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Sócio Capital

“Os fieis” da balança no processo eleitoral

por Coluna do Leitor — publicado 19/10/2010 12h28, última modificação 19/10/2010 16h32
Os servidor público Elias Botelho escreve sobre o denuncionismo e o processo de satanização das candidaturas

Os servidor público Elias Botelho escreve sobre o denuncionismo e o processo de satanização das candidaturas

O período eleitoral tem servido não só para discussão de propostas de governo como para denúncias e satanização de candidaturas. Ruim para democracia que perde a oportunidade de debater questões relevantes ao bem-estar de toda nação. Quando a religião começa a interferir diretamente num processo eleitoral, cria-se uma dúvida quanto aos verdadeiros objetivos desta. Sem esquecer que essa confusão entre religião e política pode no futuro gerar ressentimentos nocivos ao país, considerando que ainda somos um país laico.

Eu ainda não consegui entender porque em nome da religião, pessoas usam de impropérios para difundirem conceitos que não contribuem em nada para evolução de um povo. Claro que as igrejas, como qualquer grupo de pressão deve buscar um lugar ao sol. Aliás, é assim que se deve comportar a sociedade organizada. De outro lado, não se deve usar na política um aspecto puramente religioso. A política deve servir tão somente a discussão de idéias de uma coletividade para se abstrair um consentimento geral. A religião, a priori, deve tratar das questões da salvação de cada indivíduo e de sua alma.

Pode-se dizer que a política não se resume em todo mal como se apregoa; bem assim como a religião que não representa o bem de tudo como querem. Esta como não pode viver totalmente fora da realidade material, se organiza cada vez mais para defender seus interesses. Nesse viés, as duas se unem nos mesmos ideais e fazem o mesmo discurso. Não há como negar que ambas precisam uma da outra. Contudo, quando tais instituições se encastelam em seus pensamentos maniqueístas, sobram ignorância, fanatismo e repugnância.

O que temos visto nessas eleições são evangélicos e católicos usando seus espaços de orações e rezas para um fim político. Em alguns estados como no espírito Santo, o Fórum Político Evangélico do Espírito Santo e a Associação dos Pastores Evangélicos da Grande Vitória (APEGV), já se pronunciaram que vão fazer campanha contra Dilma. A razão disso, segundo eles, é que Dilma é divorciada e é a favor do aborto. Têm medo que dogmas e princípios sejam atingidos. Já a TV Canção Nova, por seu Padre José Augusto, destilou seu veneno numa missa ao dizer para não votarem na Candidata Dilma Rousseff (PT), porque ela apoiava o aborto e que "o Brasil ia piorar" se ela fosse eleita, entre tantas maldades. Inaceitáveis pensamentos com caráter alienador.

Estão fazendo de tais boatos uma plataforma política. Isso é ruim para o Brasil. Eles acham que Dilma vai legalizar o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O que entristece, em se tratando de pessoas supostamente bem informadas, é apostar numa idéia sem nenhuma forma real. Tais movimentos, antes de usar a fé de seus seguidores, deveriam convidar os candidatos Dilma e Serra para um debate sobre o assunto. Num estado democrático de direito, esta é a melhor forma de saber a verdade.

De outro lado, todo movimento com artifício moralizador não é bom para a democracia, pois um país que tem um povo voltado à fé: católicos, espíritas e evangélicos, propalar um discurso com essa raiva não vai construir nada. O Brasil é um Estado laico e contempla as múltiplas religiões e seitas, mas não permite que estas interfiram nas ações do próprio Estado. Levar inverdades para dentro dos templos é o mesmo que negar a própria crença na divindade, além de evidenciar que estamos diante da razão cínica de um “poder” emergente.

E tudo leva acreditar que se continuar assim, chegaremos ao final de uma campanha político-eleitoral com fiéis das várias crenças decidindo uma eleição. Nada contra a inclinação para um determinado candidato que deve ocorrer de forma natural. O peso dos fiéis é indiscutível para determinar o vencedor nesse pleito. No entanto, a orientação política dentro dos templos pode custar aos seus “pseudos profetas” um preço muito alto num futuro próximo, considerando, infelizmente, que a política tem uma pequena sombra profana, enquanto a religião, ainda não.

Elias Botelho é servidor público Estadual da Bahia - Bacharel em Direito e Escritor.

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