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Afeganistão

Vexame completo

por Eduardo Graça — publicado 03/08/2010 09h50, última modificação 03/08/2010 17h29
Documentos vazados no site WikiLeaks detalham a fragilidade, as falhas e a ineficácia das forças dos EUA e da Otan na guerra que já dura nove anos
Vexame completo

Documentos vazados no site WikiLeaks detalham a fragilidade, as falhas e a ineficácia das forças dos EUA e da Otan na guerra que já dura nove anos. Foto: Jim Watson/AFP

Documentos vazados no site WikiLeaks detalham a fragilidade, as falhas e a ineficácia das forças dos EUA e da Otan na guerra que já dura nove anos

Foi como uma bomba no colo de Barack Obama. Na segunda-feira 26, por intermédio do site WikiLeaks, que obteve o material completo, os jornais New York Times e Guardian e a revista alemã Der Spiegel traziam detalhes dos mais de 90 mil documentos secretos com os revezes sofridos pelas forças de coalizão da Otan lideradas pelos EUA nos nove anos de ocupação do Afeganistão. O relato das operações militares não trouxe grandes revelações, mas imprimiram o tom de humanidade que faltava em um processo percebido pela opinião pública norte-americana e excessivamente oneroso aos cofres públicos em tempos de dificuldade econômica.

Os que tiveram tempo e paciência para ler as histórias descobriram que os governos Bush e Obama ofereceram ao público um quadro muito menos repugnante e realista do que se passava no campo de batalha na Ásia Central. De acordo com os documentos, enquanto Washington investia 300 bilhões de dólares na ocupação do Afeganistão, o poder de fogo do Taleban e seus aliados só aumentava. Os insurgentes contam com mísseis de última geração e teriam conseguido até mesmo criar um canal, com o auxílio do Irã, para a compra de armamentos. Os relatos confirmam o uso cada vez mais constante de aviões-robôs, monitorados do QG da Otan, com grandes riscos à população civil e o aumento das atividades paramilitares da CIA em território afegão.

Não há dúvidas sobre as movimentações do serviço secreto paquistanês, que trabalharia em mão dupla e ajudaria os insurgentes. Curiosamente, o homem que comandou a inteligência paquistanesa entre 1987 e 1989, no auge da campanha antissoviética, em que os talebans foram armados pelos norte-americanos, Hamid Gul, é hoje um comentarista na tevê local, pró-taleban e anti-Washington. E os policiais e soldados afegãos treinados pelos ianques são apresentados como incompetentes e desleais, um quadro apocalíptico a pouco menos de um ano do início da retirada das tropas americanas, de acordo com o planejamento da administração democrata.

“Ninguém pode mais negar que a decisão do governo Obama de escalar o conflito no Afeganistão nos últimos meses serviu apenas para dar à atual administração a imagem de que é forte quando se trata de segurança nacional. A única razão de a ocupação continuar é a de que assumir o fracasso total exporia a vulnerabilidade do Império”, atacou o professor de Filosofia da Universidade de Maryland Andrew Levine em um dos artigos mais comentados da semana no site The Huffington Post. Autor de A Future for Marxism? e The American Ideology, Levine foi quem cunhou o termo “bipartidarismo para as guerras”, a união feliz de congressistas republicanos e democratas, sempre dispostos a votar a favor de uma invasão em qualquer canto do planeta.

Não por acaso os documentos – relatórios crus de inteligência, muitos deles sem comprovação imediata, mas com riqueza de detalhes – foram divulgados pelo WikiLeaks um dia antes da votação, pela Câmara dos Representantes, do pacote de 59 bilhões de dólares para outro financiamento das ocupações do Afeganistão e do Iraque. Com o fundamental apoio dos republicanos, o governo Obama conseguiu que os legisladores aprovassem o orçamento de guerra por 308 a 114 votos, mas o que chamou a atenção foi o aumento da oposição no flanco democrata.

O senador John Kerry, comandante do poderoso Comitê de Relações Exteriores e candidato derrotado à Presidência na reeleição de George W. Bush, lembrou que “não importa o quão ilegal tenha sido a revelação desses documentos, o importante é que eles levantam sérias questões sobre a eficácia de nossa política no Afeganistão e no Paquistão”. O conservador Wall Street Journal, em editorial, imediatamente denunciou o “pânico político” da esquerda, alertando para o que qualifica ser uma nova “debandada liberal antiguerra”.

Os editorialistas do jornal de Rupert Murdoch se apressaram em estabelecer um paralelo do vazamento de informações secretas sobre a ocupação do Afeganistão com os famosos Papéis do Pentágono, resultado do estudo de pesquisadores do Departamento de Defesa que cristalizaram as dúvidas dos cidadãos em relação à ocupação do Viet-nã, durante o governo Nixon. “O impacto dos Papéis do Pentágono não se deveu a novas revelações, mas ao provar que os oficiais de fato maquiavam as informações sobre a guerra. O WikiLeaks reforçou a crença de que a estratégia de combate ao Taleban está fadada ao fracasso e que os governos de Kabul e Islamabad não são parceiros confiáveis”, escreveu no Journal o colunista Gerald F. Seib. “É claro que todos tinham conhecimento do apoio dado pelo Paquistão aos talebans. Mas a diferença é que líamos sobre o tema pelas análises publicadas na imprensa. Agora sabemos por causa de documentos secretos produzidos por nossas próprias forças no Afeganistão”, resumiu Leslie H. Gelb, presidente do Counciul of Foreign Relations.

O tom da reação da Casa Branca foi dado na terça 27, em uma reunião de Obama com a imprensa no Salão Oval. “É importante que a revelação dos documentos não leve a um questionamento de nosso compromisso com o Afeganistão. Ao mesmo tempo que me preocupa o fato de esses documentos revelarem informações sensíveis, que podem ameaçar a integridade de indivíduos e de nossas operações na região, o fato é que eles não revelam nada que o público já não soubesse no debate sobre o Afeganistão”, disse o presidente americano, ao lembrar que a visita da secretária de Estado Hillary Clinton ao Paquistão teria oficializado uma nova etapa na parceria dos dois países. O governo anunciou um esforço do Pentágono, iniciado na própria segunda, para revisar milhares de documentos com o objetivo de descobrir se algum informante fora identificado e estaria em risco de vida.

O Times, o Guardian e a Spiegel tiveram o cuidado de eliminar todos os nomes de informantes, que apareciam originalmente nos documentos vazados pelo WikiLeaks. Mas nos 75 mil papéis disponíveis para consulta no site – outros 14 mil não estão on-line, justamente porque os pesquisadores temeram pela segurança de cidadãos parceiros das tropas da coalizão na batalha contra os talebans – há pistas de que podem levar à identificação dos informantes da Otan, como nomes de aldeias em que vivem ou de parentes próximos. E o Times londrino chegou a publicar informações que entregavam ao leitor a identidade de parceiros locais da invasão americana.

Criado em 2007 pelo australiano Julian Assange, um personagem misterioso, de 39 anos, farta cabeleira branca, que detesta ser entrevistado e raramente dorme no mesmo local duas noites seguidas por medo de ser sequestrado, o WikiLeaks tem por missão “criar um arquivo de documentos secretos, porém de interesse público, com a ajuda de uma rede de informantes”. Na quarta 28, ao participar do programa Today, da Rede NBC, Assange respondeu da seguinte maneira à pergunta se ele consideraria a morte de civis afegãos “danos colaterais” depois da divulgação dos documentos: “Se não tivéssemos tomado todas as precauções para proteger a identidade dos informantes, sim, seria algo muito sério”.

Em apenas três anos, o site, bancado por doadores privados anônimos, reuniu cerca de 1 milhão de documentos. Entre eles os protocolos de segurança da prisão de Guantánamo, evidências de corrupção a envolver a família do ex-presidente Daniel Arap Moi, do Quênia, papéis sobre a movimentação da Igreja da Cientologia, troca de e-mails da então candidata a vice-presidente Sarah Palin e, mais chocante, o vídeo filmado em um helicóptero com detalhes da morte de dois funcionários da Reuters, Saeed Chmagh e Namir Noor-Eldeen, aparentemente confundidos com terroristas por soldados ianques em Bagdá.

Depois de pensarem que as câmeras da equipe da Reuters eram armas, os soldados ainda atacaram um carro que parara no local para resgatar os corpos. Nele estavam crianças. No helicóptero, os soldados se justificaram: “A culpa é deles por trazerem menores de idade para o campo de batalha”. No fim da ação, ao menos 18 civis perderam a vida. Por causa do vazamento do vídeo, o soldado Bradley Manning, de 22 anos, da Inteligência do Exército norte-americano, foi detido no mês passado, acusado de baixar ilegalmente mais de 150 mil documentos, incluindo trocas de e-mails entre oficiais. O Pentágono deu a entender agora que Manning é o centro das investigações sobre o vazamento dos documentos divulgados pelo WikiLeaks.

Assange, que se recusa a dizer a fonte dos documentos, se diz um “ativista da informação” e é o mais notável dos protagonistas do que a revista New Yorker batizou de insurreição midiática. Ele não tem formação jornalística (apesar de se apresentar como “editor-chefe” do WikiLeaks) e é um craque em computação, às vezes apresentado como um hacker do bem em perfis na grande imprensa. Em uma recente apresentação para estudantes no Centro de Jornalismo Investigativo da Universidade de Londres, foi recebido como herói pelos alunos, que fizeram questão de cumprimentá-lo.

O WikiLeaks emprega apenas quatro funcionários, conta com 40 trabalhadores temporários, 800 ajudantes informais e uma rede de 10 mil simpatizantes e doa-dores. O australiano acredita ser este, e não o de seu conterrâneo Murdoch, o Cidadão Kane da mídia no século XXI, com sua Fox News e jornais de dimensão internacional, como o Journal e o Times inglês, o modelo para a imprensa do século XXI. “As Forças Armadas estão se terceirizando, por que seria diferente com o jornalismo? Para a imprensa política e de análise social, cada vez mais aumentará a importância de networks e movimentos como o nosso”, disse ao Guardian.

Um dos principais especialistas em novas mídias dos EUA, o professor Stephen Duncombe, da Universidade de Nova York (NYU), diz que sites como o WikiLeaks serão cada vez mais críticos na distribuição da notícia. “São facilitadores, que transferem questões éticas e de responsabilidade para o leitor. Com a imensa quantidade de documentos digitalizados e o caráter anônimo da internet, vazamentos vão acontecer mais amiúde. O que ainda não sabemos é se esta nova realidade transformará mais cidadãos em jornalistas amadores investigativos ou se apenas aumentará a passividade com que receberemos as notícias, imobilizados pela quantidade de documentos, conversas, fatos e verdades que nos inundarão as telas.”

Se ainda não saiu às ruas armado de gravador e vídeo, o cidadão americano não anda nada satisfeito com o rumo da ocupação militar no Afeganistão. Uma das principais bandeiras do governo Obama na área de segurança nacional foi a de que o esforço em Cabul era necessário para impedir que os talebans transformassem o país novamente em um santuário para os terroristas da Al-Qaeda. Esta seria a guerra “certa”, “eticamente justificável”, ao contrário da invasão do Iraque. Mas, depois da demissão, na segunda quinzena de junho, do comandante das tropas americanas e da Otan no Afeganistão, general Stanley McChrystal, por causa de uma entrevista à Rolling Stone em que, entre outras revelações, alertava para o fato de os próprios soldados não acreditarem na estratégia de contrainsurgência defendida por Washington, as pesquisas mostram que, em média, 55% dos americanos desaprovam a maneira pelo qual o governo conduz a ocupação.

Fontes do Pentágono temem uma enxurrada de revelações anônimas feitas por soldados e oficiais insatisfeitos a sites como o WikiLeaks. Algo que preocupa bem mais os estrategistas democratas do que a decisão, a ser anunciada em breve, pelo procurador-geral dos EUA, Eric Holder, se o enigmático Assange será formalmente processado por vazar dados de guerra que facilitariam aos inimigos de Washington identificar os pontos fracos das Forças Armadas mais poderosas do planeta, aparentemente incapazes de vencer os talebans e seus aliados nas montanhas do Afeganistão.

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