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‘Fim da União Europeia é tragédia política’

por Sergio Lirio publicado 18/08/2011 20h13, última modificação 06/06/2015 18h57
O euro é um instrumento de pacificação no lugar mais ‘encrencado’ do mundo, crise na Grécia foi causada por um governo patife e EUA estão criando uma nova economia. Veja a segunda parte da conversa entre Delfim Netto e Luiz Gonzaga Belluzzo

O euro é um instrumento de pacificação no lugar mais ‘encrencado’ do mundo. A crise na Grécia foi causada por um governo patife, os EUA estão criando uma nova economia e o Tea Party é uma festa que vai durar pouco. Essas são algumas das opiniões do macro-economista Delfim Netto nesta conversa com Luiz Gonzaga Belluzzo. Leia a primeira parte da entrevista .

CartaCapital: Europa e Estados Unidos. O que deve acontecer?
Delfim Netto: Caminhamos para um período de crescimento muito lento. A Europa vai ter agora, sob pressão, que escolher se será uma federação ou se vai rachar tudo outra vez. O custo de desmontar a União Europeia é muito alto, mas sabemos que, quando as coisas não funcionam, desmonta mesmo. Então, acho que a (Angela) Merkel e o (Nicolas) Sarkozy estão dizendo que é hora de dar outro passo. Significa introduzir algum mecanismo mais eficiente de controle fiscal. Seria uma pena acabar a União Europeia, uma tragédia política, pois o euro, na verdade, é um instrumento de pacificação no lugar mais encrencado que o mundo produziu, a Europa. Ele reuniu 17 países com interesses e caminhos mais ou menos na mesma direção. Houve, e aqui de novo, uma desregulação, na qual o sistema financeiro tem uma culpa enorme. Se pegarmos o caso grego, ele é uma patifaria do sistema financeiro em associação com um governo patife. Encobriu-se o déficit que existiu com derivativos, financiou-se o que não devia ter sido financiado. É muito interessante que as agências de risco, que sabiam e eram parte do complô, venham agora e digam: se não honrar a dívida, vamos dizer que não podemos aceitar nenhum acordo, que vamos chamar de default.  Por quê? Houve um conluio entre o poder político e o financeiro, o poder político produzido pelo próprio poder financeiro. Este é que é o ponto. O euro é uma coisa formidável, mas vai precisar de uma ordem fiscal. Vai demorar três, quatro, cinco, seis anos.

Luiz Gonzaga Belluzzo: A questão central é a resistência alemã, não da Merkel, da sociedade, a fazer transferências de recursos para os “gastadores”. É algo introjetado nos alemães.

DN: No que eles estão certos...

LGB: ...Mas atravanca o conjunto do projeto. Quem financiou a Grécia? Fundamentalmente os bancos alemães e franceses, coparticipes da construção desse desastre. A mesma coisa aconteceu com Portugal e a Espanha. O problema da Espanha não é tanto o tamanho da dívida pública.  É o da dívida privada, assim como na Irlanda. Lá a dívida pública e privada soma quase 200% do PIB, um desatino. O Delfim está dizendo que foi a desregulação, o pessoal diz que o euro favoreceu a convergência das taxas de juros e, portanto, os espanhóis passaram a se endividar adoidadamente.

DN: O euro ajudou, a junção com a Alemanha deu credibilidade às dividas públicas dos outros países que não tomaram cuidado. Esse sistema vai ter que ser unificado mesmo, o euro é uma construção política da maior importância e tem de ser cuidado para sobreviver. Quanto aos Estados Unidos, não tenhamos ilusão. Eles vão sair desse negócio. Vai demorar um pouquinho, mas um pouquinho menos que na Europa. Os EUA estão construindo uma outra economia, menos dependente do petróleo, está vendo que precisa de uma outra organização e que o desenvolvimento está indo para o Leste.

LGB: Só para encerrar a questão europeia. Hoje tem um artigo de um articulista do Financial Times que diz uma coisa muito sensata. No curto prazo é preciso que se avance na unificação da emissão de um bônus europeu, para tirar a pressão sobre as dívidas de cada um dos países. O articulista avança um pouco e diz: se a Alemanha não quiser, então os outros países da zona do euro que façam, porque provavelmente haverá uma redução das taxas de juros e isso é fundamental. É fundamental se administrar essa tendência que os mercados apresentam de começar a diferenciar os países e cobrar, porque você está sempre correndo atrás do prejuízo, de cobrar a taxa de juros maiores e desequilibrar, porque a 5%, com as taxas de crescimento que a Europa exibe, não será possível administrar a dívida pública nunca. Então acho que isso é sensato, mas isso tem uma resistência da Angela Merkel. Depois de ter conversado com o Sarkozy ontem e falado na governança europeia, uma boa ideia, ela se recusou a aceitar outra vez uma nova emissão de bônus europeus. Esse é um obstáculo, como o Delfim estava dizendo, hoje as soluções não são tão difíceis de se imaginar, mas de se executar e implementar por causa do bloqueio político. No caso americano isso é obvio. Os EUA estão com uma taxa de dez anos de 2,12%, uma das mais baixas de todos os tempos, que significa que o mercado está disposto a financiar por dez anos o governo americano para que ele realize o que quiser. Mas por que ele não consegue fazer? Porque do lado fiscal há o governo dos idiotas, e esse não surge por acaso, ele nasce de uma construção longa nos EUA que vem da era Reagan, essa questão de precisar tirar o Estado da economia, reduzir o tamanho do Estado, ou então, como eles dizem hoje, esmagar a besta.

DN: O 666...

LGB: É uma dificuldade vencer o preconceito e certas ideias que persistem, a despeito da disfuncionalidade delas. Nos EUA, isso é muito maior do que as dificuldades econômicas concretas.

DN: Os Estados Unidos vão ter de resolver até as eleições de 2012. Até lá, acho que as coisas vão caminhar mais ou menos como estão. Depois vem a eleição e eles vão decidir se escolhem um caminho melhor ou um muito pior.

LGB: Confio muito na estupidez dos candidatos republicanos (risos), porque eles dizem cada barbaridade, como esse governador do Texas. Ele é emblemático, o que diz de asneiras... A última que ele disse é que era preciso matar o Bernanke se ele tentasse fazer um outro quantitative easing. A Michele Bachmann só diz besteiras. Então espero que a estupidez dos candidatos republicanos seja maior que a estupidez do concorrente dos eleitores.

DN: O potencial dos EUA não pode ser posto em dúvida, aquilo no momento que voltar a funcionar... Está funcionando na realidade, em um ritmo muito baixo, mas eu acho que vai ter que decidir aí esse negócio político. O Tea Party é uma festa que vai durar pouco. Se ganhar a eleição, vai durar menos ainda. Se eles perderem, vão continuar fingindo que poderiam ter ganho, mas se ganharem, vai terminar com uma rapidez enorme.

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