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Primavera Árabe

Vitória dos extremistas?

por Gianni Carta publicado 27/10/2011 09h46, última modificação 27/10/2011 10h38
Segundo especialista Mokhatar Ben Barka, haverá maior resistência às reformas islâmicas na Tunísia sob o comando do Ennahda que contra extremistas na Líbia e no Egito

Na Tunísia, o Ennahda, principal partido islâmico, levou cerca de 40% dos votos no pleito para a Assembleia Constituinte de domingo 23. A lei islâmica, sharia, foi decretada na Líbia. No Egito, em eleições em novembro, a Irmandade Muçulmana deverá sair-se vitoriosa.

Os extremistas foram os vencedores da chamada Primavera Árabe?

Mokhtar ben Barka, professor franco-tunisiano de ciências politicas na Universidade de Valenciennes, na França, ainda tem esperanças de que o secularismo prevalecerá sobre uma política baseada na religião.

Por exemplo, na Tunísia os islâmicos moderados não obtiveram maioria. Portanto, terão de forjar alianças com legendas como o Ettakatol, de centro-esquerda. Nessa coalizão, esse partido poderá dar maior importância à economia que aos moralismos religiosos dos “moderados” do Ennahda.

E aqui entramos no cerne da questão.

Especializado em Oriente Médio e política norte-americana, Ben Barka não crê que o Ennahda seja uma agremiação moderada. Isso explica seu pessimismo em relação à Tunísia.

Ou pelo menos explica suas incertezas em relação ao futuro da Tunísia.

No Egito o quadro lhe parece ainda mais negro.

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A Irmandade Muçulmana vencerá o pleito de novembro. “Seus integrantes têm status político e poder.” Em suma, têm mais experiência política que os ditos moderados na Tunísia.

Por sua vez, a Líbia é um caso perdido. Não somente o Conselho Nacional de Transição (CNT) decretou a lei islâmica, mas o governo será um saco de gatos. Dele farão parte pessoas ligadas à Al-Qaeda. Um dos prováveis novos líderes do alto escalão responde por Abdel Hakim Bekhaj, comandante dos rebeldes líbios e ex-aliado de Osama bin Laden.

Na verdade, a Al-Qaeda sempre esteve próxima de Muammar Kaddafi, que dizia defender o Ocidente dos fundamentalistas islâmicos. “Kaddafi era perverso”, observa Ben Barka. “Ele condenava a Al-Qaeda, e, ao mesmo tempo, apoiava os terroristas quando necessário.”

No caso da Tunísia, “o perigo é o Ennahda inserir a lei islâmica na constituição”. Por tabela, “a religião prevalecerá sobre a política e esse é o grande perigo”. Certamente o presidente interino, nomeado pela Assembleia composta de 217 representantes, será alguém do Ennahda.

Contudo, à diferença do Egito (“a Líbia pertence a outro planeta, apesar da proximidade geográfica"), na Tunísia haverá maior resistência contra mudanças na constituição por parte dos islâmicos.

“Veja, o Islã é a religião oficial da Tunísia. No entanto, desde 1956 a mulher tunisiana é a mais emancipada da região”, oferece Ben Barka. Em miúdos, naquele país onde o aborto e o divórcio são legais, e a poligamia é proibida, haverá grande resistência contra reformas por parte do Ennahda.

“O país ficará dividido entre aqueles que querem levá-lo para o passado e os modernizadores”, avalia o especialista de Oriente Médio. “A Tunísia atravessará tempos duros, mas talvez essa seja uma fase da história necessária para que o país progrida.”

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