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Internacional

Inflação

Uma bateria de medidas para deter as altas dos alimentos

por Envolverde — publicado 03/03/2011 17h03, última modificação 03/03/2011 17h03
Um novo episório gera preocupações sobre a instabilidade nos mercados mundiais de alimentos e suas implicações sociais

Por José Graziano da Silva e Ekaterina Krivonos*
Santiago, Chile, março/2010 – O mundo vive outra alta notável do preço dos alimentos, que em janeiro deste ano atingiu novo pico histórico pelo sétimo mês consecutivo, já que o Índice da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) chegou aos 231 pontos, 3,4% mais do que em dezembro de 2010. Além disso, o aumento acumulado durante o ano passado ficou em 25% em relação a 2009.
Este novo episódio gera preocupações sobre a instabilidade nos mercados mundiais de alimentos e suas implicações sociais.
O importante aumento registrado em 2008 foi causado principalmente porque os estoques de cereais diminuíram até atingir níveis perigosamente baixos em 2007. As razões foram múltiplas, já que combinaram inesperados movimentos na oferta e na demanda, bem como as reações políticas a respeito.
O pico de 2010 se explica parcialmente pela escassez na produção devido ao mau tempo. A transmissão dos sinais de preços nos mercados locais foi altamente heterogênea. A reserva de estoques ajudou a manter baixos os preços nacionais em muitos países. Na maior parte das nações latino-americanas, por exemplo, os preços do pão permaneceram estáveis apesar das altas internacionais do trigo.
Apesar de suas diferentes características, as duas altas revelam um ambiente muito mais incerto do que há dez anos.
Os movimentos dos preços já não são determinados apenas pelas forças da oferta e da demanda: as matérias-primas agrícolas estão atraindo investimentos especulativos incentivados pelo excesso de liquidez nos mercados internacionais e outros fatores menos transparentes e voláteis, como as expectativas e o apetite pelo risco, começam a ter um papel importante na fixação dos preços.
Além disso, os mercados de alimentos estão cada vez mais interligados com os mercados financeiros e de energia, ambos caracterizados por grande volatilidade.
Embora os estoques de grãos sejam maiores atualmente, este não é o momento para dormir sobre o sucesso. Se a escassez na produção persistir, eles diminuirão e, cedo ou tarde, o aumento dos preços internacionais provavelmente chegará aos mercados locais.
O excesso de volatilidade dos preços é indesejável, não só porque lança um peso desproporcionalmente alto sobre os consumidores mais vulneráveis – os pobres utilizam mais de 70% de sua renda em alimentos –, como também porque acarreta níveis de produção abaixo do ótimo, pois os agricultores são tipicamente reticentes ao risco.
O que fazer para aliviar esta preocupante situação?
Em primeiro lugar, é necessária uma resposta coerente e coordenada em escala mundial para levar uma estabilidade maior aos mercados globais.
Em escala nacional, os países podem tratar de minimizar o risco de oscilações de preços ou de manejar as posteriores consequências negativas. Uma possibilidade é procurar controlar os preços por meio de esquemas de estabilização, mas isso implica altos custos fiscais e é difícil de manejar. Outra possibilidade é aplicar medidas fronteiriças e subsídios domésticos. Porém, nos dois casos pode haver distorção dos preços, além de tais medidas serem muito difíceis de desmantelar quando deixam de ser necessárias.
Finalmente, há políticas para contrapor-se às implicações negativas dos picos de preços, que incluem a extensão das redes de segurança existentes para compensar as perdas de poder aquisitivo dos consumidores. Esta política foi adotada pela maioria dos países latino-americanos, em geral com resultados positivos.
Outras estratégias para mitigar as altas incluem elevar as reservas de emergência, estimular a diversificação para incluir alimentos de produção local, melhorar a eficiência dos mercados domésticos e ajudar a população vulnerável a cultivar produtos para consumo próprio.
Estas medidas podem ter resultados imediatos, mas no longo prazo a única solução é garantir existências abundantes e estáveis. Embora o mundo produza alimentos suficientes, a produção global precisa ser aumentada gradualmente para manter-se à frente do crescimento da população.
O baixo investimento em agricultura através dos anos, em particular nos países em desenvolvimento, os torna mais vulneráveis diante das novas dinâmicas que dominam o mercado mundial. O investimento em agricultura, que permitiria incrementar a produtividade e melhorar a resistência diante dos riscos climáticos, junto com o fortalecimento das instituições rurais e um melhor gerenciamento dos mercados de matérias-primas, são imprescindíveis para reduzir a incidência dos picos de preços. Envolverde/IPS
*José Graziano da Silva é representante regional para a América Latina e o Caribe da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), e Ekaterina Krinovos é a encarregada de Comércio e Mercados da mesma regional.
(IPS/Envolverde)
* Matéria originalmente publicada no site da Envolverde

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