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As empresas mais admiradas no Brasil

Em busca de um novo ciclo de investimentos

por Roberto Rockmann — publicado 11/11/2014 04h23
Projetos têm potencial para impulsionar o PIB e proporcionar uma base ao desenvolvimento
Geraldo Galcão / Agência Petrobras

Depois da borracha, no início do século XX, e do garimpo de ouro, nas décadas de 1970 e 1980, responsável pela criação do estado em 1981, Rondônia vive hoje seu terceiro ciclo de crescimento, impulsionado pela construção das duas hidrelétricas no Rio Madeira, com investimentos superiores a 15 bilhões de reais. No restaurante Mirante II, de onde se avistam o rio e um curto trecho de trilhos da Ferrovia Madeira-Mamoré, desativada há décadas, o movimento é mais alto desde o início dos empreendimentos, em 2007. “Veio mais gente, sim, mais comércio também, até o primeiro shopping center”, diz seu Brito, em Rondônia desde 1957. Entre 2000 e 2010, a população cresceu à taxa média anual de 2,50%, acima da variação da década anterior, de 2,35%. O IDH de Porto Velho passou de 0,613 em 2000 para 0,736 em 2010, com crescimento de 20,07%.

Assim como em Rondônia, uma série de projetos em infraestrutura pelo Brasil afora está em andamento ou foi iniciada e poderá revolucionar a economia brasileira, com aumento da competitividade do País, distribuição de renda e elevação da capacidade de crescimento com menos pressões inflacionárias. O Brasil poderá usar essas obras para fazer com que a taxa de investimento atinja 23% a 24% do PIB, condição essencial para o País crescer acima de 4% anuais de forma sustentada.

Na década de 1970, marcada por um grande ciclo de obras, o investimento em infraestrutura atingiu 5,4% do PIB. Caiu para 3,6% na década seguinte, 2,3% entre 1990 e 2002 e voltou a subir no fim da década passada, para 3,6%. “Precisamos investir ainda mais para superar as lacunas e elevar a taxa de investimento, essencial para o País crescer de forma sustentada. Nesse contexto, as concessões têm importância fundamental e vão impulsionar os investimentos”, afirma o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

As intenções de investimentos em infraestrutura são auspiciosas. Somam mais de 1,19 trilhão de reais em projetos até 2018, segundo a Associação Brasileira de Tecnologia para Equipamentos e Manutenção. De acordo com o BNDES, os investimentos em infraestrutura e óleo e gás, entre 2014 e 2017, superam 1 trilhão de reais, liderados pelo setor de petróleo, com 488 bilhões de reais, 53% acima do investido entre 2009 e 2012. Colocar esses projetos de pé significará destravar as concessões de portos e ferrovias, manter o programa de licitações rodoviárias e aeroportuárias e resolver incógnitas quanto ao setor energético.

Em logística, o governo federal anunciou a retomada das concessões. Desde 2012, já foram licitados 4,8 mil quilômetros de estradas, com mais de 30 bilhões de reais em investimentos nos 30 anos de contratos. Isso terá impacto positivo na eficiência do modal, responsável por 60% da circulação de cargas no País. Um dos principais celeiros de grãos no Brasil, Mato Grosso deve passar por uma transformação nos próximos anos. “As concessões trarão maior eficiência e uma competição muito positiva entre modais em paralelo com investimentos privados em hidrovias”, diz o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso, Ricardo Tomczyk.

Com as obras adiantadas de asfaltamento da BR-163, entre Cuiabá e Santarém, algumas empresas apostam no modal hidroviário. A Bunge inaugurou uma nova rota de exportação, com a abertura de terminais portuários nas cidades paraenses de Miritituba e Barcarena, para utilização da Hidrovia Tapajós-Amazonas. A navegação pelo rio eliminará mais de 3 mil viagens de caminhão por mês para transporte de grãos do Centro-Oeste aos portos do Sul e Sudeste. A concessão da BR-163 tornou o projeto viável. No primeiro ano de operação, o complexo escoará até 2,5 milhões de toneladas de grãos.

Em portos e ferrovias, o governo aposta nas concessões para ampliar a malha de trilhos e aumentar a eficiência do escoamento por navios. O BNDES prevê aumento de financiamentos para rodovias, ferrovias, portos e aeroportos. Neste ano, os desembolsos nas quatro áreas devem atingir 10,35 bilhões de reais, quase 20% acima de 2013. Rodovias e aeroportos receberão 3,81 bilhões e 2,62 bilhões de reais, respectivamente. Para 2016, a previsão é de 20,27 bilhões de reais. As ferrovias receberão 5,58 bilhões e as rodovias, 7,35 bilhões.

“O programa de concessões do governo federal deverá ter um impacto positivo sobre os investimentos em infraestrutura, com as concessionárias em busca de recursos para as suas obras”, afirma o gerente do Departamento de Logística do BNDES, Dalmo Marchetti. O atual modelo ferroviário contempla a construção de novos trechos e cria outra figura, a do operador independente, e impulsiona a demanda por crédito. “Podem surgir novos operadores e maior demanda para financiar frotas de vagões ou terminais de transbordo”, avalia Marchetti. Tradings, operadores logísticos com interesse em operação integrada, concessionárias e players independentes podem atuar nesse nicho.

No setor de óleo e gás, a Petrobras lidera o maior programa de investimentos do setor no mundo. Entre 2014 e 2018, prevê investir 220 bilhões de dólares, principalmente para a exploração da camada do pré-sal, com participação de 22% na produção da empresa neste ano e 52% previstos para 2018. A instalação de 19 novas unidades de produção até o fim de 2018 deverá garantir a expansão. Com esses projetos, a Petrobras espera ultrapassar, em 2017, cerca de 1 milhão de barris diários produzidos nas áreas do pré-sal. A estatal prevê uma produção de 4 milhões de barris por dia, o dobro do que extrai hoje, no início da próxima década. “O Brasil ganhou relevância internacional, a licitação de Libra foi a maior da indústria mundial em muitas décadas e contou com a participação de duas empresas europeias de grande porte e duas companhias chinesas que querem reforçar sua posição aqui”, afirma José de Sá, sócio da Bain & Co.

O dinamismo do setor de petróleo no Brasil mantém aquecidas as carteiras de financiamento dos bancos para estaleiros, barcos de apoio e plataformas de produção. “A demanda no setor continua forte”, afirma Silvana Bianco, executiva de Project Finance do Itaú BBA. Na megacaptação realizada em março, a Petrobras emitiu 8,5 bilhões de dólares em bônus seniores denominados em dólares. A demanda do mercado superou 23 bilhões de dólares.

Explorar o pré-sal exigirá a superação de gargalos tecnológicos para atingir profundidades superiores a 5 mil metros em relação ao nível do mar. Entre 2003 e 2005, antes do pré-sal, a Petrobras investiu pouco mais de 280 milhões de dólares anuais em pesquisa e desenvolvimento. De 2010 a 2012, o orçamento anual saltou para 1,2 bilhão de dólares. O esforço na área tem compensado. O tempo de perfuração de um poço no pré-sal já caiu 55%, de 126 dias, em 2010, para 60 dias em 2013. Como o custo médio de perfuração de um poço é de, aproximadamente, 1 milhão de dólares por dia, a Petrobras economiza, em média, 66 milhões na atividade de perfuração por poço no pré-sal.

O conjunto de obras de infraestrutura planejadas para os próximos anos cria oportunidades para o Brasil se proteger das turbulências externas e incentivar a indústria nacional, pressionada pela alta estrutura de custos e real valorizado. Para o diretor do Instituto de Economia da Unicamp, Fernando Sarti, esse ciclo de investimentos, turbinado pela exploração do pré-sal, poderá ser usado para a economia brasileira evitar a desindustrialização. Entre 1990 e 2009, os investimentos responderam por cerca de 20% do PIB nacional, enquanto na China esteve acima de 40%. “Nós temos oportunidades e haverá demanda, mas ela ficará com indústrias daqui ou de fora? A questão não é apenas de câmbio, e a competição ficará mais acirrada porque a China e países desenvolvidos, como Alemanha e Estados Unidos, buscarão mercados para seus bens neste mundo em crise. O que precisa ser feito é usar essa demanda de forma estratégica, o que pode contribuir para o adensamento de cadeias produtivas geradoras de mais riqueza aqui”, analisa.

Para Sarti, criar inovação e riqueza no Brasil depende de um papel mais ativo do Estado. Por meio de política industrial, o governo pode aumentar as oportunidades em setores competitivos com soluções diferenciadas criadas por empresas brasileiras ou multinacionais com negócios no Brasil. “Isso abre perspectiva de capacitação de fornecedores locais e de criação ou maior inserção em cadeias de valor. A empresa líder do setor é a Petrobras, com dimensão de mais longo prazo e condições de participar de uma política industrial mais ativa. A política de conteúdo nacional é um trunfo nessa situação”, diz.

As oportunidades existentes no setor podem destravar um ciclo de investimentos para fabricantes de máquinas e equipamentos, mas há dúvidas sobre o impacto. “Esse mercado será do Brasil ou dos concorrentes externos?”, questiona Carlos Pastoriza, presidente da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos. Por conta do custo Brasil, uma máquina fabricada no País custa em média 37% mais caro em relação a uma americana ou alemã. Além da logística deficiente e pesada carga tributária, outro ingrediente reduz a competitividade: a defasagem cambial. Em 12 anos, a inflação chegou a 120% em reais, sem correção do dólar.

Os maiores obstáculos estão na regulação do setor de energia e logística. Para a Petrobras avançar na camada do pré-sal, será preciso desatar o nó da política de preços dos combustíveis, que pressiona o caixa da empresa e reduz os investimentos no setor sucroalcooleiro.

Em 2008, as 11 usinas instaladas em Mato Grosso do Sul moeram 14 milhões de toneladas de cana-de-açúcar. Cinco anos depois, 22 usinas processaram 41 milhões de toneladas. “Hoje, as usinas atuais poderiam aumentar sua capacidade para 70 milhões de toneladas e poderiam produzir etanol, açúcar e gerar bioeletricidade, mas com a situação atual fica difícil investir”, comenta o usineiro Roberto Holanda Filho.

Para o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, a política de controle de preços aumentou o pessimismo dos investidores em relação ao governo atual e levantou dúvidas quanto à capacidade de investimento da Petrobras e a sobrevivência do setor sucroalcooleiro. “A política de controle tem sido fatal para a reação dos investidores e traz dificuldades para a estatal, que dobrará sua produção no médio prazo”, aponta.

Em energia elétrica, o fantasma do racionamento voltou a assombrar os empresários. De 2000 a 2012 foram construídas 42 usinas hidrelétricas no País, com acréscimo de pouco mais de 28 mil MW de capacidade. Dessas, apenas dez, com potência de 1,9 mil MW, receberam autorização para a construção de reservatórios de água. Entre 2013 e 2018, serão adicionados 20 mil MW de capacidade hídrica ao sistema, mas apenas 200 MW, ou 1% dessas usinas, têm reservatórios.  O resultado é um sistema mais dependente de São Pedro. A capacidade de armazenamento das hidrelétricas caiu de 6,3 meses para 4,7 meses nos últimos dez anos. “Como as usinas em construção são a fio d’água, esse período poderá cair para 3,8 meses em 2018”, afirma o presidente da CPFL Energia, Wilson Ferreira Jr.

Em logística, será preciso desatar nós jurídicos e regulatórios para as concessões de ferrovias e portos saírem do papel. O modelo das concessões ferroviárias, inédito no Brasil, prevê a construção e operação das ferrovias pelos vencedores dos leilões, que terão toda a capacidade de carga comprada pela estatal Valec. A estatal venderá ao mercado os direitos de tráfego nas ferrovias. Se a demanda for inferior à oferta, o governo bancará o prejuízo. Estima-se que o subsídio possa atingir algo em torno de 40 bilhões de reais em 35 anos.  “Há muitas desconfianças sobre esse modelo. Se as ferrovias atrasarem, isso poderá reduzir a queda de custos logísticos prevista com as concessões rodoviárias”, diz Paulo Resende, da Fundação Dom Cabral.