirma o presidente.
Pinheiro admite, porém, que sua principal missão será restabelecer a credibilidade da instituição, por causa das constantes denúncias de corrupção. “Eles (Dilma Rousseff e Paulo Bernardo) entendiam que eu poderia fortalecer em primeiro lugar a imagem dos Correios, que já é ótima.”

Nos próximos dias, o novo presidente da estatal encaminha ao ministro Paulo Bernardo o novo estatuto dos Correios, com medidas que pretendem dar mais transparência à administração. Entre outras coisas, a reforma obriga os Correios a publicar seu balanço anualmente e impede, por exemplo, que o presidente da diretoria-executiva acumu­le também a presidência do conselho de administração. “Vamos ter uma governança muito melhor, mais parecida com a de outras estatais, especialmente a da Caixa Econômica Federal, que também é 100% pública.” O texto abre caminho para que os Correios criem subsidiárias, embora não preveja a transformação da estatal numa S.A.

No longo prazo, afirma Pinheiro, o desafio será aumentar a competitividade no promissor mercado de encomendas, em que a concorrência é aberta. A empresa ainda obtém metade de sua receita no segmento em que detém o monopólio, a troca de correspondências, que tende a perder força com a disseminação da internet e a evolução dos serviços digitais. “Nos grandes correios do mundo, os outros serviços já respondem por 70% do faturamento.” Apesar disso, os Correios são líderes no setor de encomendas no Brasil, com, aproximadamente, 40% do mercado. O executivo lembra ainda que a empresa possui a maior rede de pontos de venda do País, com mais de 6,3 mil agências próprias.

Do ponto de vista político, Pinheiro tem uma missão ainda mais importante: impedir que os Correios voltem a ser fonte de embaraço para o governo petista. “Vamos aprimorar e fazer com que o sistema de gestão seja mais robusto, de modo a evitar equívocos e deslizes pessoais.” Empossado em um posto muito cobiçado, recomenda-se a Pinheiro ficar atento aos movimentos a seu redor.

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