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Política

Eleições 2010

“Outros candidatos não têm coragem de enfrentar a classe dominante”, diz Plínio

por Bruno Huberman — publicado 06/09/2010 10h54, última modificação 06/09/2010 17h10
Em entrevista exclusiva o candidato à presidência da República pelo PSOL fala sobre a Reforma Agrária no Brasil, que de tão delicada precipitou o golpe de 1964
O PSOL descarta o udenismo

Em entrevista no mês de abril Plínio Arruda Sampaio falou à CartaCapital como seria sua campanha. A Sergio Lirio. Foto: Agência Brasil

Plínio Arruda Sampaio, candidato à Presidência da República e colunista do site de CartaCapital, é dos poucos que pleiteiam o cargo máximo do Executivo nacional a defender abertamente a Reforma Agrária no Brasil. Esse posicionamento, considerado radical por muitos, tem incomodado a classe dominante brasileira, representada no campo pelos interesses do agronegócio.

Em entrevista exclusiva ao site, o candidato do PSOL fala sobre o Plebiscito Popular pelo limite da propriedade da terra em 35 módulos fiscais, a sua história na luta pela Reforma Agrária e a “covardia dos políticos em não combater a elite rural brasileira”.

CartaCapital: Qual é a importância de se realizar um plebiscito sobre o limite da propriedade da terra, ainda mais por ser em véspera de eleições?
Plínio Arruda Sampaio:
Não é um jogada eleitoral, até porque isso tem sido feitos em várias ocasiões. A época que eles procuram é o 7 de setembro, para associar a campanha ao Dia da Pátria. Que na verdade é uma campanha cívica, é uma campanha destinada a lembrar a necessidade de se incorporar a população rural à cidadania. Este país não pode ser uma nação enquanto uma porcentagem grande for excluída da cidadania.

CC: Quais benefícios a Reforma Agrária traria para o brasileiro?
PAS:
A primeira delas é a possibilidade de combater a pobreza rural. Isso teria um efeito enorme na cidade, porque metade da sua pobreza é pobreza rural imediata, que acabou de chegar na cidade. Ainda não entrou na cidade: acampou nela. Essa estaria eliminada porque ficaria no campo. Segundo: a pressão da imigração campo-cidade reduziria muito. Isso com serviço social, educação, saúde e sobretudo moradia. A violência também diminuiria porque uma parte dela é aquele imigrante que não conseguiu nenhuma forma de sobrevivência e resolve partir para o crime.

Outro beneficio seria a inclusão da agricultura familiar no campo, que vai substituir o modelo do agronegócio pelo modelo da agricultura familiar. Nesse modelo, a função básica é o alimento. Então, você teria uma enorme produção de alimento, e isso contribuiria para baixar o preço do alimento. De uma maneira que a pessoa pobre teria dinheiro para gastar em outras coisas porque seria um estímulo para o emprego industrial.

CC: Por que nenhum dos candidatos de destaque defende a Reforma Agrária?
PAS:
Primeiro porque os outros candidatos não têm coragem de enfrentar a classe dominante. Aliás, são candidatos da classe dominante. Eu tenho uma história muito antiga na Reforma Agrária. Eu não estou assumindo a bandeira da Reforma Agrária por um processo eleitoral. Fui cassado em 1964 porque como deputado fui relator do projeto de Reforma Agrária do presidente João Goulart. Depois disso eu trabalhei 12 anos na FAO (Food and Agriculture Organization) fora do País e depois mais vinte anos como consultor quando voltei do exílio. Eu tenho uma luta antiga. Também fui o homem que coordenou o plano de Reforma Agrária do governo Lula. Plano este que ele cortou pela metade e não executou nem a metade que aprovou.

CC: O senhor acha que o João Goulart, se não tivesse acontecido o golpe em 1964, teria conseguido fazer a Reforma Agrária no Brasil?
PAS:
A discussão da Reforma Agrária, na verdade, foi o que precipitou o golpe. A partir da Reforma Agrária, uma conspiração que vinha desde o governo Getúlio Vargas, mas que estava em estado vegetativo, ganhou o apoio da classe latifundiária, fortaleceu-se, e deu o golpe.

CC: Por que o presidente Lula não cumpriu o Plano de Reforma Agrária?
PAS:
Não teve coragem de enfrentar o latifúndio. Não teve coragem de enfrentar o agronegócio. Não teve coragem de enfrentar a classe dominante.

CC: E você enxerga essa força do agronegócio como o único motivo de não ter acontecido a Reforma Agrária no Brasil?
PAS:
O principal motivo é que não teve ainda um governo suficientemente forte, com suficiente apoio popular para enfrentar a classe dominante.

CC: Como seria possível combater o agronegócio atualmente?
PAS:
Tem que ter apoio do povo. Por exemplo, o plebiscito: se ao invés de 10 milhões, nós tivéssemos 30, 40, 50 milhões de assinaturas, nós faríamos a Reforma Agrária. Precisa ter um apoio popular suficientemente forte porque eles dominam tudo. Hoje mesmo (3 de setembro), no jornal Folha de S. Paulo, há um artigo de um pseudo-técnico explicando que é um absurdo a Reforma Agrária, porque o País tem uma grande produtividade, que responde por vinte e tantos por cento do nosso PIB. É tudo cascata.

CC: Como o senhor enxerga as criticas ao seu posicionamento, considerado radical por apoiar questões delicadas?
PAS:
Essa é uma das formas de fazer o combate. Assustar o povo com a ideia de que sou um homem radical. Ninguém gosta de radicalismo e extremismos e com isso eles conseguem neutralizar uma voz contrária aos seus interesses. Isso é feito exatamente para ter esse feito.

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