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Política

Rosa dos Ventos

A “base” morde e assopra

por Mauricio Dias publicado 12/12/2011 13h42, última modificação 12/12/2011 13h42
Quando a maioria governista pressiona mais que a oposição
grafico mauricio

Base de apoio do governo na Câmara dos Deputados

Para garantir o sucesso da candidatura de Dilma à Presidência e, em caso de vitória, montar uma base no Congresso capaz de garantir para ela a estabilidade política, que os acadêmicos chamam de governabilidade, Lula abriu a malha da rede de pegar aliados na eleição de 2010.

Assim, a vitoriosa campanha eleitoral da petista reuniu dez partidos (PT, PMDB, PDT, PCdoB, PSB, PR, PRB, PTN, PSC e PTC), que resultou numa “base consistente” na Câmara, segundo denominação do Diap (tabela), formada por 336 deputados. Além disso, após a posse, passou a ter um “apoio condicionado” de mais 87. São 423 deputados de um total de 513. Uma maioria capaz de multiplicar os pães e transformar água em vinho.

Lulacomocandidato é a melhor referência para avaliar a expressão numérica dessa aliança. Em 2002, o PT coligou-se formalmente com PL, PMN, PCB e PCdoB. Em 2006, uniu-se ao PRB e PCdoB. Ganhou nas duas com Lula candidato.

Na “hora da onça beber água”, no entanto, a soma aritmética da base da presidenta Dilma Rousseff é diferente da soma política. Com a oposição numericamente fragilizada e programaticamente perdida a presidenta se vê emparedada pelos aliados e chega ao fim do primeiro ano de governo enredada nas dificuldades dessa complexa e contraditória coligação partidária.

 

Há dois impactos  mais perceptíveis estimulando essa dispersão governista. Um deriva do outro. As denúncias de corrupção forçaram o afastamento de seis ministros. Dilma não se apressou em afastá-los, mas também não contemporizou com eles. Isso desagrada.

Paratentar manter a coesão da base, a presidenta criou um “nunca antes” equivocado ao permitir que as bancadas partidárias se reunissem para discutir as sucessões nos ministérios. Tradicionalmente, essa decisão é tomada entre o governante e os presidentes dos partidos. Um deles, muito influente, reclama disso com os mais íntimos.

Mulher e, principalmente, uma desconhecida no movediço terreno político brasileiro, Dilma está tendo um duro aprendizado com os aliados, inclusive o PT, nesse primeiro ano de governo. As lições não tardaram.

A primeira delas foi o embate em torno do Código Florestal. Iniciado em maio, só foi aprovado pela Câmaraem novembro.  Foram273 votos a favor e 187 contra, o que pulverizou a teoria do rolo compressor governista. Finalmente, com uma plástica que o governo aceitou, o Código foi aprovado na terça-feira 6 no Senado e voltará à apreciação dos deputados.

 

Embora vez por  outra precise de oxigênio, o Senado é onde o governo respira melhor. Lá, 53 de 81 senadores estão na categoria “apoio consistente” e mais o “apoio condicionado” de outros sete. Mesmo assim a luta, às vezes, é dura.

A batalha agora é para aprovar, com urgência, a Desvinculação das Receitas da União (DRU). Após inverter a pauta do Senado, a presidenta busca a segurança dos votos governistas para bloquear a

emenda que prevê os recursos para a Saúde.

Há, claramente, um jogo de morde e assopra na base governista. Isso expressa insatisfação com o Planalto e, mais ainda, um desalinhamento político quando o assunto é um tanto controverso. Não há nem mesmo, por falta de condições políticas, de “fechar questão” para amarrar o voto dos aliados.

Talvez se encontre uma primeira explicação política para isso se socorrendo na física, com permissão para adaptar a infalível Lei de Newton: toda estabilidadegerauma reação que lhe é igual e contrária.

 

 Andante Mosso: Notas sobre os principais acontecimentos da semana

Política versus economia I

Nos próximos dias, uma pesquisa Ibope trará a medição do impacto das denúncias que derrubaram vários ministros de Dilma.

O foco é a credibilidade do governo e a popularidade da presidenta.

Números das Expectativas das Famílias Brasileiras, da pesquisa realizada em 3.810 domicílios distribuídos por mais de 200 municípios, são favoráveis ao governo. Embora haja uma pequena queda (gráfico),  os brasileiros, principalmente nas regiões Sul e Sudeste, continuam otimistas em relação à situação socioeconômica.

Esse resultado cria um confronto aberto entre o peso da política e o da economia na sociedade.

 

Política versus economia II

Comonas pesquisas anteriores, a expectativa mais positiva está entre as famílias que recebem de quatro a cinco salários mínimos e não entre as de rendimento muito baixo.

Pelo nível de instrução, o otimismo maior está entre os graduados  e pós-graduados. A expectativa  de consumo de bens duráveis continua elevada.

 

Articulações

O parque de tancagem da Refinaria de Manguinhos (RJ), com capacidade para armazenar cerca de 200 mil metros cúbicos, pode reunir dois personagens controvertidos do meio empresarial: Ricardo Andrade Magro, amigo do deputado Eduardo Cunha e dono da refinaria,
e o banqueiro Daniel Dantas.

O fio de ligação entre os dois é o advogado Francisco Mussnich, amigo de Magro e cunhado de Dantas.

 

Angu do Gomes

Paulista de nascimento e cearense de coração, o trepidante Ciro Gomes retornou à cena política brasileira após alguns meses de silêncio.

Apresentou-se como pré-candidato à Presidência da República e, para contrariar o governador Eduardo Gomes (PE), presidente do PSB, atacou o senador Aécio Neves, pré-candidato tucano também à Presidência  em 2014.

Ele também mandou bala no PT.

Malgrado algumas de suas ações e contradições, Ciro Gomes é um importante analista político, principalmente quando diz coisas assim:

“Precisamos tomar cuidado em transferir o chicote moral para certos grupos de mídia”.

Eduardo e Sérgio

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, reaproximou-se de um velho aliado: o deputado  Eduardo Cunha (PMDB).

Mesmo expurgado da base do governo federal, Cunha trabalhou com sucesso para bloquear a convocação de Cabral para explicar, na Câmara, as frequentes viagens que faz ao exterior.

Cabral havia bloqueado a histórica influência política de Cunha no Fundo de Previdência da Companhia de Águas e Esgotos doRio (Cedae).

A pacificação pode ter sido
feita pelo influente empresário Fernando Cavendish, amigo do governador e do deputado.

 

Fundo público

O PSD do prefeito paulistano Gilberto Kassab esqueceu-se de informar ao Tribunal Superior
Eleitoral o número da conta bancária para receber o primeiro duodécimo do Fundo Partidário, relativo ao mês de novembro, no valor de R$ 83.473,39.

A dotação do Fundo, atualizado até novembro, foi de R$ 265.351.547,00, fora o repasse de R$ 41.966.202,00, relativo a multas eleitorais. É uma bolada que leva em conta, principalmente,
a representação parlamentar.

O PT lidera o ranking, conforme mostra a relação (tabela) dos dez maiores beneficiados.

 

A deusa corada

Além da cinquentenária escultura de Ceschiatti, à frente do prédio do Supremo Tribunal Federal, em Brasília, qualquer outra estátua de Têmis no Brasil deve estar, ultimamente, de face avermelhada.

A deusa grega da Justiça, originalmente vendada, se vê retraída e envergonhada, com o comportamento corporativista da Magistratura brasileira.

É o caso de fulanizar a história e citar o presidente da Associação de Magistrados Brasileiros, Nelson Calandra. Ele reagiu de maneira rasteira às declarações da ministra Eliana Calmon, corregedora nacional de Justiça, que propôs redução das férias de 60 dias dos magistrados, equiparando-os a outras categorias profissionais.

“Ela (Calmon) ao longo de sua trajetória, jamais deixou de usufruir os dois períodos.”

Os magistrados, anteriormente, reagiram à proposta de trabalhar oito
horas por dia. Agora, negociam aumento salarial superior a 50%.

Calandra apresenta-secomoa voz de toda a Magistratura. Se é assim, os argumentos da Magistratura são bisonhos.

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