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Como viver depois de Guantánamo?

por Eloísa Capurro — publicado 27/05/2015 03h39, última modificação 27/05/2015 03h39
Grupo de ex-presos luta para começar uma nova vida no Uruguai
Pablo Porciúncula / AFP
Jihad Diyab

Jihad Diyab em 20 de maio, durante a 20ª Marcha do Silêncio, que celebra a memória dos desaparecidos políticos uruguaios. Ele cogita deixar o país

De Montevidéu

Tarde de outono na cidade de Montevidéu. No meio de uma forte seca que atinge o país, nesta quinta-feira as nuvens de chuvas tomavam o céu. O vento da baía fazia os 14 graus exibidos em letras grandes nos termômetros parecerem menos. Nem o frio nem o risco de tempestade assustavam os ocupantes de três tendas erguidas em frente à embaixada dos Estados Unidos. Nelas se alojavam quatro ex-presos de Guantánamo. Protestavam contra a vida no Uruguai, país que os acolheu e, até certo ponto, os abandonou. 

O protesto começou em 24 de abril, quando os sírios Abdul Hadi Faraj e Ali Shabaan e o tunisiano Abdul Bin Mohammed Abis Ourgy decidiram passar a noite diante da embaixada, e terminou recentemente. A Acnur, agência da ONU para refugiados, ofereceu casa, o reencontro com a família, atendimento psicológico e uma renda mensal de cerca de 550 dólares. Para receber os benefícios, precisavam se submeter a exames médicos, trabalhar e aprender o espanhol. Destes itens, só o primeiro foi realizado. O problema, reclamam os ex-presos, é a duração do acordo: 12 meses. Eles reivindicam a manutenção das mesmas condições por ao menos três anos.

“O Uruguai é um país pequeno, mas tem um coração grande. Como o (José) Mujica disse ‘é um país pobre’ e por isso é que nosso protesto acontece diante da embaixada dos Estados Unidos. Esse governo nos manteve preso de forma equivocada durante 13 anos e agora eles deveriam nós dar o necessário para levar uma vida normal”, escrevem os ex-prisioneiros em seu blog. Dias depois, os Estados Unidos declararam: “Não existe obrigação nenhuma de dar uma compensação a detidos pela lei de guerra”.

A responsabilidade agora é do governo uruguaio. O ministro de Relações Exteriores, Rodolfo Nin Novoa, declarou ao jornal uruguaio El País que o Uruguai não pretende abandonar os ex-presos, mas exortou os manifestantes a assinar o convênio. “Não me parece tão difícil”, afirmou. Finalmente, cinco dos seis ex-presos no Uruguai assinaram o acordo; só um deles não fez e tem planos de sair do país.  

Certo mesmo é o fato de o Uruguai não estar mais de portas abertas para esse tipo de refugiado. Nos primeiros dias de seu mandato, o presidente Tabaré Vázquez reviu uma decisão do antecessor, Mujica, que havia aceitado receber os ex-presos de Guantánamo por razões humanitárias.

Em um país sem mesquitas e onde menos de 300 cidadãos se declaram muçulmanos, a comunicação com os ex-detentos é difícil. “Tínhamos um colega que falava com eles inglês e que os acompanhou nas consultas médicas. Esse foi o primeiro círculo de confiança”, lembra o sindicalista Fernando Gambera, que acompanha os refugiados desde a sua chegada ao Uruguai.

O choque cultural tornou-se evidente nas primeiras horas do desembarque no novo país. Os seis refugiados, quatro sírios, um palestino e um tunisiano declarados não perigosos, chegaram na madrugada e passaram os primeiros dias no Hospital Militar. Em seguida, foram levados a uma casa alugada pelo sindicato Pit-Cnt, onde a maioria mora até hoje. “O Ministério do Interior providenciou tapetes para suas orações. Mas nós os esperávamos com bizcochos (pequenos bolos típicos no Uruguai) feitos de presunto. Não sabíamos que eles não comem porco”, recorda Gambera.

Por causa da cultura, os refugiados recusaram empregos em um açougue. O sindicato conseguiu trabalho na cozinha e no depósito de uma construção, mas os ex-presos disseram ainda não estar preparados para trabalhar. A vizinhança mostrou solidariedade: uma senhora ofereceu um pé de menta, para o chá árabe, e uma padaria enviou bolinhos de boas-vindas. Mas na casa de quatro quartos e um banheiro, só 20 dias passaram até surgirem os primeiros conflitos. Dois dos ex-detidos decidiram se separar do grupo e se mudar para um hotel.

Em fevereiro, o sírio Jihad Diyab viajou para Buenos Aires. Em entrevistas a meios de comunicação argentinos, disse desconhecer sua situação legal no Uruguai. Diyab usa muletas e ainda sofre de transtornos de saúde em decorrência das longas greves de fome na prisão. Antes de deixar o governo, Mujica os visitou e pediu para aprenderem espanhol e aceitarem as ofertas de trabalho. Segundo Gambera, a visita do então presidente foi importante para demostrar que eles eram “homens livres”. 

“Estamos a caminho de um entendimento. O processo de integração na sociedade uruguaia é muito complexo por causa das diferenças de cultura e idioma. Mas eles têm residência legal e sabem que, se voltarem a seus países, perderão a condição de refugiados”, diz Christian Mirza, interlocutor do governo uruguaio com os ex-prisioneiros.

Um dos árabes assinou o convênio, apoiado pela Cruz Vermelha. Uma organização, a Reprieve, recolheu cerca de 20 mil dólares em doações para o grupo, mas aguarda a regularização dos imigrantes para entregar o dinheiro. “A maioria é jovem, alguns nem conseguiram terminar os estudos. Querem trabalhar, mas não podemos exigir que comecem apenas quatro meses depois de sua liberação, como se o tempo na prisão não tivesse produzido consequências. Eles estão muito receptivos ao apoio, mas também ansiosos”, relata Mirza.

Durante três semanas, todos os dias os ex-presos oraram em frente à embaixada americana. Ainda tinham esperança de morar no Uruguai e hoje, depois de ter assinado o convênio, cinco deles ficaram no país. Terão de trabalhar, atender controles de saúde e aprender a falar em espanhol. O tempo da integração começa agora.