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Política

Saturnino Braga

'A política suga a felicidade'

por Cynara Menezes — publicado 02/10/2011 19h08, última modificação 07/10/2011 11h54
O ex-senador e ex-prefeito do Rio de Janeiro, que acaba de completar 80 anos, diz por que trocou a vida partidária e as disputas eleitorais pela aventura da literatura

Talvez não haja no Brasil um político de carreira tão cheia de altos e baixos quanto Roberto Saturnino Braga. Eleito deputado federal em 1962, acabaria afastado da política pela ditadura até 1974, quando se elegeu senador. Campeão de votos para a prefeitura do Rio de Janeiro em 1985, primeiro administrador da cidade pós-regime militar, sairia sob a pecha de “incompetente”, após declarar a falência do município. Só voltaria ao cenário em 1996, como vereador. Em 2006, após oito anos no Senado, decidiria abandonar a política de vez para se dedicar aos livros.

“A literatura é mais compatível com a felicidade do que a política”, defende. Aos 80 anos recém-completados, Braga está lançando pela Record o romance Cartas do Rio, trama intimista com tintas autobiográficas, espécie de retrato dos casais de sua geração. Escapará à crítica, desta vez literária?

CartaCapital: Por que o senhor abandonou a política?

Saturnino Braga: A partir de 2004, não aguentava mais aquelas sessões do Senado. Eram extremamente chatas, idiotas. O nível baixou muito. Da primeira vez que fui senador, entraram também o Paulo Brossard, o Marcos Freire, o Itamar Franco... Era uma geração de senadores novos, interessantes, porque foi a primeira eleição em que a sociedade brasileira mostrou que queria praticar política outra vez. Dos 22 estados que havia, o candidato do MDB, da oposição, ganhou em 16. Minha melhor lembrança do Senado são aqueles anos.

CC: Já que estava farto, por que não cumpriu a promessa feita ao PDT de dar metade do mandato para o Carlos Lupi?

SB: Realmente, assumi o compromisso de dar para ele não metade, mas os últimos dois anos do mandato. Não foi possível porque o pessoal do PDT tinha ido para a oposição e o PT não quis que eu desse. Por mim teria dado, estava absolutamente saturado. Quando terminou, dei graças a Deus e falei: nunca mais.

CC: Mas as pessoas falam tanto que o Senado parece o céu, é até azul...

SB: Que céu o quê? Aquilo é muito chato. Bom, dizem que o céu também é chato, não sei.

CC: Se fosse escolher hoje, teria preferido ser escritor a político?

SB: Sim. A política é excitante, fascinante, demanda você por inteiro, mas a literatura é mais saudável, compatível com a felicidade. Essa é que é a verdade: a política suga a felicidade. Você está sendo sempre observado, fotografado, comentado, julgado. Não desenvolve seu próprio ser.

CC: Tem gente que adora isso, não é?

SB: Tem, mas é uma falsa adoração, da fama, da projeção. Sobre o ponto de vista humano, do ser, é muito cerceante.

CC: Por que preferiu escrever ficção e não memórias?

SB: Não sei. Até podia, tenho muito material para escrever memórias. Mas gosto mais de inventar do que de contar.

CC: O narrador de seu romance diz que quer escrever a história dos vencidos, não dos vencedores. O senhor se considera um vencido na política?

SB: Sou um vencido, sempre fui. Só passei a ser vencedor a partir do Lula, em 2002.

CC: O senhor se arrepende de ter decretado a falência do Rio?

SB: Naquelas circunstâncias, não. Quando assumi, a prefeitura estava falida. Não fiz mais do que decretar uma verdade que estava escondida. O Rio era estruturalmente falido até que a Constituição de 1988 restabeleceu as receitas municipais, o que entrou em vigor em 1º de janeiro de 1989, justamente quando saí. Aí disseram que o Marcelo Alencar tirou o Rio da falência. Claro, as receitas do Rio triplicaram em valor real. Mas eu saí com a pecha de incompetente.

CC: Millôr Fernandes chegou a dizer que o senhor “desmoralizou a honradez”...

SB: A experiência na prefeitura me foi uma paulada na cabeça, não sei como não tive um infarto, acho que porque meu ser é muito otimista. Mas o que passei, o que escutei, o que li, foi terrível. Sofri o chamado linchamento político, mas continuei saindo na rua. Ninguém falava, um ou outro jogava uma piadinha, mas, pelo olhar das pessoas, a severidade, eu percebia o julgamento. De incompetência, do cara que tinha criado uma esperança enorme e jogou tudo pelo alto. Isso eu senti nitidamente, o desprezo das pessoas.

CC: Seu narrador arrepende-se de não ter distribuído uns sopapos, de ter sido civilizado demais. O senhor também?

SB: Também. Fui a vida toda muito civilizado, essa é uma marca que carrego e não gosto dela.

CC: A certa altura do livro, o senhor fala que a derrocada do socialismo foi causa de depressão para sua geração.

SB: Nem queira saber. Minha geração, na juventude, foi fascinada pela União Soviética. Era a novidade no mundo, tinha resolvido problemas materiais fundamentais do ser humano. Um país- de mujiques analfabetos se transformou numa potência e ainda teve força para parar a maior máquina de guerra que tinha sido montada, a dos nazistas. Também foi o momento em que li O Capital. Para um engenheiro como eu ler O -Capital foi como um míope que colocasse óculos... Quem não era comunista na minha geração não tinha sensibilidade moral, política, social. Na primeira eleição no Rio, depois de 1946, a maior bancada de vereadores era do PCB, o senador eleito era Luiz Carlos Prestes. Estava todo mundo fascinado pelo comunismo. Depois veio a desilusão.

CC: Com o stalinismo?

SB: Stalin era louco, um neurótico. Mas a desilusão com ele, apesar de grande, foi digerível. Pensávamos que Stalin podia ser ruim, mas o sistema era o melhor do mundo. Quando o sistema ruiu pela incompetência, ficamos perdidos: não há o que colocar no lugar. Digo-me socialista ainda, e sigo dizendo que a evolução política vai chegar ao socialismo, mas não pela visão do marxismo-leninismo da conquista pela luta armada.

CC: O senhor nunca acreditou na luta armada. Por quê?

SB: Sempre tive aversão ao sistema de força, à ditadura. E a luta armada tem de implantar uma ditadura, não tem jeito. Se você vence uma revolução, tem de implantar uma ditadura para mudar o sistema. Essa ditadura pode ser muito boa até, no início, mas toda ditadura se perpetua e se degrada.

CC: O senhor confessa no livro que teve medo de entrar na luta armada.

SB: Sim. Muitos amigos meus entraram, foram torturados, o Rubens Paiva morreu. E eu ficava pensando que meu nome devia estar nas anotações deles... Toda noite, quando escutava bater uma porta mais forte, pensava: será que os caras vieram me pegar? Porque eu não tinha envolvimento direto, mas tinha um envolvimento indireto.

CC: O medo é algo que no mundo masculi-no não se admite.

SB: É difícil de admitir, mas para si mesmo, tem de admitir. Eu tinha medo, sim.

CC: Seu romance também é o retrato de uma geração psicanalisada, não é?

SB: Talvez a primeira geração psicanalisada no Brasil. As duas marcas da minha geração foram o socialismo e a psicanálise. Lembro quando se começou a falar no casal Kemper (os alemães Kattrina e Werner chegaram ao País em 1948 e fundaram a primeira clínica de psicanálise do Brasil). Eu tinha vontade- de experimentar, mas achava que ia abrir minha caixa de segredos... Minha mulher, Eliana, sempre foi sujeita a depressões e foi fazer análise. Para quê? Nossa vida azedou muito... Claro, a mulher naquele tempo era de uma submissão total. Foi fazer análise, começou uma série de atritos grandes, confrontou-se com a mãe, com o pai, não só comigo. Mas a gente aguentou e foi ótimo ter aguentado.

CC: No livro, a Barra da Tijuca aparece como o “bairro da sacanagem”, para onde iam os adúlteros...

SB: Sim, era um bairro clandestino. Você dizia que ia à Barra e todo mundo: “Foi fazer alguma sacanagem”. Não tinha o túnel ainda, ia pela estradinha do Joá e tinha meia dúzia de boates e motéis. Praticamente, ninguém morava na Barra.

CC: Hoje como o senhor vê a Barra?

SB: Não gosto da Barra. O Rio para mim acaba no Leblon, no máximo, em São Conrado. Quando era prefeito, em 1987, houve uma grande campanha de separação da Barra do Rio. Combati muito e acabei ganhando, não houve a emancipação. Hoje diria que errei. A Barra é outra cidade, outra vida, não tem nada a ver com o Rio. Deveriam emancipar a Barra e Jacarepaguá e também Bangu, Campo Grande e Santa Cruz.

CC: Leonel Brizola aparece rapidamente em seu livro como um paquerador. Ele era mesmo?

SB: Era, mas no velho estilo, discreto, muito respeitador. Tinha aquela coisa galante, no estilo gaúcho.

CC: Vocês brigavam muito, não?

SB: Nunca fomos amigos. Brizola era um cara difícil, não sei se teve alguma amizade de igual para igual com alguém. Talvez com Darcy Ribeiro. Brizola era o chefe. Tenho o maior respeito, foi um grande brasileiro, honrado, que se interessava pela sorte do povo genuinamente. Mas foi o último da geração dos positivistas gaúchos, que veio de Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros, Getúlio Vargas. O positivismo do Augusto Comte prega que quem tem o saber, a ciência, sabe o que é bom para o povo melhor do que o próprio povo. Getúlio foi o maior estadista do País, mas nunca foi um democrata. Assim era Brizola, fingia, mas não era um democrata. Era um caudilho, embora bem-intencionado. Lula, não. A eleição de um torneiro mecânico foi a síntese do antipositivismo, mostrou que o povo é que sabe o que é bom para ele.

CC: O senhor aprova as UPPs?

SB: Sim, elas eram extremamente necessárias. Claro que têm de ser complementadas. O primeiro ato era ocupar e pacificar (as favelas), mas tem de se seguir o segundo e o terceiro, que são os serviços públicos e a integração econômica daqueles bairros.

CC: Após 23 anos, o Rio continua falido?

SB: Não. O Rio chegou ao fundo do poço, mas já passou. Estão surgindo megaprojetos econômicos aqui com os quais a cidade e o estado nunca sonharam. O polo petroquímico de Itaboraí, siderúrgicas, o porto do Eike Batista no norte fluminense, coisas gigantescas que vão alavancar a economia. O Rio está numa fase ascendente que vai durar algumas décadas. •

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