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“O Brasil pede pela tempestade perfeita”, diz pesquisador

por Gabriel Bonis publicado 03/07/2011 15h05, última modificação 04/07/2011 11h05
Para o canadense Pat Mooney, José Graziano enfrentará pressão no comando da FAO

“Fui informado de que ele é muito esperto e sabe defender seus interesses”. É assim que o especialista em agricultura, biotecnologia, biodiversidade e nanotecnologia, Pat Mooney define José Graziano, novo diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). No Brasil para uma série de palestras e encontros, na mesma semana em que o brasileiro foi escolhido para comandar o órgão da ONU, o canadense de  64 anos, condecorado com o The Right Livelihood Award, o “Nobel alternativo” do Parlamento sueco, e o Pearson Peace Prize, honraria de seu país, conversou com a CartaCapital, por telefone.

Considerado autoridade internacional em assuntos de governança global, concentração corporativa e monopólio de propriedade intelectual, Mooney esteve no País com sua ONG ETC Group, que apóia o desenvolvimento de tecnologias socialmente responsáveis e “úteis aos pobres e marginalizados”. O canadense mostrou-se preocupado com as discussões no Congresso brasileiro sobre a liberação da tecnologia Terminator, que produz sementes estéreis (chamadas de “suicidas”), incapazes de serem aproveitadas pelos agricultores em mais de uma colheita. “Essa é a mais perigosa tecnologia com a qual temos que lidar atualmente, pois as sementes ficariam concentradas nas mãos de poucas empresas e seu custo seria inviável para os produtores mais pobres”, diz.

As discussões às quais o especialista se refere são os projetos de lei 5575/09 e 268/07 da Câmara dos Deputados, que tramitam em regime de urgência. Ambos pedem a liberação do uso sementes estéreis, prática proibida no mundo desde o ano 2000 e no Brasil, pela Lei de Biossegurança de 2005.

Mooney ainda comentou as espectativas para a Conferência sobre mudanças climáticas Rio+20, que acontece no Rio de Janeiro em junho de 2012, duas décadas após a ECO-92, e afirmou que José Graziano terá muito trabalho para "responder eficientemente à crise de alimentos" e à erradicação da pobreza no mundo.

Acompanhe abaixo a entrevista completa:

CartaCapital: O brasileiro José Graziano foi eleito, no domingo 26, o novo diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). O que o senhor achou dessa escolha?


Pat Mooney:
É certamente uma escolha interessante, pois era a vez da América Latina ter um diretor-geral da FAO. Graziano era o único candidato latinoamericano e sabíamos que o continente teria uma liderança na organização se Lula o apoiasse. Sua vitória não foi uma grande surpresa, mas o fato dela ter sido apertada surpreendeu um pouco. Porém, no final, a grande discussão será se ele vai manter a posição da FAO, por exemplo, contra as “sementes suicidas”, o que tem sido suportado pela organização há 11 anos, ou se sucumbirá à pressão do Brasil e do Congresso para reverter a moratória contra essas sementes.

CC: O que mais lhe preocupa em relação aos projetos de lei que tramitam no Congresso para tentar permitir o uso das “sementes suicidas”, ou estéreis, no Brasil?

PM: Nossa maior preocupação é que a moratória contra as sementes estéreis seja revertida no Brasil. Isso seria devastador, pois a tecnologia Terminator é a mais importante e perigosa com a qual temos que lidar atualmente. Quando esse assunto entrou em cena, as dez maiores empresas de sementes detinham 37% de todas as patentes de sementes do mundo. Agora, as dez maiores companhias controlam 73% e as três mais importantes somam 53%, mas que a metade. Esse controle corporativo de sementes é péssimo para a segurança alimentar mundial.

CC: Falando em segurança alimentar, como o senhor acredita que José Graziano vai lidar com a crise internacional de alimentos?

PM: Precisamos tornar o nosso sistema internacional de monitoramento mais eficiente do que é agora. A crise que enfrentamos em 2007 foi incrível porque, com exceção da FAO, ninguém sabia que a crise estava chegando ou que os preços subiriam. A ONU e Banco Mundial, entre outras instituições, usavam dados de onze anos de idade, o que é ridículo. Agora estamos entrando em outra crise de preços de alimentos e vamos continuar dependendo da capacidade do sistema da ONU em monitorá-la e fazer um bom trabalho, embora seu sistema não tenha melhorado muito. Creio que Graziano tem um grande trabalho à frente para tentar responder eficientemente a esse assunto.

CC: Outro desafio para a gestão de Graziano é a erradicação da pobreza no mundo, principalmente no continente africano. Essa é uma meta possível em curto prazo?

PM: A FAO não com conseguirá fazer isso sozinha, vai precisar de mais comprometimento dos governos africanos - o que não foi alcançado até agora -, além da cooperação de organizações de fazendeiros do continente. Mas há uma boa vontade quando um novo diretor-geral chega a uma organização como a FAO. Por isso, Graziano pode chamar diversos países a colaborarem mais com a FAO do que faziam no passado. Se ele estabelecer que seu objetivo é a erradicação da fome na África e trabalhar nisso, não é algo impossível.

CC: O que falta para que as ações visando eliminar a fome na África sejam mais eficientes?

PM: A África vem sofrendo com a negligência por décadas, então é hora de levar o continente mais a sério e para isso precisamos de boas políticas. A resposta para a falta de água, eletricidade, entre outros aspectos, no continente sempre foi: “temos a tecnologia para solucionar esses problemas”. Mas precisamos de soluções sociais, os políticos vão ter que se assumir seus papeis e tomar decisões de pulso para melhorar o mundo. Recursos técnicos, mão-de-obra, terras e água estão disponíveis, mas precisamos é das políticas certas.

CC: Voltando ao Brasil, em maio a Câmara dos Deputados aprovou o novo Código Florestal, muito criticado por ambientalistas que acreditam que a nova legislação estimula o desmatamento. Como o senhor analisa esse novo Código?

PM: Falamos sobre sementes suicidas há pouco, creio que o Congresso deve ter engolido algumas delas. É impressionante que, com a proximidade de um encontro global para o clima [Rio + 20], o Congresso brasileiro altere seu Código Florestal para permitir uma maior devastação da floresta e que também proponha a revogação de sua própria legislação contra sementes suicidas. Isso me deixa surpreso. É como se o País pedisse pela tempestade perfeita. Caso essa legislação a favor das sementes estéreis passe em 2011, o mundo vai ver o Brasil de uma forma tensa em junho do próximo ano.

CC: O Brasil utiliza, inclusive em alguns projetos de programas para erradicação de pobreza, as chamadas sementes adaptáveis ao clima. Qual a sua opinião sobre essa tecnologia?

PM: Nossa preocupação em relação a essas sementes, além do fato de serem modificadas, é a solicitação de patentes: 261 por cerca de seis companhias no mundo. Além disso, representam um risco para a biodiversidade, principalmente no Brasil, um grande centro de diversidade. Introduzir essas sementes modificadas no País é prejudicial para o resto da diversidade. Os agricultores ficam reféns das empresas que detêm as patentes das sementes para produzirem uma nova temporada de colheita, além disso, o custo é muito alto e inviável para os fazendeiros mais pobres.

CC: Os alimentos produzidos com essas sementes podem ser considerados transgênicos?

PM: Os alimentos transgênicos são baseados em sementes transgênicas. Uma tecnologia sobre a qual não há certezas. Além disso, as empresas não estão tentando investigar os riscos dessas sementes a longo termo, sua segurança alimentar ou o impacto em humanos. Normalmente, é necessário um período de três décadas para que as pessoas comecem a entender as implicações de um experimento, como as sementes geneticamente modificadas. No entanto, os possíveis benefícios destas são marginais ou inexistentes, então não compreendo porque nos arriscarmos com o seu uso, seja no Canadá ou no Brasil.

CC: Em junho de 2012, o Brasil sedia a Conferência Rio+20 vinte anos após a ECO-92, considerada uma das mais importantes em relação às discussões sobre o meio ambiente. O evento vai reunir diversos países para tentar costurar um acordo capaz de evitar ou diminuir os efeitos do aquecimento global. Após o fracasso das negociações em Copenhague 2010, o senhor acredita que um acordo será atingido?

PM: Creio que deve haver alguns pedaços de acordos na Rio + 20. Existe uma grande pressão para que o Brasil mostre sua liderança e ajude a criar um melhor ambiente político para as negociações sobre mudanças climáticas na Conferência.

CC: A intensificação dos debates sobre as mudanças climáticas fez com que muitas ideias de como frear o aquecimento global fossem discutidas, entre a geoengenharia. Do que se trata e qual a sua opinião a respeito?

PM: É uma ideia absurda. Quando a analisamos no passado, muitos acharam que estávamos loucos. A geoengenharia da indústria alterou o clima do planeta e gerou a crise ambiental que enfrentamos hoje, então o que se diz é que, por causa do problema, é possível solucioná-lo. Eles [empresas e países industrializados] querem colocar as mãos no termostato da Terra e afirmam que podem fazer coisas com a atmosfera, estratosfera, com a superfície dos oceanos. Querem sequestrar dióxido de carbono e bloquear a luz solar para proteger o planeta e nos colocar no rumo certo novamente. Tudo isso soa dentro da racionalidade, afinal, os princípios científicos estão aí. Porém, o fato é que não confio que os responsáveis em criar o problema em primeiro lugar possam ser aqueles a alcancem uma solução. Além disso, a ideia de que apenas alguns países industrializados tomem a decisão de quem vai controlar o termostato é assustadora.

CC: Então seria uma desculpa para que os países continuassem com seus padrões atuais?

PM: É um grande conluio dos países industrializados para que não precisem adotar mudanças em suas estratégias de produção, padrões de consumo ou pedir aos seus cidadãos que utilizem o transporte público ao invés de carros. Eles acreditam que podem dizer: “Temos como magicamente consertar o mundo”. Essa é a atração para políticos que querem ganhar as próximas eleições e não perder seus postos por causa das mudanças climáticas. Além disso, é extremamente perigoso deixar que as pessoas acreditem nessas ideias, porque isso pode prejudicar as negociações sobre mudanças climáticas.

CC: Como funciona a geoengenharia na prática?

PM: Há diversas formas, uma delas é lançar sulfato na estratosfera por meio de um longo cano, algo semelhante a um vulcão. Em teoria, as nanopartículas de sulfato se manterão flutuando na estratosfera por cerca de dois anos, mas precisam ser repostas caso saiam dessa camada. Desta forma elas bloqueariam a passagem da luz solar, diminuindo a temperatura entre 1,5º C e 2°C, dependendo de onde a técnica seja aplicada. Há uma discussão para se realizar o procedimento no Hemisfério Norte, em países como Canadá, Reino Unido e Rússia, permitindo a proteção dessa parte do mundo de alguns dos efeitos climáticos, ao menos temporariamente. No entanto, não se sabe os “efeitos colaterais”, é provável que a estação das chuvas na Ásia seja afetada. O custo não é tão alto, é tecnicamente possível. Deve custar entre 25 e 50 bilhões de dólares por ano, muito mais barato que resgatar companhias de carros e bancos atualmente.

Há também a possibilidade de usar navios no oceano para jogar sal nas nuvens, que refletiriam mais luz solar, uma estratégia que interessa a Bill Gates. Uma terceira alternativa seria lançar bilhões de nano espelhos no espaço, que bloqueariam parte da luz solar e poderiam ser controlados na Terra. Vale lembrar que todas essas idéias foram discutidas inicialmente nos anos 90 e acabaram rechaçadas por serem consideradas ridículas.

CC: Em relação à agricultura. Segundo o relatório Perspectivas Agrícolas 2010- 2019, publicado pela FAO, o Brasil terá a maior produção agrícola do mundo na próxima década. É possível chegar a esse patamar sem precisar desmatar áreas?

PM: Com certeza. O Brasil tem uma incrível diversidade, tanto em sua vida biológica quanto em pessoas. É preciso ter a habilidade de trabalhar com os fazendeiros do País e fazê-los responder às mudanças climáticas, tirar vantagem da diversidade biológica do Brasil para se ajustar a essas mudanças. O Brasil é um país grande e se os cientistas trabalharem ao lado dos fazendeiros – e contra eles quando necessário -, muito pode ser feito.

CC: É possível usar menos lotes de terra e produzir mais?

PM: Um estudo de poucos anos do Banco Mundial e da FAO, apoiado por cerca de 60 governos e baseado em quatro anos de pesquisas com mais de quatro mil cientistas, organizações produtoras e indústria, concluiu ser possível, sem o uso de alta tecnologia, adotar formas sustentáveis de produção. Isso não é particularmente difícil de colocar em prática, mas precisamos mudar algumas praticas abusivas atuais que estão destruindo o solo e desperdiçando alimentos. A indústria alimentícia, por exemplo, desperdiça milhões de litros de água e de comida em seu modelo. Precisamos eliminar isso.

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