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“O Egito será o próximo Brasil”

por Celso Amorim — publicado 12/06/2011 10h39, última modificação 12/06/2011 10h39
Depois da queda de Mubarak, o Egito enfrenta questões de um país que acaba de conhecer a democracia; nesse cenário, muitos aspectos semelhantes ao Brasil

Essa frase pronunciada pela presidenta (reitora) da Universidade Americana do Cairo, Lisa Anderson, ao fazer a apresentação da conferência que proferi no tradicional Oriental Hall, defronte à Praça Tahrir, no domingo passado, é cheia de significação. Por um lado, denota o otimismo de muitos dos que participaram da revolução de janeiro-fevereiro e cujos desdobramentos continuam a ocorrer. Por outro, demonstra como o nosso país se tornou referência positiva para outras nações em desenvolvimento em busca de seu destino. O próprio objeto da palestra para uma plateia de ministros, diplomatas, professores e jovens estudantes já era revelador do desejo que os egípcios de todas as idades e classes sociais (e mesmo confissões religiosas) têm de aprender com outras experiências de transição política.

No mesmo dia, mais cedo, tive a ocasião de participar de uma mesa-redonda durante uma audiência de, sem exagero, umas mil pessoas sobre o mesmo tema. Havia jovens, professores, moças com o hijab e outras de cabeça descoberta. A que fez parte da minha mesa incluía-se nessa categoria, mas muitas outras demonstravam com sua vestimenta sua convicção religiosa. O traço comum era o desejo de encontrar respostas para o momento crítico que o Egito vive. Muitas dessas questões nós enfrentamos no passado, com respostas que muitos até hoje não consideram satisfatórias, entre elas as relações entre o poder civil e os militares, a responsabilidade por atos cometidos durante o ancien régime ou enquanto durou a repressão, a conveniência de uma Constituinte exclusiva ou a realização, de acordo com as regras atuais, de eleições legislativas, no Egito já fixadas para setembro, ou das presidenciais, ainda não marcadas, mas que presumivelmente deverão realizar-se no início do próximo ano.

Ao ouvir essas perguntas, inevitavelmente me recordei do debate que se travou no Brasil e da insatisfação de muitos com as soluções encontradas, mas também do fato de que, bem ou mal, nossa democracia avançou, permitindo inclusive que os tremores que poderiam ter sido causados pelo processo de impeachment do primeiro presidente eleito por voto direto ou pela eleição, pela primeira vez em nossa história, de um operário, fossem sendo enfrentados com maturidade, a tal ponto que hoje o País goza de uma invejável estabilidade, em clima de total liberdade e dando passos decisivos para a erradicação da nossa maior chaga, a desigualdade.

Lembrei neste particular os grandes passos em direção a uma sociedade mais justa, mas não tapei o sol com a peneira, salientando o muito que devemos fazer especialmente em -relação à questão racial, onde mal começamos a roçar no problema, embalados que fomos durante décadas pelo mito da democracia racial. Felizmente, um dos problemas mais difíceis que o novo Egito terá de enfrentar não tem o mesmo peso para nós: o tema religioso. Não me refiro aqui à Irmandade Muçulmana, cujo fantasma foi instrumentalizado durante tanto tempo, para justificar o autoritarismo, apoiado por aqueles mesmos que, em outros países, tentaram (e ainda tentam) impor a democracia pela força das armas. Na verdade, uma das características deste novo Egito plural é que mesmo entidades tradicionais como a Irmandade apresentam diversidade de opiniões, com uma ala mais conservadora, e uma ala jovem, preparada, aparentemente a dar apoio a candidatos laicos.

De volta ao início deste artigo: o Brasil é visto por muitos como modelo, exemplo de país que superou anos de ditadura, de instabilidade política e econômica e que está a caminho de vencer também a desigualdade. Evidentemente, não nos cabe a atitude arrogante de querer dar lições, não só em razão dos diferentes ingredientes em cada processo, mas também porque ainda temos muitas deficiências a superar. Mas há uma narrativa a ser feita e, desta narrativa os próprios egípcios podem extrair, de acordo com suas necessidades e especificidades, ensinamentos úteis. Os programas sociais e os mecanismos da democracia (sistema de votação, tribunais eleitorais) são áreas evidentes. Mas a política externa, objeto de grande admiração nessas paragens, como pude constatar nas minhas conversas com acadêmicos, ministros e os dois principais candidatos a presidente, também pode dar lugar à cooperação. O novo Egito, diferentemente do antigo, tem todos os atributos para vir a integrar um grupo como o Ibas, que reúne três grandes democracias do Sul (Índia, Brasil e África do Sul). O convívio intenso com esses países, muito mais que os bilhões prometidos pelo G-8, envoltos em condicionalidades, pode contribuir para a consolidação da democracia.

Quando tomamos a iniciativa de criar o foro Países Árabes-América do Sul, não sonhávamos que o nosso diálogo pudesse vir a abarcar temas delicados de política interna. No caso do Egito, isso tem ocorrido e, como deve ser, por iniciativa deles. Não podemos frustrar essa expectativa.

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