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Celulares em banco

‘A proibição nasceu morta’

por Ricardo Carvalho — publicado 08/08/2011 12h15, última modificação 08/08/2011 12h22
Para especialista, os funcionários bancários não têm a prerrogativa legal de exigir que o cliente desligue o aparelho

A Câmara Municipal de São Paulo aprovou, na terça-feira 2, um projeto da vereadora Sandra Tadeu (DEM) que proíbe o uso de celulares dentro de agências bancárias. Caso seja sancionada, a capital se tornará a terceira cidade a adotar a medida – Campinas e Franca, no interior paulista, têm legislação semelhante.

A principal justificativa dos apoiadores da lei é coibir o crime da “saidinha”, quando uma pessoa no interior do banco avisa pelo celular alguém que está fora do estabelecimento sobre clientes que realizam altas movimentações financeiras. Desse modo, os clientes são roubados nas proximidades da agência. A fiscalização da nova lei ficaria a cargo das subprefeituras, que já sofrem com falta de fiscais para outros serviços.

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Para o engenheiro e especialista em segurança privada Cícero Moteran Ramos, a legislação já nasceu morta. Em primeiro lugar, porque nenhum funcionário do banco – seja o gerente, bancário ou o próprio vigilante – tem poder de polícia para exigir que o cliente não use o aparelho.

Além do mais, ele diz que crimes como o da “saidinha” continuam a ocorrer mesmo nas cidades que adotaram a medida. Os bancos tampouco vão se adaptar e instalar compartimentos em que os usuários possam deixar seus aparelhos guardados enquanto utilizam os serviços da agência, afirma Ramos, pelos custos envolvidos e por tratar-se de uma exigência “antimarketing”.

“Não vai resolver nada, apenas vai causar mais constrangimentos ao usuário e onerá-lo com multas”, diz o especialista.

De acordo com ele, seria mais eficiente se os bancos apostassem no aumento dos vigilantes por agência. “Hoje, a maioria dos estabelecimentos tem um vigilante na porta giratória e um numa guarita blindada. Caso houvesse mais profissionais em pontos onde há movimentação de pessoas, como na área dos caixas eletrônicos e nas filas, os crimes seriam mais facilmente coibidos”.

Além do mais, afirma o especialista, os bancos precisam se adaptar à Lei 7102/83, que regula a profissão de vigilantes armados. Desse modo, nenhum estabelecimento bancário poderia funcionar sem pelo menos um vigilante armado, o que não ocorre nas agências durante os finais de semana e no período noturno, quando abrem apenas a área dos caixas eletrônicos. “Para o banco, é mais interessante arcar com os custos de um processo em caso de alguma ocorrência do que gastar com o aumento do efetivo”, diz Ramos.

Por último, Ramos, que também é autor do livro Manual de Gestão de Segurança, explica que falta doutrinação aos profissionais de segurança privada que atuam nas agências.

“Eles estão lá para proteger os clientes e os funcionários do banco. Mas o que acontece é que são instruídos a proteger o patrimônio do banco. O que é um absurdo, porque os valores estão assegurados por apólices”, defende o especialista.

Hoje, para ser vigilante bancário, é preciso ter apenas a oitava série completa (atual nono ano) e fazer um curso de 120 horas, além de aulas práticas. Falta a esses cursos, diz Ramos, uma doutrinação eficiente sobre os deveres e as responsabilidades do cargo. “Infelizmente, quem faz essa doutrinação hoje é o gerente do banco”.

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