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The Observer

Vamos apoiar os políticos que ousam viver um pouco

por The Observer — publicado 01/12/2013 09h21
Prefiro Rob Ford de Toronto ou Boris Johnson de Londres a qualquer político "politicamente correto". Por Elizabeth Day, do Observer
Divulgação / Financial Times
Boris Johnson

Boris Johnson, prefeito de Londres

Tome dois políticos eleitos. Um é um homem privilegiado, um produto do meio educacional da elite que fala facilmente sobre valores como "compromisso" e "responsabilidade", um homem que é fotografado em férias com a família na praia e faz todos os esforços para garantir que sua reputação não seja maculada por um escândalo. O outro é um lutador de 150 quilos que admitiu ter fumado crack e "muita maconha", e um problema com o álcool. Ele supostamente teria ligações com gangues e foi filmado ameaçando matar uma pessoa em videoteipe. No início deste mês, quando parecia que a situação não poderia piorar, o famoso criador de problemas Charlie Sheen lhe escreveu uma carta aberta de apoio.

Qual desses homens você esperaria que tivesse um maior índice de aprovação? Você poderia compreensivelmente escolher o primeiro, David Cameron [primeiro-ministro do Reino Unido]. Porque, seja o que for que você pense sobre as opiniões dele, é um político de carreira de primeira ordem, um homem tão consciente da necessidade de cultivar sua imagem pública que costumava ir de bicicleta ao trabalho para promover sua agenda ecológica, até que se soube que um carro oficial o acompanhava para carregar os documentos.

Mas é o segundo homem, o criticado prefeito de Toronto, Rob Ford, quem leva vantagem. Apesar de suas indiscrições consideráveis, uma recente pesquisa da Ipsos citou seu índice de aprovação em 40%, 2 pontos à frente de Cameron, segundo uma análise da Universidade de Nottingham.

E Ford não é o único político selvagem que chama a atenção do público. Em Nova York, acabam de eleger para prefeito Bill de Blasio, um ex-apoiador sandinista cuja mulher já se identificou como uma lésbica linha-dura. Em Londres, os pecadilhos de Boris Johnson são bem conhecidos. Mas, quando se soube que ele teve um filho fora do casamento, 76% dos eleitores disseram que isso não afetaria sua probabilidade de votar nele.

Na semana passada, o deputado britânico conservador Nick Boles fez um discurso em que elogiou a popularidade de Johnson em um clima no qual "existe um grupo substancial de pessoas que literalmente sequer pensariam em votar nos conservadores".

Em uma era multimídia, quando os políticos são obcecados por como as coisas vão se desdobrar no ciclo de notícias de 24 horas, quando um deputado tem maior probabilidade de ser moldado por grupos de opinião do que pela convicção duramente conquistada, e quando as relações públicas se tornaram mais importantes que as relações com o público, os eleitores começam a se cansar da correção política. Um homem ou uma mulher sem experiência na vida real parece fora de alcance, inconfiável. Em comparação, alguém com um passado variado é visto como autêntico e revigorante.

Quando se soube recentemente que a deputada trabalhista Gloria De Piero tinha posado para fotos topless quando adolescente, sua digna reação conquistou grande apoio. "Eu não penso que alguém queira que a política esteja aberta só para as pessoas que planejavam suas carreiras políticas na adolescência", escreveu.

Vivemos em uma era de hyper-branding, em que adolescentes se oferecem em embalagens de pop stars no horário nobre da TV e candidatos a emprego são recusados por não ter seguidores suficientes no Twitter. Uma era em que o lançamento da publicidade de Natal da loja John Lewis é considerado um destaque cultural, uma peça da paixão para nosso tempo consumista. Mas cada vez mais o sonho parece oco. O marketing bem-sucedido conta com a ideia de que um processo sem falhas pode ser aplicado a qualquer coisa para que seja melhor vendida – desde reputações pessoais a pulôveres de caxemira. É anti-individual.

Mas talvez a maré esteja virando. Existe uma nova sede por personagens, por causadores de encrencas e rebeldes, por políticos cujos erros os tornam mais acessíveis aos demais. Existe uma crescente desconfiança da elite política de ambos os partidos – o bando de homens majoritariamente brancos de classe média que parecem todos ter frequentado a mesma Escola Tony Blair de Gestos Convincentes e cuja única experiência na vida real é balançar a cabeça para os guardas de segurança a caminho da Câmara dos Comuns. Eu não quero que meus políticos fumem crack. Mas quero que eles sejam mais que um simples anúncio da John Lewis.

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Kim e Kanye de olho em Kensington

Eu admiro demais a coerência em uma celebridade. Por exemplo, Kim Kardashian claramente tem uma queda pela letra K. Sua mãe, Kris, batizou as irmãs de Kim de Khloe, Kourtney, Kylie e Kendall. Kim deu sequência à tradição familiar e se casou com um jogador de basquete que também se chamava Kris.

Quando o casamento terminou em divórcio, ela fixou sua mira em outra celebridade masculina global cujo nome começava com a mesma letra – Kanye West (bem, ou era ele ou Keith Lemon). Agora se sabe que Kim e Kanye estão decididos a mudar-se para Londres, que consideram "a próxima fase de crescimento de seu império". O que a faz soar bastante sinistra, mas não importa.
De maneira nada surpreendente, o casal estava de olho no bairro de Kensington, supostamente sentindo que Kew ou Kingston eram um pouco suburbanos para suas necessidades.

Quando o casal finalmente se mudar para cá, tenho certeza de que vão mandar seu jipe para a oficina Kwik Fit, usar calçados K-Swiss e comer Special K no café da manhã, seguido de KFC no almoço com um Kit Kat de sobremesa. Depois de uma vida inteira ao sol de Los Angeles, vamos esperar que o tão mal falado "klima" britânico não os afaste.

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Quem matou JR? Isso seria revelador

É cada vez mais difícil ser ofensivo hoje em dia. As análises escandalosas se tornaram um esporte radical, praticado por uma nova geração de perversos profissionais. Uma das principais destes é Katie Hopkins, uma ex-participante do programa Apprentice que hoje escreve uma coluna no jornal Sun e pontifica na TV durante o dia, aparecendo no sofá do This Morning tão habitualmente quanto uma herpes não tratada.

Os alvos de sua ira substancial até agora incluíram crianças ruivas ("tão mais difíceis de amar"), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade ("uma doença inventada") e um homem que tenta cometer suicídio saltando de um viaduto ("a maioria das pessoas se mata de modo tão inconveniente?").

Fica mais difícil para nós nos chocarmos quando alguém como Hopkins existe. Eu tentei ao máximo entrar em uma discussão no Twitter na semana passada, sem sucesso. Alguém me acusou de ter incluído um fato revelador em minha entrevista com Birgitte Hjort Sørensen, que faz Katrine no teledrama dinamarquês Borgen. A série final de Borgen começou no último sábado e aparentemente eu havia, sem querer, arruinado o prazer dessa pessoa ao "revelar" que Katrine é mãe solteira. Deixando de lado o fato de que esta informação ficou óbvia nos primeiros 30 segundos da cena inicial, eu achei necessário apontar para meu leitor decepcionado que o programa na verdade foi ao ar na noite anterior à publicação do meu artigo.

Talvez eles tivessem gravado o episódio para assistir mais tarde. Mas não tenho certeza de que nosso amor nascente pela televisão on-demand signifique que os jornalistas terão de escrever sob um embargo perpétuo, por temor de revelar acidentalmente algum fato vital da trama que meus vizinhos Susie e Neil ainda não assistiram.

Como deveríamos lhes informar que JR levou um tiro? Eles já sabem que Will Young ganhou o "Pop Idol"? Que Dirty Den e Angie se separaram? Espero que sim. Senão, já entreguei o jogo. Mais uma vez. Reclamações para o endereço de sempre.