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Um vilarejo de dois países

por Viviane Vaz, em Jerusalém — publicado 23/01/2011 10h55, última modificação 23/01/2011 10h55
Divido pela ONU, Ghajar equilibra-se entre o domínio de Israel e do Líbano ao norte. Por Viviane Vaz

“Sempre dissemos que o Muro de Berlim caiu e agora vemos entre nossas famílias um mesmo muro”, diz Najib Khatib, porta-voz do vilarejo de Ghajar, incrustado na fronteira entre Israel, Líbano e Síria, localizado geograficamente nas disputadas Colinas de Golã. Dos 2,3 mil habitantes – a maioria de origem síria alauíta, que recebeu nacionalidade israelense depois da Guerra dos Seis Dias em 1967–, cerca de 1,5 mil em breve passarão a ser parte do Líbano. Por decisão do governo do premier israelense, Benjamin Netanyahu, as Forças de Defesa de Israel (FDI) desocuparão a parte norte do vilarejo em cumprimento da resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU. Na prática, Ghajar ficará dividida pela metade: a zona norte será do Líbano, com supervisão das tropas terrestres da Força Interina da ONU para o Líbano (Unifil), e a zona sul continuará com Israel. “Esta é a ironia: sob o arranjo da Nações Unidas, na parte norte do vilarejo nós seremos sírios com cidadania israelense, vivendo em território libanês”, explica o porta-voz de Ghajar.

Para os habitantes, a decisão da ONU é injusta. “A vila nunca foi parte do Líbano e toda a população é síria”, diz Khatib. “Infelizmente a Unifil não fala realmente conosco. Eles decidem sobre nosso destino, mas nem conversam conosco nem nos colocam a par”, lamenta. Em 1981, a lei israelense de anexação das Colinas de Golã, que pertenciam à Síria, levaram a jurisdição de Israel à região, incluindo Ghajar. A maioria dos habitantes do vilarejo, ao contrário dos drusos residentes em outros povoados de Golã, aceitaram a cidadania israelense e mantêm hoje dois passaportes: sírio e israelense. “Metade das pessoas que viviam aqui escapou para a Síria. A outra metade decidiu que preferia morrer em suas casas e manter sua terra. Achamos que é melhor ficar aqui do que nos tornar refugiados em outro lugar”, explica Khatib.

Em maio de 2000, Israel retirou-se do sul do Líbano, obedecendo à Resolução 425 do Conselho de Segurança da ONU, e uma demarcação feita pelas Nações Unidas do território libanês incluiu o norte de Ghajar. Para verificar a retirada israelense, a ONU demarcou uma linha de retirada, que ficou conhecida como “linha azul”, que divide a vila ao meio. “Desde 2000, Israel olha para o norte de Ghajar como parte do Líbano. No fim das contas, as pessoas não receberam nenhum serviço, nem de Israel nem do Líbano”, reclama Khatib. “Por dez anos vivemos uma situação de medo e incerteza. E no plano humanitário é impossível dividir pessoas ou famílias em duas”, completa.

Em 2005, o movimento xiita Hezbollah usou o norte de Ghajar em atentados contra Israel: militantes começaram a usar o vilarejo como porta para o tráfico de drogas e tentaram sequestrar um soldado israelense, sem sucesso. Depois, em 2006, nas fazendas de Shebaa, próximas a Ghajar, o grupo conseguiu realizar os sequestros. Foi então que as FDI voltaram a controlar a entrada e saída de Ghajar e os moradores passaram a conviver com normas inusitadas, que complicam o dia a dia. “Se uma máquina de lavar quebra, temos de levá-la para fora da vila, para o técnico consertar. E se temos um problema com as linhas de eletricidade ou telefone, temos de pedir permissão das FDI para eles agendarem um hora para o técnico vir”, conta Rahmah, 26 anos, mãe de três filhos. O transporte público também não chega ao povoado. “Cada família tem seu carro e cada um tem sua permissão para entrar e sair. Nada de táxi ou de ônibus”, relata Sophie, 24 anos.

Na parte sul do vilarejo, que continuará com Israel, estão o cemitério, a mesquita e a escola. “Todos os dias 650 estudantes vão para escola. Então, eles terão de passar todos os dias por um check-point da Unifil?”, questiona Khatib. Para o porta-voz de Ghajar, o papel da ONU deveria ser o de unir as famílias. “Os estudantes sentem medo cada vez que os helicópteros da ONU vêm. E as crianças também”, completa. Casado com uma cidadã síria, Khatib acredita que uma das soluções seria que a vila voltasse a pertencer à Síria.

Já os mais jovens preferem continuar a fazer parte de Israel. “Nós somos sírios, temos parentes sírios, mas também temos a nacionalidade israelense”, diz a estudante Fátima, 18 anos, que ajuda a gerenciar o minimercado da família. “Acho melhor continuar a ser israelense e ter acesso ao sistema educacional em Israel”, conta. De volta do colégio, Khaled Abu Toameh, 16 anos, diz à reportagem que não quer saber de lutas e que tanto faz ser sírio ou israelense.

Sophie também opina que a prioridade é que a vila se mantenha unida, sem divisões. “Esta terra deve se manter da vila e também alguns terrenos vizinhos que pertencem aos moradores”, afirma. Segundo a jovem de olhos negros, o tema da soberania não é relevante para os moradores. “Nós realmente não nos importamos, só queremos estar juntos. Não nos importa quem vai governar a vila”, afirma. “E estamos prontos para lutar, caso tentem nos separar”, acrescenta Sophie, com tristeza.

Procurado por CartaCapital, o vice-ministro de Relações Exteriores de Israel, Dany Ayalon, admite que seu país está ante um grande impasse. “É verdade que muitos habitantes de Ghajar querem ficar sob o governo de Israel. E isso nos impõe um dilema moral. Mas como pretendemos que o Hezbollah, a Síria e o Irã cumpram a Resolução 1.701, assim também devemos cumpri-la, e é o que vamos fazer”, explica. O ordenamento da ONU foi assinado em 2006 com o fim das hostilidades e interessa a Israel, pois estabelece que o governo libanês deve dispor de seu exército no sul do país juntamente com a Unifil e garantir que a posse de armamento seja exclusividade das Forças Armadas do país, isto é, não deve cair em mãos de grupos armados. Desde a retirada israelense do sul do Líbano em 2000, o Hezbollah é quem realmente ocupa e controla a zona.

No mesmo ano, os moradores de Ghajar reuniram-se com o então secretário-geral da ONU, Kofi Anan, e com o então premier de Israel, Ehud Barak. “Quando perguntamos por que a separação das pessoas, Barak disse: ‘Isso é o que a ONU decidiu’. E fizemos a mesma pergunta a Annan, que respondeu que a ONU é o mediador entre libaneses e israelenses e eles chegaram a um acordo sobre isso”, conta Khatib. O coronel israelense na reserva Kobe Marom serviu por 25 anos nas FDI e liderou as tropas nas batalhas contra a Síria pelo controle das Colinas de Golã. “A decisão de dividir esea vila dez anos atrás foi um grande erro. Nós não estimamos os problemas que as pessoas de Ghajar teriam entre 2000 e 2006 com o Hezbollah”, confessa, à reportagem. “Naquela reunião com Kofi Anan poderíamos ter achado a solução com a troca de alguns hectares entre os dois países, de forma que se mantivesse Ghajar unida”, reconhece hoje.

O porta-voz da Unifil, Andrea Tenenti, disse na semana passada a jornais libaneses que o organismo ainda não foi notificado da data de retirada das tropas israelenses do norte da vila. “Israel quer entregar a segurança sobre a área à Unifil”, disse Tenenti. Na primeira semana de janeiro, o major Alberto Asarta Cuevas, comandante da Unifil, afirmou que as Nações Unidas tentam facilitar a retirada de Israel. “Estamos trabalhando num plano para garantir a retirada total de Israel de Ghajar, especialmente depois da aprovação do governo israelense da iniciativa da Unifil em dezembro”, destacou Asarta.

CartaCapital entrou em contato com a Unifil para saber se os moradores têm motivo para temer serem separados por um check-point no
meio do vilarejo. “Temos discutido com as partes precisamente como melhor responder às preocupações humanitárias dos habitantes do norte de Ghajar”, respondeu o chefe da comunicação pública da Unifil, Neeraj Singh. “No atual estágio das nossas discussões, será contraprodutivo discutir os detalhes em público”, disse Singh, do escritório em Naqoura, no sul do Líbano. Marom acredita que o acordo final disponha os capacetes azuis da Unifil ao norte do vilarejo, enquanto os soldados israelenses permanecerão no sul, e que possibilitem a livre circulação dos moradores.

Estava prevista a chegada de Asarta e do coordenador especial da ONU para o Líbano, Michael Williams a Israel para discutirem o plano de retirada. No entanto, a greve de diplomatas israelenses, que reclamam dos baixos salários há três semanas, provocou o cancelamento da visita. Enquanto isso, a posição da chancelaria israelense é a promessa de não se descuidar dos habitantes de Ghajar. “Vamos fazer todo o possível para defender a paz dessa gente e vamos comprovar que o nível de vida que estão tendo é o mesmo, e vamos seguir suprindo-os de todos os serviços que necessitarem.”

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