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A Avenida Paulista e as esquerdas

por Roberto Amaral publicado 19/03/2015 04h36, última modificação 19/03/2015 09h07
A esquerda não conseguiu nem explicar à juventude de hoje o que foi a ditadura. Só uma autocrítica profunda pode promover a busca por respostas eficientes à crise
Robson Fernandjes / Fotos Públicas

O ‘15 de março’ sugere advertências e enseja lições que certamente já foram consideradas pelo governo federal, e, espero, não passarão em branco pelos que ainda pensam e formulam (certamente fora dos partidos) nas esquerdas brasileiras, assim no plural –plural que esconde suas limitações orgânicas e ao mesmo tempo explicita sua desarticulação, tanto no plano teórico quanto no plano prático. Se não estuda a realidade, a esquerda é condenada a não compreendê-la e, assim, se vê sem condições de formular uma estratégia, e sem estratégia fica sem capacidade de ação.

Se a teoria resulta inútil se não se transforma em ação, tampouco há prática sem teoria. A falência do pensamento e da prática de esquerda contamina o governo, e desse governo participam setores majoritários da esquerda brasileira, ao lado de forças conservadoras poderosíssimas. Sem uma estratégia clara, o governo, já vivendo contradições internas, vê-se condenado a operações táticas puramente reativas. Assim se explica a anomia política, que, se não explica tudo, explica quase tudo, inclusive a perda da classe media e o distanciamento de setores ponderáveis da juventude brasileira, que, tragédia nossa, abjura a política.

Assim também se explica porque, após tantas lutas e 12 anos de um governo nacional-popular inequivocamente voltado para os interesses dos mais pobres, o reacionarismo e o conservadorismo larvar que pervade a sociedade brasileira, de cima a baixo, encontrem ainda as ruas vazias e possam ocupá-las como o estão fazendo. Porque política não admite vácuos. O recuo da esquerda evitando o combate à direita alemã facilitou a ascensão do nazismo, assim como o recuo dos comunistas italianos facilitou a chegada de Mussolini ao poder. Mas tudo isso, felizmente, é, ao menos por enquanto outra história… e a História ‘não se repete. Deixa lições, que nem todos sabem recolher.

Pela primeira vez desde 1964 – lembrai-vos da ‘Marcha da Família com Deus pela Liberdade’ –, nossas direitas vão às ruas levando multidões, classe-média, ‘elite branca’ pouco importa, um milhão na Avenida Paulista como celebra a Rede Globo (reproduzindo informações da PM paulista), ou 210 mil como afirma o Datafolha, não importa; em qualquer hipótese serão sempre multidões, gritando eslogans contra Dilma, que recém ajudamos a eleger e que apoiamos.

Quantos dos manifestantes eram renitentes eleitores de Aécio no segundo turno? Informa o Datafolha que eram nada mais nada menos que 82%. A partir daí não se pode mais falar em ‘manifestação apartidária’. Mas a questão ainda não se reduz a números porque o fato objetivo é que parcela tão considerável do eleitorado, passado o pleito, continua mobilizada como se não estivesse esgotado o processo eleitoral e a presidente tomado posse. A questão não se reduz a números porque as manifestações, políticas por natureza, não se pautam precipuamente por reivindicações políticas: o atrator é o ódio a um partido, ao PT, e à presidente; a questão ainda não é aritmética, porque, também pela primeira vez (desconheço outro registro histórico) as direitas foram às ruas carregando consigo aqueles que sempre foram os símbolos das massas de esquerda nas ruas: o verde-amarelo, a camisa da seleção, o hino nacional (lembram-se os leitores da campanha pelas ‘Diretas-já’?, com o Artur Moreira Lima ao piano e a Fafá de Belém cantando o hino nacional?).

Nesta apropriação (porque as esquerdas deixaram cair o bastão) há, todavia, menos amor ao Brasil do que ódio ao ‘outro’, o diverso. Como muito bem assinala Luiz Fernando Vianna (FSP,16.3.15): “Ontem [domingo], em Copacabana, observando alas da classe-média exercendo o direito democrático de odiar o PT, era impossível não perceber no uso do verde-amarelo o velho recurso de ocultar sob um signo de união (as cores nacionais) um desejo de exclusão: o país é ‘nosso’, não ‘deles’”.

Esse artifício é cediço como toda tática da direita, aqui e em todo o mundo xenófoba, excludente, maniqueísta, egoísta. A praia é ‘nossa’, de fora fiquem os ‘farofeiros’; a universidade é ‘nossa’, de fora fiquem os pobres e os negros, que também devem ficar fora dos aviões de carreira; os pobres e negros (pobres por serem negros) não deveriam ter acesso ao crédito, pois os carros que hoje entulham as cidades não são os ‘nossos’, mas os ‘deles’, penetras em nosso capitalismo. Nosso é ‘o direito’, deles a ‘obrigação’. Na avenida Paulista – onde estão a Fiesp e as sedes dos grandes bancos e das grandes empresas, uma jovem manifestante conduzia (domingo)  um cartaz no qual se lia: ‘Eu tinha empregada. Não posso ter mais porque não posso pagar os encargos sociais’. O ‘nosso’ é uma delimitação de espaço (político, econômico, social, simbólico) que revive a grande disjuntiva da formação colonial brasileira denunciada por Gilberto Freyre: a casa grande e a senzala. O espaço do ‘nosso’ é a casa grande; o espaço ‘deles’ é,… do lado de fora.

Simbólica das esquerdas brasileiras pós-1935 foi sempre a defesa da legalidade e da democracia, seguidamente fraturadas pela direita brasileira. Pois é essa direita – que golpeou a democracia em 1954 (suicídio de Vargas), em 1955 (tentativas de impedir a posse de JK), em 1961 (tentativa de impedir a posse de Jango e imposição do Parlamentarismo) e, finalmente, em 1964, o golpe vitorioso que nos custou anos de trevas – que nos vem agora falar em democracia no mesmo discurso em que claramente reinvindica a ruptura da legalidade.

Não se trata de cotejar números, mas de encarar o sentido profundo da manifestação que não era, a sério, um protesto ‘apartidário’ contra a corrupção (não se combate a corrupção ao lado de Agripino Maia, nem pedindo que a presidência seja entregue ao PMDB), mas sim de um protesto para varrer o PT do poder. E, varrendo o PT, varrer tudo o que cheire a esquerda. O objetivo é este, iluda-se quem assim achar melhor.

Também não é necessário lembrar que o governo está submetido a um massacre midiático desde a vitória da presidente Dilma. Nem como os meios se comportaram nas coberturas das passeatas do dia 13 e do dia 15 de março.

Após 30 anos do fim da ditadura, um jovem de 26 anos, morador do miserável bairro de Anchieta, no subúrbio carioca, desfila na Avenida Atlântica com um cartaz no qual se lê: ‘S.O.S. intervenção militar’.

É preciso que as esquerdas façam sua autocrítica (o expediente saiu de moda com o fim do ‘Partidão’?):

– Que fizemos nós que não conseguimos explicar à juventude de hoje o que é uma ditadura e, precisamente, o que foi a nossa última ditadura? O que ela significou em 30 anos ceifando a liberdade – inclusive a liberdade de imprensa--, com seu inventário de milhares de exilados, de presos, de torturados e mais de 600 ‘desaparecidos’, deixando como legado econômico a maior dívida externa do mundo, uma inflação em torno de 250% ao ano e as mais altas taxas de desemprego?

É isso o que eles querem de volta?

Que erro cometemos para que essa reivindicação voltasse à tona 50 anos após o golpe, e 30 anos após a retomada do processo democrático?

Nas caminhadas e passeatas tivemos presenças e ausências significativas. A presença de um anti-comunismo démodé e artificial (a serviço de que e de quem essa idiotice temporã?), as agressões bestiais a Paulo Freire, os insultos pornográficos a Dilma e a Lula e ao PT, pedidos de impeachment, e muita condenação ao insuportável clima de corrupção que nos assola, corrupção que a esquerda apenas vê pelo lado sociológico, enquanto a classe média só vê pelo lado ético. Também neste ponto, as esquerdas precisam fazer sua autocrítica. Corrupção é corrupção, e não deixa de ser corrupção porque a crise que ela gerou está sendo usada, como todos sabemos, ora para debilitar o governo, ora para debilitar a economia destruindo economicamente a Petrobras, principal responsável pelos mais de 500.000 empregos do setor de óleo e gás.

Mas houve ausências. Os manifestantes que pediram, e o fizeram justamente, cadeia para os políticos corruptos, se esqueceram dos empresários – grandes empresários, todos com suas empresas na Avenida Paulista e ávidos por comprarem os ativos da Petrobras que estão à venda porque eles a assaltaram; são responsáveis e ao mesmo tempo beneficiários da corrupção ativa que promoveram, eles é que maquinaram o cartel de empreiteiras formado para assaltar a Petrobras. E desta feita as ruas não falaram em reforma política, nem em reforma agrária, nem em reforma alguma. Não se falou em educação, não se falou em mobilidade urbana. Nenhuma crítica ao Congresso nem aos seus presidentes, nem mesmo a Sarney, nem a ninguém. Donde se conclui tudo está bem.

De comum, em todas as manifestações, o ódio ao PT, desafiado a refazer-se sob pena de levar consigo, em sua crise – crise política no plano interno, crise de identidade ideológica e crise manifestada no desapreço que hoje lhe dedica a sociedade – todas as forças de esquerda brasileira.

O PT precisa fazer autocrítica para responder à indagação que lhe fazem seus companheiros de viagem: qual a razão de tanto desamor?

Certamente seus dirigentes já terão feito o exercício que a presidente iniciou na mesma tarde de domingo. Há uma crise, e ela não é irrelevante, e precisa ser atacada de frente, e logo. Há fundamentos econômicos consideráveis alimentando a crise política. Há uma crise na relação de governo-presidente com as ruas mobilizadas pelos partidos de oposição, à frente de todos, consabidamente, a grande imprensa. Há uma crise nas relações do governo com o Congresso e essa crise dificulta a governança, que, assim, corre o risco de ter dificuldades com suas bases de sustentação oral, já assustadas com a parte que lhe cabe no ajuste fiscal. E há a evidente crise de sua (do governo) base parlamentar, formada em sua grande maioria – eis um dos aspectos da tragédia brasileira – por partidos-siglas (porque formações gelatinosas sem esqueleto e sem eixo); essa crise tem dois nomes, o seu partido, o PT, paralisado, atônito, acossado na imprensa, incomodado no Congresso, hostilizado nas ruas, e o PMDB, infiel e ressabiado. O Congresso permanece distante do controle do governo e a ele hostil, como também hostil ao PT. O maior partido da Câmara está fora da Mesa, exerce papel secundário na principal CPI da Casa, criada, aliás, tão só, para gerar problemas ao governo e ao PT. O que está conseguindo. A presidente certamente já está conversando com o ex-presidente Lula, o único líder capaz de retomar o diálogo com as ruas, e a última esperança de salvação para o PT. E o vice-presidente da República – até há pouco arredio –  é, a olho nu, o único personagem que, a esta altura, pode trazer de volta o rebanho pemedebista para formar uma base confiável, antes que sua liderança seja totalmente erodida dentro do próprio partido, pelos seus aliados e concorrentes Eduardo Cunha e Renan Calheiros.

A busca da governabilidade é tão difícil quanto necessária.