Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Unasul nega omissão em crise na Venezuela

Internacional

Venezuela

Unasul nega omissão em crise na Venezuela

por Deutsche Welle publicado 24/02/2015 10h43
Secretário-geral afirma que pano de fundo da crise venezuelana é a situação econômica e defende a legitimidade do presidente Nicolás Maduro. Missão de chanceler deve ir a Caracas
Pavel Golovkin / Evaristo Sá / AFP

O secretário-geral da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), Ernesto Samper, disse que a atual crise política pode comprometer a democracia na Venezuela. Em entrevista publicada pelo diário colombiano El Tiempo, ele afirmou que o pano de fundo da crise é a situação econômica e defendeu a legitimidade do presidente Nicolás Maduro, eleito em 2013.

Na opinião de Samper, a crise na Venezuela se deve a “ingerências internacionais, falta de diálogo político interno e a uma situação social e econômica resultante de fatores que eram imprevisíveis há alguns anos”.

Entre tais fatores estaria a queda do preço do petróleo – produto-chave na economia da Venezuela. A Unasul designou uma comitiva de chanceleres de Brasil, Equador e Colômbia para visitar Caracas nos próximos dias.

Samper disse que a Unasul não está em silêncio sobre as detenções de líderes da oposição e do prefeito de Caracas, Antonio Ledezma – ocorrida na última sexta-feira 20. Ele explicou que, da sua parte, está procedendo com “prudência e diplomacia”, porque o papel do organismo multilateral “não é causar incêndios, mas apagá-los".

O secretário-geral considera precipitado dizer que os opositores venezuelanos detidos não estão tendo seus direitos respeitados. A imprensa venezuelana publicou que, segundo um militar, o prefeito estaria envolvido em um plano para derrubar Maduro.

Chanceleres de Peru e Chile já se pronunciaram encorajando a solução da crise através do diálogo e incentivando a participação da Unasul. Em entrevista ao Canal N, o peruano Gonzalo Gutiérrez disse que Equador, Colômbia e Brasil estariam em conversações para promover a reabertura do diálogo interno na Venezuela.

Ele acenou com a realização de um encontro extraordinário de ministros do Exterior dos países da Unasul, que deve ocorrer após a visita da comitiva de chanceleres. Para Gutiérrez, no entanto, no caso da Venezuela, não haverá uma solução imposta por agentes externos.

O advogado de Ledezma disse ao jornal La Verdad, no entanto, que o tenente coronel José Arocha teria incriminado o prefeito sob tortura. “Ledezma poderá passar 28 anos preso por cometer delitos que não tem sustentação”, disse o jurista Omar Estácio.

No Brasil, os partidos de oposição repudiaram a detenção de Ledezma. PPS, PSDB e DEM coordenam ações no Congresso brasileiro para que a Venezuela seja sancionada no âmbito do Mercosul por violar o compromisso democrático assumido pelo bloco regional.

Os representantes dos partidos argumentam que a Venezuela teria violado o Protocolo de Ushuaia, que estabelece que o sistema democrático, e o consequente respeito às instituições, é uma condição imprescindível para que um país pertença ao bloco.

Maduro denuncia reiteradamente tentativas de golpe desde que assumiu a presidência, há quase dois anos. A última teria ocorrido neste mês e levou à prisão de sete militares, entre eles oficiais da Força Aérea. Os militares estariam entre os autores materiais do plano que o governante alega ser idealizado por dirigentes da oposição e financiado pelos Estados Unidos.

Devido à instabilidade política na Venezuela, o governo espanhol teme que Maduro exproprie empresas espanholas em represália a críticas ao país sul-americano. Segundo o diário El Mundo, as declarações recentes de Maduro sobre a existência de um eixo em Espanha, Colômbia e Estados Unidos, que conspiraria contra o seu governo, deixou o Executivo espanhol preocupado.

A tensão entre os governos aumentou há alguns dias com as alegações de que representantes do Executivo venezuelano teriam ameaçado empresários espanhóis com represálias para tentar frear as críticas contra Maduro na imprensa espanhola.

O ministro espanhol de Assuntos Exteriores, José Manuel García-Margallo, confirmou a informação e disse para a Venezuela respeitar os direitos da liberdade de opinião e imprensa.

Vampiro

Antonio Ledezma permanece preso na prisão militar de Ramo Verde. Ele foi detido por agentes da inteligência em seu escritório na quinta-feira e acusado no dia seguinte de “conspirar” contra o governo Maduro – que, por sua vez, alega que os Estados Unidos estão por trás de um plano de golpe de Estado.

O governo diz que Ledezma – apelidado de “vampiro” pelos apoiadores de Maduro – tem laços com setores políticos violentos e teria se unido a alas dissidentes do Exército para conspirar para a queda do presidente através de um ataque aéreo. O advogado de Ledezma considera as acusações “infundadas”.

A mídia estatal lançou uma campanha para desacreditá-lo. Em um vídeo mostrado pelos canais públicos recentemente, o estudante Lorent Saleh – preso na Venezuela desde setembro passado também sob acusação de conspirar contra o governo – enaltece Ledezma, o chamando de “o político que mais tem apoiado a resistência”.

A emissora estatal VTV também diz que Ledezma apoiou o golpe contra o presidente Hugo Chávez em 2002, além de acusá-lo de corrupção.

Crise econômica

A Venezuela passa por uma recessão que provoca a carência até de itens básicos, como papel higiênico e farinha. A inflação de 70% também afeta a popularidade do presidente, que caiu a 22% – a menor desde o início do seu governo, em 2013.

A crise afeta principalmente os venezuelanos mais pobres, que sempre foram a base de sustentação do chavismo. A prisão de Ledezma causou protestos isolados em Caracas e violência na cidade de San Cristobal. No entanto, ainda não gerou grandes distúrbios ou maior instabilidade no país, cujo cenário político é marcado por profunda polarização.

O prefeito de Caracas é o principal adversário de Maduro atualmente preso, depois do líder oposicionista Leopoldo López, que foi detido pela participação nos protestos contra o governo no ano passado, que tiveram 43 mortes.

MP/efe/dpa/rtr

Logo DW