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Entrevista

A aposta nas concessões

por Luiz Antonio Cintra — publicado 29/10/2013 16h43
Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o País ainda não se deu conta do impacto que Libra terá sobre toda a economia
André Luy / CartaCapital
Guido Mantega

Ao lado da presidenta Dilma Rousseff, Guido Mantega acompanha a cerimônia de premiação das Empresas Mais Admiradas do Brasil

Na perspectiva do ministro da Fazenda, Guido Mantega, a economia brasileira entrou nos últimos meses em um novo momento, em suas palavras, uma “nova era”, a partir dos leilões de concessão, a começar pelo campo de Libra. Apesar dos pessimistas, diz o ministro, abre-se assim um ciclo virtuoso para o País, com a economia sendo puxada não apenas pelo consumo, mas também pelo investimento. A seguir os principais trechos da entrevista, realizada durante a cerimônia de entrega do prêmio As Empresas Mais Admiradas, organizado por CartaCapital.

CartaCapital: Depois de meses de pessimismo, o governo começou a fazer os leilões de concessão. Como o senhor está vendo o atual clima econômico?

Guido Mantega: O clima está melhorando porque a atividade econômica também está com crescimento. Tivemos um primeiro semestre que eu chamaria de bom em relação ao ano passado e em relação aos nossos parceiros e ao G-20. O Brasil teve um desempenho um pouquinho melhor que os demais emergentes, excluída a China evidentemente. Mas somos dos poucos que aceleraram o crescimento no segundo semestre em relação ao segundo semestre do ano passado. Havia alguma desconfiança que está se desanuviando, a confiança está voltando. Refiro-me à confiança dos empresários, que estão investindo... porque o investimento está alto no País. A inflação, que está controlada, contribui para o consumidor readquirir confiança, e os índices de vendas do varejo estão aumentando. A PMC (Pesquisa Mensal do Comércio, do IBGE) tem sido boa, a última foi de crescimento de 0,9%, depois de outra que registrou crescimento de 2,1%. Então está havendo uma recuperação do comércio, com pouco crédito, porém, com recurso próprio do consumidor, que está mais prudente. A inadimplência e o comprometimento da renda também estão caindo, e isso abre espaço para um retorno de algum grau de consumo. Então é uma recuperação da economia brasileira. O importante agora são os leilões das concessões. Já fizemos alguns e estamos aumentando. E fizemos a maior concessão, na verdade, uma parceria, um tipo de concessão, que vai ter um impacto extraordinário na economia brasileira. Acho que as pessoas ainda não se deram conta do impacto no futuro, nos próximos 35 anos, de Libra para a economia brasileira. Libra vai gerar 200 bilhões de dólares de investimentos.

CC: Isso na cadeia do petróleo e gás natural?

GM: Não, em investimento direto, que depois vai aumentar porque há um multiplicador na cadeia. Para a exploração de Libra será preciso comprar plataformas, de 12 a 15, FPSOs (Unidades Flutuantes de Armazenamento e Transferência, na sigla em inglês), navios de apoio... então irá mobilizar toda a cadeia produtiva da indústria naval, inclusive bens de capital, o setor de aço, alumínio, metalúrgico. Tudo isso irá se movimentar e terá um impacto enorme. Nos primeiros 10 anos, serão investidos cerca de 80 de bilhões de dólares, é muito grande. Com isso entramos na era dos investimentos em infraestrutura no País, que irão se adicionar às concessões de estradas, portos, ferrovias, que continuarão. Ainda este ano pretendemos fazer mais dois ou três leilões de concessões. Então entramos nesta rota, que veio para ficar. Com isso vamos mobilizar a economia e melhorar a qualidade dos serviços e diminuir os custos de infraestrutura. No caso de Libra, também aumentará as exportações, o Brasil voltará a ser exportador de petróleo e derivados. É uma conjuntura que caminha numa direção muito boa.

CC: Alguns críticos disseram que o governo correu para fazer o leilão de Libra apenas por estar de olho nos 15 bilhões de reais do bônus de assinatura, que ajudarão a fechar as contas deste ano. Como o senhor responde a essas críticas?

GM: Nós estamos de olho nos cerca de 200 bilhões de dólares de investimentos que virão de Libra. Estamos de olho no avanço tecnológico que está calculado, somente em pesquisa e desenvolvimento diretamente ligado a Libra, de 28 bilhões de dólares, um avanço tecnológico para a exploração em águas profundas, a quinta geração de tecnologia de exploração do petróleo. Estamos de olho no estímulo à indústria de bens de capital, à indústria naval, nos empregos a serem gerados e na melhoria da balança comercial e da conta corrente porque Libra irá produzir um milhão de barris ao dia, 50% do produzido hoje pela Petrobras. E, finalmente, last but not least, produzirá royalties para a educação e para o Fundo Social. De modo que vamos combinar todas essas virtudes. É um ciclo virtuoso na economia brasileira.

CC: O senhor mencionou o setor de bens de capital, que não vai bem, ou melhor, a produção não vai, ainda que as importações tenham crescido recentemente. Quais as perspectivas para o setor, que é chave para toda economia?

GM: O setor de bens de capital, ou seja, o investimento, ele se ressente mais das crises. É o primeiro a cair e o último a se levantar. Desde o ano passado fizemos um grande esforço de criar as condições para o investimento se recuperar, reforçamos o PSI (Programa de Sustentação do Investimento), reduzimos o custo financeiro, o tributário, e o investimento está indo muito bem. A venda de máquinas, equipamentos, caminhões, ônibus e tratores está indo muito bem. Então neste ano o investimento deverá crescer entre 5,5% e 6% em relação ao ano passado, ou seja, o que mais crescerá neste ano é a Formação Bruta de Capital Fixo. A construção civil está indo razoavelmente bem e acelerando agora no final do ano. Portanto, esses setores continuarão a puxar a economia nos próximos anos. Enfim, temos a recuperação do mercado interno (até as exportações estão aumentando) e a recuperação forte dos investimentos. Esses são os dois drivers da economia neste e nos próximos anos.

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