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Dinamarca

Um toque de grife no poder

por Gabriel Bonis publicado 17/09/2011 08h52, última modificação 21/09/2011 11h10
Criticada por usar roupas de marca, Helle Thorning-Schmidt é a primeira mulher eleita para comandar um país que promulgou duras leis anti-imigração e se afastou da Europa

A beleza de Helle Thorning-Schmidt, de 44 anos, e seu gosto extravagante por roupas de marca a transformaram no alvo das piadas do Partido Social Democrata dinamarquês quando ela se juntou à legenda em 2005, rendendo-lhe o apelido de “Gucci Helle”, uma referência à famosa grife italiana.

Seis anos depois, a líder do partido vencedor das eleições nacionais da Dinamarca e, por isso, a futura premiê do país é quem faz piada com os críticos de seu estilo. “Não podemos todos parecer uma porcaria”, disse, respondendo a um jornal que a considerou “vestida com demasiada elegância para uma social-democrata e muito nova para comandar um país".

Formada em Ciências Políticas e integrante do Parlamento Europeu entre 1999 e 2004, Thorning-Schmidt será a primeira mulher a ocupar o cargo na história dinamarquesa, além de quebrar uma hegemonia de dez anos de governos de centro-direita no país. Um paradoxo no cenário europeu atual, no qual a direita - muitas vezes extremista e xenófoba - assumiu o controle de 22 países, sendo a última baixa da esquerda registrada em Portugal.

Com a vitória nas eleições, a futura premier entra para a crescente lista de mulheres no comando de países europeus e nórdicos ao lado de Iveta Radičová, primeira-ministra da Eslováquia, Tarja Halonen, presidente da Finlândia, Mary McAleese, presidente da Irlanda e Jóhanna Sigurðardóttir, primeira-ministra da Islândia, além da chanceler da Alemanha, Ângela Merkel.

Tida como difícil e ambiciosa, a nora do ex-líder do Partido Trabalhista britânico Neil Kinnock, chega ao cargo de forma quase meteórica, vencendo a sua segunda disputa pelo comando do país. Ela foi derrotada em 2007 por Anders Fogh Rasmussen, que deixou o poder para Lars Løkke Rasmussen, ambos do Partido Liberal, em 2009. O último já entregou as chaves do escritório do primeiro-ministro à nova eleita, mas sem deixar a ironia de lado: “Cuide bem delas, pois você só as está pegando emprestadas.”

Em uma eleição na qual 87,7% dos dinamarqueses compareceram às urnas, segundo a BBC News, a aliança dos Social-democratas com legendas de centro e de esquerda garantiu a vitória basicamente com votos de siglas pequenas. Os poucos a votar castigaram o partido de Thorning-Schmidt, o segundo mais importante da Dinamarca, com o seu pior resultado em 100 anos. Mesmo assim, os Social-democratas conquistaram uma pequena maioria no Parlamento, com 89 das 179 cadeiras.

Porém, siglas conservadoras também sofreram baixas nas eleições. O Partido Popular Conservador perdeu metade dos votos de 2007.  Por sua vez, o Partido Popular Dinamarquês, responsável por impulsionar a coalizão a adotar medidas duras contra a imigração e a implementar o controle permanente às fronteiras, ignorando o acordo de livre circulação de Schengen - o que foi considerado injustificável pela Comissão Europeia e estremeceu as relações da Dinamarca com os países centrais da União Europeia, como a Alemanha-, caiu 11,6%.

Além de criticada pelo gosto por marcas, há quem questione as medidas propostas por Thorning-Schmidt para retirar a Dinamarca de sua pior crise desde a Segunda Guerra Mundial. Entre as mais enfatizadas está um plano para fazer com que os trabalhadores cumpram 12 minutos a mais por dia em seus expedientes, gerando assim uma hora extra de produtividade por semana. De acordo com os Social-democratas, isso ajudaria a iniciar um novo ciclo de crescimento no país nórdico com elevado nível de desemprego (7,2%). Seriam os minutos extras suficientes para impulsionar a Dinamarca para fora da crise?

Seguindo uma linha radicalmente oposta àquela adotada no restante da Europa para tentar conter a crise econômica, a futura primeira-ministra realizou uma campanha rechaçando as medidas de austeridade. Seu programa foca no aumento de impostos e de gastos públicos e na garantia do Estado do Bem-Estar Social. Ou seja, Throrning-Schmidt caminha na contra-mão de reformas realizadas pelo seu antecessor, como a elevação da idade para aposentadoria para 67 anos até 2020 e cortes em benefícios.

Fora da Zona do Euro e com um déficit para 2012 estimado em 4,6% dos cerca de 310 bilhões de dólares do PIB, não falta confiança no discurso de Thorning-Schmidt para superar a crise.

"A Dinamarca precisa de uma mudança, precisa seguir em frente e precisa da minha liderança."

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