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Ex-presidentes

Distância entre discurso e a prática

por Gabriel Bonis publicado 02/08/2011 09h37, última modificação 02/08/2011 13h54
Mensagem de posse de ex-mandatários recentes do Brasil não são expressão do momento político da época, avalia livro

A ideia de analisar os discursos de posse de todos os mandatários brasileiros nos últimos 43 anos surgiu quando a bacharel em Letras Edilene Gasparini Fernandes defendia sua tese de doutorado em 2002. Na época, a pesquisa terminava com o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, mas a estudante esperou os governos de Luís Inácio Lula da Silva para fechar a sua obra e transformá-la no livro A Palavra do Presidente – Análise dos Discursos Presidenciais de Posse Desde o Golpe Militar até Lula (Unesp, 221 págs., R$ 35,00), com lançamento previsto para agosto, embora já esteja disponível para compra.

Nas análises, Fernandes se depara com a semelhança da forma dos discursos tanto dos militares quanto dos presidentes eleitos democraticamente. “Sabemos que esses textos são bolados por articulistas e isso já é um grande passo para entender que eles não são a expressão do pensamento do político na época e nem daquilo que o povo espera”, diz, em entrevista a CartaCapital. “Parece que é uma fórmula pronta a fim de cumprir uma pró-forma, então os analiso como peças literárias”.

Porém, a autora também aponta diferenças nos discursos, entre elas a maneira como os presidentes de ambos os períodos se dirigiam ao povo. “Os militares usam substantivos alusivos à guerra, falam de batalhas e missão”, afirma, completando que isso demonstra a dureza do regime. “Não se tratava apenas de uma menção ao povo, mas de uma maneira de mostrar que não havia meias palavras”.

Fernandes ainda destaca que entre os militares percebe-se um descaso com o povo, à medida que os discursos para a população eram menores e mais simples que os dirigidos ao Congresso. Essa falta de empatia, proposital, segundo a autora, precisou ser amenizada conforme a população passou a exigir democracia. “Ernesto Geisel (1974-1979) começa a usar substantivos mais leves, assim como João Figueiredo (1979-1985), mas somente porque eles temiam uma revolução popular”.

Enquanto os militares tentaram por grande parte de seus governos manter um distanciamento do povo, os presidentes eleitos democraticamente precisavam utilizar uma estratégia oposta. Por isso abordam o discurso social, focado na qualidade de vida e combate a pobreza, para aumentar sua credibilidade.

Como exemplo dessa estratégia, a autora cita Lula, que utiliza uma linguagem popular para se comunicar com o povo. “Em seu primeiro discurso, ele fala com entusiasmo, porque a maioria da nação colocava fé em seu governo. Mas no segundo, quando estava desgastado, muda totalmente a abordagem e utiliza uma estrutura baseada em autoajuda e oração, em busca de maior ligação. Isso em um país altamente católico”, conclui.

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