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“Não aceitamos candidatos”

por Felipe Corazza — publicado 24/09/2010 17h50, última modificação 27/09/2010 10h07
Um dia com Ricardo Young, candidato do PV ao Senado, mostra as amarras da lei eleitoral
“Não aceitamos candidatos”

Um dia com Ricardo Young, candidato do PV ao Senado, mostra as amarras da lei eleitoral. Por Felipe Corazza. Foto: Camila Tarifa

Passar três meses em viagem pelo País e ser obrigado a pagar todas as suas contas somente com cheque. O que parece o roteiro de um bizarro reality show patrocinado pelo sistema bancário é a rotina de campanha imposta aos candidatos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Lei 9.504, de 1997, e a Resolução do TSE 23.217, deste ano, sustentam o surrealismo que acompanha os postulantes a uma vaga no Executivo ou no Legislativo.

Segundo consta do Manual de Arrecadação e Aplicação de Recursos, “os gastos eleitorais de natureza financeira só poderão ser efetuados por meio de cheque nominal ou de transferência bancária”. A segunda permissão não ajuda em quase nada – difícil imaginar que até o tesoureiro mais previdente consiga programar uma transferência para a churrascaria onde a comitiva resolva almoçar nos próximos dias.
CartaCapital acompanhou uma viagem de Ricardo Young, candidato do Partido Verde ao Senado por São Paulo, a Campinas, a uma hora da capital. Entre compromissos com eleitores, palestras e encontros em companhia da candidata à Presidência, Marina Silva, cada folha de cheque carrega o visco do tormento para os integrantes da comitiva.

No caminho, dois pedágios. No caso, ainda é possível usar dinheiro vivo e justificar os gastos com recibo. O limite, diário, para pagamentos em dinheiro é de 100 reais. Como a conta aberta em nome da campanha não pode ter cartões, o saque deve ser feito com cheque. E a pequena verba só pode ser utilizada para despesas de deslocamento. Resumindo: continua a equipe refém do talão.

Primeiro obstáculo, o posto de gasolina. Apesar do onipresente aviso “Não aceitamos cheques. A direção”, nenhum problema ao pagar o abastecimento dos carros de campanha – cerca de 250 reais. Explica-se: o estabelecimento fica próximo de um comitê campineiro, logo, já desistiu de aplicar a regra durante o período eleitoral.

A entourage de Young relata problemas de pagamentos como soldados a exibir feridas de guerra. “Já precisamos chamar a polícia”, conta uma assessora, “para fazer um hotel aceitar o cheque”. As palavras são premonitórias, como constatará a reportagem mais adiante. Outra assessora: “Uma padaria exigia cadastro com cinco dias de antecedência. Como a gente vai adivinhar essas coisas?”

Além da difícil aceitação, cada folha passada pela campanha precisa ser xerocada para constar do site Ficha Limpa – para os candidatos que dele fazem parte. Poucos estabelecimentos se dão ao luxo de uma máquina copiadora à disposição: “A gente precisava fotografar cada cheque com câmera digital”. Depois de algum tempo, o banco resolveu ajudar e as folhas são escaneadas quando compensadas.

O candidato, bem-humorado, avisa que os pagamentos não são a única chateação. Ao saber que a agenda precisaria ser alterada por conta dos compromissos de Marina Silva, chama o repórter e desabafa: “Você viu isso? Acontece sempre. É quase todo dia”. Uma palestra para estudantes encerra o primeiro dia.

O compromisso promete durar algumas horas e parte da equipe quer aproveitar para descansar. O check-in no hotel exige pagamento imediato. Também pela lei, só dois integrantes da trupe estão autorizados a assinar os cheques. Um é o próprio candidato o outro é o tesoureiro, que não pode abandoná-lo. Cogita-se um cheque em branco, assinado. “Mas eles aceitam cheque? Ah, deixa isso pra lá”.

Ainda no evento, um assessor conta mais uma. Para a visita da candidata presidencial, o diretório local tenta fretar um ônibus. É urgente. Nada feito. Para alugar o veículo pagando com cheque, só passando a folha três dias antes. Mais insistência. “O cheque é da campanha, não tem como ser sem fundos.” O locador se convence.

Depois da palestra, quase meia-noite, chega-se ao ápice do problema. Com reservas feitas em um hotel de baixo custo da Rede Íbis, a comitiva parte para o descanso. Quase todos estão instalados nos quartos quando, para espanto do balconista, o tesoureiro puxa o famigerado talão. “Infelizmente, não posso aceitar.” Alguma discussão, sem acordo, e o rapaz começa a ligar para os quartos dos que já haviam subido, avisando que precisam abandonar as camas.

O primeiro quarto chamado é o do candidato, que pede calma e desce. Young repete a explicação dada pelo tesoureiro sobre as regras da campanha, e ouve a resposta, também repetida, do balconista Wellington: “São as normas do hotel. Não vou perder meu emprego por causa do partido”. O argumento é razoável, apesar de não haver qualquer indicação na parede sobre o veto aos cheques.

A falta de gerente no hotel naquele horário é mais um problema. Um vacilo do rapaz e o respeito ao TSE custará seu emprego na manhã seguinte. Fica acertado que o candidato deixará um cartão de crédito como caução, mas que a situação do pagamento será resolvida com o gerente. Mesmo com toda a aula sobre a lei que rege as eleições, o voto de Wellington não foi ganho. “Eu não voto aqui, voto na Paraíba.” E vão todos dormir.

Pouco sono até o encontro com o gerente, Fernando Oliveira. De início, ele recusa o cheque. Ouve, por algum tempo, mais uma peroração do candidato sobre a lei eleitoral – a segunda em menos de 12 horas. Por fim, com alguma boa vontade, cede e aceita. Oliveira garante que não houve qualquer comunicado oficial das autoridades eleitorais sobre a campanha – e a necessidade dos cheques. “Ninguém avisou nada.”

Meia hora de negociação para o check-in, mais meia hora de negociação na manhã seguinte. Ao tirar uma média dos três meses, o candidato observa o tempo perdido durante o processo: “Deveriam permitir, também, cartão de débito, ao menos”.

Para piorar, a sede do PV foi invadida no domingo 19. Foram levados computadores com dados de campanha, fitas com programas eleitorais, recibos de gastos e – sim, eles – os talões de cheque. Sobre o crime, o assessor jurídico do partido, Laércio Benko, é irônico: “Pode não ter sido crime político, mas o ladrão, certamente, era bem politizado”. A polícia investiga. E segue a marcha até 3 de outubro.

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