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São Paulo

“Somos estigmatizados”

por Marcelo Pellegrini — publicado 22/04/2013 18h24, última modificação 22/04/2013 18h24
Moradores da Comunidade Nelson Cruz, onde vivia o jovem acusado de matar um estudante, relatam episódios de abuso policial após o crime
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Moradores da favela Nelson Cruz realizam atividades com adolescentes na entrada da comunidade. Foto: Associação Nelson Cruz

Cerca de 800 famílias vivem às margens da avenida Celso Garcia, área comercial decadente do Belém, um bairro de classe média da zona leste de São Paulo. Foi ali, na comunidade Nelson Cruz, que cresceu o adolescente acusado de roubar e matar o estudante Victor Deppman. O crime chocou o País e reavivou os apelos para a redução da maioridade penal.
Desde que o caso de latrocínio (roubo seguido de morte) ganhou repercussão nacional, a comunidade passou a ser alvo de investidas policiais e de um processo que as lideranças locais chamam de “estigmantização” da comunidade. “Todos foram rotulados como bandidos em conflito com a lei”, sentencia Dudu Matos, o presidente da Associação da Comunidade Nelson Cruz.
Vizinha do bairro há 40 anos, a comunidade relata que sempre teve dificuldade de ser integrada à rotina dos moradores de classe média. A situação, no entanto, piorou logo após o jovem estudante ser assassinado por um adolescente da rua Nelson Cruz.
“Desde o assassinato do Victor estamos vivenciando um preconceito explícito em atividades do nosso dia-a-dia”, conta Matos. “Moradores estão se queixando de serem estigmatizados em supermercados, escolas e até em postos de saúde”.
A generalização do preconceito em relação aos moradores alcança até as forças de segurança pública, segundo os relatos. “Poucos dias antes da morte do menino, três policiais da Rota (grupo de elite da Polícia Militar de São Paulo) invadiram minha casa, sem mandado, sem nada, e intimidaram minha filha de 14 anos com perguntas por mais de 40 minutos”, conta uma moradora que não quis se identificar. “Minha filha ficou muito assustada e agora não tenho confiança de sair para trabalhar e para estudar e deixá-la sozinha em casa”, relata a mãe. Segundo ela, a invasão ocorreu fatidicamente no dia do aniversário da menina.
De acordo com os moradores, as ações de intimidação não são recentes: elas se intensificaram desde o começo deste ano, quando a comunidade conseguiu acessar o programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal. Por meio do programa, serão construídas oito torres, todas com elevador, para urbanização da favela. “Esperamos que, com a urbanização, os moradores do Belém nos enxerguem de outra forma e parem de tentar nos discriminar e nos expulsar do bairro que estamos instalados há mais de 40 anos”, afirma Dudu Matos. A Associação Nelson Cruz foi a responsável por elaborar o projeto. A construção das torres ainda aguarda a avaliação técnica da prefeitura para sair do papel.
Em um ato de protesto, realizado pela comunidade no domingo 21, dezenas de relatos denunciaram as pressões sofridas pela comunidade. As histórias são de todos os tipos: desde moradores que não conseguiram emprego no bairro devido à discriminação até um caso de dois carros não identificados que passaram atirando na rua da comunidade para intimidar moradores. ”Ninguém mais fica na rua depois das dez da noite”, conta outro morador a CartaCapital. “Antes, a rua era cheia de vida, com conversas e atividades até tarde. Agora, todos estão acuados em casa”.
Com frequência,  a Associação Desportiva da Polícia Militar (ADPM) do Belém e a Associação do Belém são descritas pelos moradores da rua Nelson Cruz como os principais opositores da presença da comunidade no bairro tradicional paulistano.
Em outro caso de abuso policial, jogadores do Juventude, o time da comunidade, relataram à reportagem que, há cerca de 15 dias, a bandeira e materiais de pintura e divulgação do time foram incendiados por policiais da Força Tática da PM. Os vestígios do fogo ainda estão sobre o asfalto. “Todos estamos oprimidos. Sentimos que não podemos confiar e recorrer a ninguém”, diz um dos jogadores em referência à polícia. Nenhum morador quis se identificar à reportagem por medo de represálias.
Em nota, a Secretaria de Estado da Segurança Pública informou que não tolera a prática de abusos e crimes por agentes do Estado, sejam eles policiais militares ou civis. Além disso, disse não ter conhecimento dos casos relatados pelos moradores, mas informou que eles serão alvo de apuração. Se ficar comprovada a prática de abusos, os policiais envolvidos serão punidos – a depender da gravidade do caso, podem até ser expulsos da corporação.