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As empresas mais admiradas no Brasil

Uma agenda para retomar o crescimento

por Roberto Rockmann — publicado 10/11/2014 05h29, última modificação 10/11/2014 17h31
O avanço econômico sustentado requer a negociação de um acordo com a sociedade
indústria

Soluções para a indústria, o câmbio e a infraestrutura são prioritárias

Em novembro do ano passado, Gilson Miranda resolveu que tinha chegado a hora de mudar de endereço. A valorização imobiliária ocorrida nos últimos anos, com o crescimento da economia e do crédito, e o aumento de salário obtido com a mudança de emprego permitiram trocar um apartamento de 40 metros quadrados, sem elevador e porteiro, em uma avenida da zona oeste de São Paulo, por um maior, com porteiro, salão de festas, academia de ginástica, a alguns quilômetros de onde morava. Para mobiliar o novo apartamento,vendeu o carro da família.

Corretor em uma administradora do ramo de venda e locação de imóveis em Pinheiros e na Vila Madalena, dois bairros nobres da capital paulista, Gilson teve outra alegria recente: seu filho caçula, Thiago, obteve um ótimo desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Por causa disso e da renda familiar baixa, conseguiu uma bolsa de 100% para cursar Contabilidade em uma faculdade. Tudo seria motivo de comemoração não fossem algumas incógnitas que começam a preocupá-lo.

Em seu emprego, Gilson já nota uma desaceleração no ritmo de negócios, nos segmentos de imóveis residenciais e comerciais. Sua mulher, Maria Aparecida, revendedora de produtos Natura, Avon e Boticário para complementar a renda familiar, também tem sentido um volume bem menor de encomendas dos seus clientes. No supermercado, as gôndolas das compras de fim de mês estão menos abastecidas, e alguns produtos foram trocados por outros mais baratos. “Principalmente em itens de limpeza, temos trocado algumas coisas, mas em alimentação tenho medo do que pode vir”, afirma. A inflação atinge em cheio o bolso. A mudança de endereço trouxe outra dor de cabeça: como vendeu seu carro, tem de chegar ao trabalho de ônibus e despende até três horas por dia no deslocamento.

Gilson integra um grupo de 40 milhões de brasileiros que ascenderam socialmente nos últimos dez anos em um modelo econômico com ênfase na oferta de crédito (equivalente a 25% do PIB em 2001 e, hoje, a 56,3%), no aumento do salário mínimo e na aceleração de programas de transferência de renda e de educação subsidiada. Para o País voltar a crescer de forma sustentada a partir do próximo ano e afastar o risco do “voo de galinha”, será preciso trabalhar em uma ampla agenda macroeconômica e costurar um pacto social. A superação dos obstáculos não será fácil e deverá resultar em perdas. A agenda deverá contemplar: 1. Reforço da indústria e novo patamar do câmbio. 2. Maiores investimentos em educação e infraestrutura, essenciais para elevar a produtividade. 3. Redução da fragilidade externa, com aumento da competitividade e maior incentivo às exportações. 4. Reestímulo ao “espírito animal” dos empresários, com aperfeiçoamentos regulatórios em setores como o de energia. 5. Controle das pressões inflacionárias.

A inflação é hoje uma das principais preocupações dos 202 milhões de brasileiros. Entre 2003 e 2006, o IPCA acumulado atingiu 28%, caiu para 22,21% no segundo mandato do presidente Lula e voltou a subir. De janeiro de 2011 a julho de 2014, o índice acumula alta de 23,87%. Nos 12 meses até agosto, a inflação está em 6,5%, teto estabelecido pelo regime de metas. Uma parte do choque dos preços é explicada pela seca de 2013 e 2014, desencadeadora de pressões sobre os preços dos alimentos e da energia elétrica. A indexação e contratos, resquício dos tempos de hiperinflação e o reajuste de salários acima da inflação nos últimos anos em meio ao pleno emprego completam o quadro. Alterá-lo sem provocar queda de renda é um desafio para quem vencer as eleições presidenciais.

As pressões sobre os preços da energia deverão se manter no próximo ano. Desde 2008, o governo represa os preços dos derivados de petróleo, responsáveis por cerca de 60% do caixa da Petrobras, às voltas com um endividamento crescente. O cenário pode afetar o fluxo de investimentos da empresa, com plano de dobrar a produção em sete anos. O governo acena com reajuste neste ano, e o próximo presidente talvez precise afrouxar o controle sobre os preços dos derivados a partir de 2015.

No setor elétrico, sobram pressões. Em janeiro de 2013, o governo anunciou a renovação de contratos de geração e transmissão expiráveis entre 2013 e 2015. Três geradoras – Cesp, Cemig e Copel – não aderiram às regras por considerarem a remuneração insuficiente. Essa decisão provocou uma descontratação involuntária de 2 mil MW médios em 2013 e de 2,5 mil MW médios neste ano. As distribuidoras tiveram de comprar no mercado de curto prazo a diferença entre o consumo e o montante contratado, a preços recordes de até 822 reais o MWh, em consequência de uma das piores secas das últimas décadas, com um rombo bilionário no setor.

Para atenuar o problema, o governo definiu financiamentos superiores a 15 bilhões de reais, com impacto esperado sobre as contas de luz. A seca obrigou o governo a acionar as térmicas para assegurar o abastecimento. Isso também cria pressões extras sobre os preços. “As térmicas permanecerão ligadas em 2015 e 2016 para recomposição dos reservatórios”, diz João Carlos Mello, presidente da Thymos. O acionamento das térmicas pesará nas contas de luz. “Neste ano, a conta poderá ficar entre 25 bilhões e 30 bilhões de reais para a área de distribuição, principalmente pelos efeitos da descontratação de energia das geradoras. Em 2015 e 2016, com o acionamento das térmicas, pode somar entre 12 bilhões e 15 bilhões de reais em cada ano.” As térmicas são mais caras e o seu acionamento repercute nas contas.

Além das pressões setoriais, há outro nó a ser desatado. Atacar a inflação de fato significa resolver um problema ligado ao passado hiperinflacionário da década de 1980 e início dos anos 1990, a indexação de preços, responsável por cerca de 30% do índice. Matrículas escolares, contas de luz e alugueis têm como principal referência o IGP-M. Essas despesas são reajustadas por terem subido no período anterior, “carregando” a inflação futura. A solução do problema foi deixada de lado por vários governos, por envolver perdas e pressupor um amplo pacto social.

A pressão sobre os preços afeta os juros e o câmbio, ambas ferramentas usadas para controlar a inflação. A taxa Selic, reduzida para 7,25% em 2012, atingiu 11% em setembro depois de nove elevações ocorridas entre maio de 2013 e maio de 2014. O patamar é muito inferior aos 45% verificados em janeiro de 1999, quando o País sofreu por conta de uma megadesvalorização cambial, mas elevado em um momento de taxas negativas em grande parte do mundo. “Se é possível investir com segurança em títulos públicos com rendimento de 11% ao ano, como ter investimentos produtivos?”, questiona o presidente da Fiesp, Benjamin Steinbruch. Inflação e câmbio são duas palavras conjugadas recorrentemente desde 1994, com o início do Plano Real. Por duas décadas, praticou-se uma política de âncora cambial, com uso da valorização do real para atenuar pressões sobre os preços.

De um lado, isso alimenta importações e possibilita viagens ao exterior da classe média. De outro, tem impacto direto sobre a indústria nacional, já debilitada. Em artigo recente, o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira aponta que a taxa de câmbio pode funcionar como interruptor da atividade econômica. “Quando ela está em equilíbrio, flutuando em torno do equilíbrio competitivo ou  industrial (hoje, perto de 3,10 reais por dólar), as empresas competentes do País ficam conec tadas ao seu mercado (tanto interno quanto externo) e suas expectativas de lucro aumentam”, pondera. Mas mexer nessa equação e mudar o patamar cambial não será tarefa simples e terá impactos sobre a inflação, próxima do teto da meta estabelecida pelo BC e com uma parte dos seus preços indexados. “Esse é um dos grandes nós existentes hoje. Desde 1994, estamos com essa política de âncora cambial”, analisa Fabio Silveira, da GO Associados.

Na frente externa, não houve uma tempestade perfeita, como alguns economistas temiam, mas há algumas incertezas. Para Luiz Awazu Pereira, diretor do Banco Central, a política monetária não convencional (juro zero e compra de ativos bancários) aplicada pelas grandes economias desenvolvidas evitou a grande depressão, mas ainda não conseguiu reativar o espírito animal dos empreendedores em meio a várias incógnitas. “Qual será o patamar do crescimento mundial? Haverá mudança de modelos de crescimento? Como construir modelos com menor dívida pública e pacto social atrelados às economias ricas? Como ficará a sustentabilidade ambiental na China e qual seu impacto sobre o crescimento? Como será o crescimento do crédito nesses países no futuro? Riscos maiores ou menores?”, exemplifica.

Neste mar de incertezas, a economia brasileira tem trunfos e fragilidades. Em 2003, a relação entre dívida de curto prazo e reservas cambiais estava em 120%. Em junho, ficou em 25,6%. O endividamento externo, de 38,8% do PIB em 2003, declinou para 14% no primeiro semestre deste ano. As reservas internacionais do País estão em 380 bilhões de dólares, segundo dados do início de setembro, mais de dez vezes acima dos 35,8 bilhões de 2002. “Isso dá um bom colchão em momentos de restrição externa”, afirma o diretor do BC.

O lado negativo é um déficit considerável nas transações de contas correntes. Nos 12 meses encerrados em julho, o saldo negativo foi de 78,4 bilhões de dólares em 12 meses, equivalentes a 3,45% do PIB, resultado, em parte, do déficit da balança comercial, de 918 milhões de dólares. A atração de investimentos externos diretos, superior a 60 bilhões de dólares anuais nos últimos anos, financiou uma parcela significativa do déficit.

O déficit nas contas correntes coincide com um momento de perda de ritmo da economia e resistência da inflação. “O País está crescendo muito pouco, e isso é um grande problema”, diz o economista Antonio Delfim Netto. Do início de 2006 até o fim de 2008, o PIB anual cresceu à taxa média de 5%, a inflação foi de 4,5%, dentro da meta, o valor das exportações cresceu 20% ao ano e o déficit em contas correntes totalizou 13 bilhões de dólares.

Na comparação dos quadriênios 2007-2010 e 2011- 2014, o crescimento acumulado caiu de 19,6% no primeiro período para 7,4% no segundo, enquanto o déficit em contas correntes foi de 98 bilhões para quase 300 bilhões de dólares. A deterioração somou-se à elevação do déficit nominal do setor público, para 3,3% no ano passado. A taxa de poupança caiu de 17% para 12,7% do PIB entre o primeiro trimestre de 2011 e o primeiro de 2014 e a de investimento encolheu de 19,5% para 16,5% do PIB no mesmo período.

A economia deteriora-se e a indústria patina, vítima da política de âncora cambial, usada desde o início do Plano Real para atenuar as pressões inflacionárias. “O  que matou o crescimento foi a falta de um apoio decisivo à expansão das exportações industriais. Sem aumentar os investimentos e dar prioridade efetiva às exportações, não voltaremos a crescer com eficiência e sem problema externo”, diz.

Um dos desafios da indústria nacional será aumentar a integração nas cadeias globais de valor. Segundo o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, ao se pensar na integração às cadeias e na política industrial, é primordial se pensar em um viés pró-exportação. “Déficit alto em conta corrente não é bom, tem de exportar mais, a internacionalização é um hedge de inovação e de moeda.” Aumentar investimentos e exportações exigirá redução do custo Brasil. Para o ex- -secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda Julio Gomes de Almeida, se o Brasil quiser aumentar a renda per capita, dos atuais 12 mil para 20 mil dólares em 15 a 20 anos, deverá adotar reformas econômicas, com destaque para a tributária. “Hoje, o sistema de cobrança é baseado na década de 1960, quando a indústria representava 40% da economia. Isso encarece muito em um setor altamente seletivo. Cerca de 20 países concentram 80% da produção industrial”, diz.

A carga tributária afeta pequenas empresas também. Há um temor generalizado de os pequenos empreendedores aumentarem o faturamento além de 3,6 milhões de reais por ano, teto anual do Super Simples, porque a partir dessa receita a complexidade tributária é enorme. Apenas 7% das pequenas empresas desejam sair do regime, mostrou uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário. As empresas que ultrapassam o limite de faturamento perdem o benefício da alíquota única e passam a calcular e pagar mais de oito tributos separadamente. “Nos fins de ano, quando as empresas atingem a receita de 3,3 milhões de reais, há empresários que abrem outro  CNPJ para se manter no Simples”, diz um industrial.

Para reduzir custos, indústrias do vestuário terceirizam o trabalho das costureiras. “Não fossem terceirizadas, a roupa seria ainda mais cara. Os fornecedores teriam de focar em produtividade, em corte a laser, mas não há estimulo para isso”, lamentou o presidente da Renner, José Galló, em seminário sobre competitividade.

Outro fator de preocupação é a produtividade, abaixo da inflação nos últimos anos. As empresas investem menos em máquinas e  equipamentos e, quando o fazem, importam uma parte significativa. O déficit educacional histórico é outro obstáculo à eficiência. O terceiro é a infraestrutura deficiente. O custo logístico no Brasil é de 10,6% do PIB, 50% mais alto do que nos Estados Unidos. Mas, nesse ponto, o País pode avançar. Nos últimos dois anos, foram licitados 4,8 mil quilômetros em estradas de conexão do Sudeste com o Centro-Oeste. Haverá investimentos de 32 bilhões de reais em 30 anos para a melhora das estradas. Segundo o professor Paulo Resende, da Fundação Dom Cabral, o ganho pode chegar a 10 bilhões de reais anuais. “Os trechos concedidos nos últimos dois anos são rotas importantes para a economia, especialmente no transporte de grãos.”

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