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Uma Alemanha sem fronteiras – 20 anos da reunificação

por Coluna do Leitor — publicado 04/10/2010 13h31, última modificação 05/10/2010 20h17
Em meio a protestos e lembranças, a Alemanha celebra os 20 anos de sua reunificação em clima de festa e reflexão
Uma Alemanha sem fronteiras – 20 anos da reunificação

Milhares de jovens anarquistas e comunistas foram protestar no dia da reunificação. Seus lemas eram “Nenhum dia para nação, nenhum dia para a Alemanha” e “Você diz Alemanha, nós dissemos morra”

Em meio a protestos e lembranças, a Alemanha celebra os 20 anos de sua reunificação em clima de festa e reflexão

Por Victoria Jurkfitz K. Thibes  

Neste dia 3 de outubro a Alemanha comemorou os 20 anos da sua reunificação. Após mais de 40 anos de separação entre leste (socialista) e oeste (capitalista), o país voltou a ser um só em 1990, após tratado envolvendo os dois lados. Na sexta-feira, dia 1º, foram abertas em Bremen as comemorações do aniversário. Com participação da primeira-ministra Angela Merkel e do presidente Christian Wulff, além de alemães de todas as regiões, a festa de três dias marcou um momento em que a Alemanha luta para se reconstruir como nação unificada.  

Uma pesquisa realizada pelo German Marshall Fund (GMF) em 2008 revelou que apenas 41,3% dos alemães da antiga RDA e 59,8% da parte ocidental acreditam que os dois lados são equivalentes. Além disso, 64% dos alemães orientais se consideram cidadãos de segunda classe. Com taxas de desemprego e qualidade de vida diferentes, é evidente que a Alemanha ainda tem dificuldades em realmente se considerar um país unificado. Para milhões de alemães, a única realidade que conheciam até 1990 era a da separação entre dois países.  

Enquanto no lado oriental se vivia o socialismo financiado pela União Soviética, com taxa de desemprego zero, segurança social e consumo controlado, a Alemanha Ocidental vivia a reconstrução financiada pelos Estados Unidos, se tornando logo um país de primeiro mundo. Na RDA, bananas e jeans eram artigos de luxo, as viagens nas férias eram para outros países socialistas (República Tcheca ou Rússia) e apenas com autorização do estado.  

Com a abertura da fronteira e a posterior unificação das duas Alemanhas sob o cunho do capitalismo, as diferenças entre os dois lados se tornaram evidentes, e um grande investimento teve de ser feito para que o lado Oriental tentasse se equivaler economicamente ao Ocidental. Para o historiador Stefan Wolle, entrevistado pela revista alemã fluter deste mês, as mudanças radicais fizeram com que moradores do antigo regime socialista tivessem medo da nova sociedade. “No Leste tudo era muito seguro: Se tinha um apartamento em um prédio novo, um lugar na creche para as crianças, um Trabi (Trabant, modelo de carro muito popular na RDA) em frente à porta, 14 dias de mar por ano e, principalmente: as outras pessoas também não tinham mais que isso. Assim, naturalmente, o stress não existia. Hoje todos têm medo, e esse medo é alimentado pela mídia. Nesse sentido a RDA era melhor.”  

Com o novo stress da vida diária, muitos alemães começaram a se lembrar com mais nostalgia dos tempos do socialismo. No entanto, não há dúvidas: a grande maioria está satisfeita com a unificação. De acordo com a pesquisa do GMF 2008, apenas 9% dos alemães orientais não acham que a reunificação tenha sido boa, contra 11% dos ocidentais.  

"Nenhum dia para a nação, nenhum dia para a Alemanha”. Esse foi o lema do protesto anarquista realizado no dia 2 de outubro durante a comemoração dos 20 anos da unificação alemã. “Os Capuzes Pretos”, como foram chamados em razão das vestimentas de cores escuras, fizeram protesto a partir das 16:30 na estação de trem central de Bremen. Suas palavras de ordem criticavam o capitalismo, a noção de estado, as fronteiras, e proclamavam o comunismo e anarquismo. Dispersados pela polícia, o grupo se reuniu novamente pela noite e continuou a marcha. Cerca de três mil jovens estiveram presentes.  

No aniversário da unificação da Alemanha, muitas pessoas lembram-se do que não têm a celebrar. O desemprego no país atinge altas taxas, especialmente em algumas regiões do leste (cerca de 12%). Na parte ocidental, os números ficam entre 6% e 7%. Além disso, na antiga RDA floresceram diversos movimentos punks e anarquistas que se proliferaram pelo país após a unificação e até hoje invadem as ruas das grandes cidades. Quem caminha pelas praças de Berlim, ao redor da prefeitura e da Alexanderplatz, pode encontrar várias figuras de roupas de couro, cabelos coloridos, brincos e coturnos. Mais um sinal das mudanças pelas quais o país tem passado.

“União? E direitos? E liberdade? Alguém deveria colocar um detector de mentiras no Parlamento”. Para movimentos principalmente ligados aos desempregados, é preciso lembrar-se dos problemas da Alemanha no dia da reunificação, e não apenas celebrar." 

Sábado de música e fogos de artifício  

No sábado (2) pela manhã, o prefeito da cidade Bremen, Jens Böhrnsen, abriu as festividades com discurso na Marktplatz, em frente à catedral. Em seu discurso, ele destacou a coragem daqueles que lutaram por uma Alemanha unificada e salientou: “Nos lembramos hoje que éramos pessoas corajosas que lutaram pela liberdade. Por isso celebramos hoje com um grande festival de rua”, discursou Böhrnsen.  

À noite, o dia foi encerrado com show da cantora Nena, famosa pela emblemática música 99 Luftballons. Jovens, adultos e idosos dançaram e cantaram ao som da artista, que embalou o público em seus mais famosos hits.  

Após o concerto, que teve direito a participação do público no palco, o dia foi encerrado com uma queima de fogos no porto da cidade. Milhares de espectadores assistiram enquanto luzes vermelhas e amarelas (duas das cores da bandeira da Alemanha) explodiam no céu.  

A Alemanha celebra com samba  

A principal atração das festividades de domingo foi o desfile, pela manhã, com bandas representando os 16 estados (incluindo Berlim, Bremen e Hamburgo, as cidades-estado) mais a banda de abertura e uma representando territórios alemães em alto mar. Entre marchas e roupas típicas, a Alemanha mostrou um lado que tem crescido nos últimos anos: o de um país multicultural.  

Com cerca de 8,5% da população composta de imigrantes ou descendentes de imigrantes, a Alemanha mostra hoje uma grande quantidade de culturas diferentes. Não é incomum encontrar nas cidades grandes mulheres vestindo xales muçulmanos ou pessoas conversando em outras línguas. Apesar de ainda serem maioria, as tradições alemãs estão encontrando e se misturando com as asiáticas, latinas e africanas. Mesmo em Bremen se pode encontrar anúncios em outras línguas. (foto) Assim, é fácil imaginar como o samba conquistou a Alemanha.  

Entre os 18 grupos que se apresentaram no desfile de domingo, quatro foram dominados pela batucada(feito por alemães). Representando a cidade-estado de Hamburgo estava a Unidos de Hamburgo, que não tinha nenhum integrante brasileiro. Ou pelo menos de nascença. A porta-bandeira do grupo foi Friedericke Henschel, que passou boa parte da infância no Rio de Janeiro e fala perfeito português. De acordo com Friedericke, o objetivo da Unidos de Hamburgo foi juntar diferentes grupos da cidade que tocavam samba ou samba-reggae e fazer uma escola semelhante às que se tem no Brasil. Por isso o nome Unidos de Hamburgo. Além dela, se apresentaram também a Stelzen-Art & Confusão (Bremen), SAMBAtucada (Mecklenburg-Vorpommern) e Baraban – Samba aus der Hertz (Samba do coracao – Sachsen-Anhalt).  

Após terem realizado a abertura do desfile às 11:15, a primeira-ministra Angela Merkel e o presidente Christian Wulff seguiram para a Arena de Bremen para uma cerimônia fechada para cerca de 1.500 pessoas. Ela foi transmitida no estande do Parlamento durante as festividades e assistida com entusiasmo pelos passantes.  

Em seu discurso, Wulff salientou a importância do povo na luta pela unificação e saudou a coragem dos alemães orientais que protestavam diante da ditadura. Para o presidente, os gritos de “Nós somos um povo” acordou “um sentimento de nacionalismo que havia sido enterrado há tempos”. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, alemães se sentem desconfortáveis com a ideia de patriotismo, ainda atrelado ao nazismo. Essa noção tem mudado nos últimos anos, em especial depois da Copa do Mundo de 2006 (realizada na Alemanha).  

Além disso, o presidente comentou sobre as dificuldades que imigrantes enfrentam ao tentar se integrar à sociedade alemã. Para Wulff, o país precisa ser aberto “àqueles que vem até nós de todas as partes do mundo. A Alemanha precisa deles. (...) Nós precisamos entender que a Alemanha não está atrelada a um passaporte, histórico familiar ou crença”. Nas palavras do presidente, não apenas o cristianismo e o judaísmo conquistaram seu lugar entre a população, mas também o islamismo, representado principalmente pela grande população de origem turca. “Não há dúvidas de que o cristianismo pertence à Alemanha; não há dúvidas de que o judaísmo pertence à Alemanha... Mas o Islã também pertence à Alemanha”, afirmou Wulff. Para ele, “o futuro pertence a nações abertas à diversidade cultural, novas ideias e a lidar com estranhos e o estranho”. 20 anos depois de se reunificar, é hora da Alemanha aprender com os erros do passado e se tornar, enfim, uma nação do futuro. 

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