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‘Quando uma floresta cai é irreversível’

por Gianni Carta publicado 21/08/2011 12h00, última modificação 23/08/2011 15h28
Frase de um ativista em protesto em São Paulo ilustra movimentações contra a construção da Usina de Belo Monte que sacodem o Brasil e envolvem 16 países, mas o governo federal não quer dialogar
‘Quando uma floresta cai é irreversível’

Frase de um ativista em protesto em São Paulo ilustra movimentações contra a construção da Usina de Belo Monte que sacodem o Brasil e envolvem 16 países, mas o governo federal não quer dialogar. Por Gianni Carta

São Paulo, 20 de agosto, 17h. Sany Kalapalo, índia xinguana, empunha o megafone e repete o que vem dizendo no seu blog: ‘’O governo brasileiro está insistindo em construir em terras indígenas a terceira maior hidrelétrica do mundo, prejudicando vários povos que necessitam do rio para sobreviver’’. Aplausos. ‘’Não podemos deixar isso acontecer, temos de gritar pelas florestas do nosso Brasil.’’

Chove, a noite cai. Mesmo assim, centenas de pessoas, entre elas ambientalistas e integrantes das comunidades indígenas Kapalo, Kamayurá e Xavante, entre outras, escutam Sany, de 21 anos. Estamos nas cercanias do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), alvo mor do protesto. Em fevereiro de 2010, vale lembrar, o Ibama emitiu a licença prévia para a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, Pará. Em seguida, o governo federal autorizou o empreendimento.

A manifestação contra a construção de Belo Monte teve início por volta de 14h, diante do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Segundo a Polícia Militar, cerca de mil pessoas participaram do protesto, mas organizadores falam em 2 mil manifestantes.

‘’Na primeira manifestação, em 5 de março, havia somente 12 pessoas,’’ me disse Sany. ‘’Mas como você vê, a coisa está crescendo.’’  E neste Dia Internacional da Ação em Defesa da Amazônia, ativistas manifestaram pela mesma causa no Rio de Janeiro, Brasília, e em mais 12 cidades. Segunda-feira, 22, haverá protestos contra Belo Monte em 16 países, entre eles Reino Unido, Alemanha e Turquia.

Já às mesas da privilegiada área paulistana onde ocorre a manifestação, também chamada com orgulho pelos seus habitantes de Manhattan Paulista, a construção da usina no rio Xingu não chega a ser um tema de predileção. Por essas e outras, caciques, guerreiras, ambientalistas com cocares, aquele ativista com uma enigmática máscara branca, e mais a massa de manifestantes com megafones e faixas chamam a atenção.

Empunhando um megafone, agora na Rua Bela Cintra, um dos líderes do protesto grita: ‘’Estamos em sintonia com os indignados do mundo. Nós somos gregos, espanhóis, irlandeses. Sim, somos ainda fracos, mas vamos barrar a construção de Belo Monte’’.

Para Felipe Soares, músico de 34 anos, Belo Monte ‘’prejudica o ecossistema, e é um desrespeito aos povos indígenas’’. Outra questão levantada por Soares, e por vários outros entrevistados, é a ausência da mídia nessa luta contra Belo Monte. O motivo? ‘’Existe um conúbio entre grupos políticos e as empreiteiras e a mídia, você sabe bem disso, tem o rabo preso com essa gente’’, retruca um ativista que pede para não ser citado.

Já a guerreira Sany, há nove anos em São Paulo e com intenções de estudar engenharia florestal, prefere expor suas ideias sem buscar refúgio no anonimato. No seu blog lê-se: ‘’O governo brasileiro insiste nesta construção violando diversos acordos internacionais, ferindo a Declaração dos Direitos Humanos, por um projeto que coloca em risco a vida de diversos povos nativos do Brasil, por uma gama de dinheiro que está enchendo os bolsos dos políticos envolvidos, em especial o senhor José Sarney, atual presidente do Senado brasileiro.

Assim como Soares, Sany diz ‘’sentir falta’’ de uma cobertura mais assídua por parte da mídia do movimento contra Belo Monte. Por sua vez, Marquinho Mendonça, divulgador da causa, observa:  ‘’Reivindicamos uma comissão incluindo todas as categorias, ou seja, ambientalistas, biólogos, ativistas, etc., para debater a construção de Belo Monte’’. Contudo, o governo federal não parece disposto a dialogar. E, como diz Mendonça, ‘’essa é a briga mais importante de todas porque quando uma floresta cai é irreversível’’.

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