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Internacional

11 de setembro

Um médico em ação

por Gianni Carta publicado 12/09/2011 10h05, última modificação 12/09/2011 10h23
Rogério Tuma recorda como o destino o colocou na cena da tragédia dos atentados terroristas em Nova York

O médico Rogério Tuma, colunista de CartaCapital, que estava em Nova York em 11 de setembro de 2001, relembra a tragédia. Assista o vídeo da entrevista abaixo do texto.

CartaCapital: O que o levou a servir como voluntário em 11 de setembro?

Rogério Tuma: Naquele dia eu estava em Manhattan. É incrível, mas ia trocar um material que tinha comprado para um paciente, e a loja ficava ao lado das Torres Gêmeas. No caminho, o primeiro avião atingiu a primeira torre. As rádios começaram a anunciar “um acidente”. Comprei um rádio e uma máquina fotográfica. Segui em frente. Pediam voluntários, médicos, enfermeiros. Fui ajudar.

CC: No texto de sua autoria à época para esta revista, o senhor diz ter ficado impressionado com a solidariedade das pessoas.

RT: Não consigo esquecer essa capacidade que os americanos tiveram de se unir no maior atentado terrorista da história dos Estados Unidos.

CC: Pelo fato de ser de origem árabe, não teve problemas para atravessar as barreiras?

RT: Em Nova York há muitos árabes e judeus. Naquele momento, o atentado da Al-Qaeda teve impacto, claro, e o fato de ser árabe pesou. Mesmo assim, consegui passar por cinco barreiras de policiais. E só dizia que sou médico.

CC: A vasta maioria das pessoas estava com dificuldade para respirar. O senhor não?

RT: Não vi as torres caindo, mas recebi a poeira do concreto dos prédios. Não usei máscara, tirei minha camisa e a coloquei no rosto. Era um dia ensolarado, mas eu olhava para cima e mal conseguia ver o sol. Via uma bola turva com pouca luminosidade. Não havia transporte público. Caminhei uma hora para chegar ao Central Park, ao sul da ilha. Fiquei pouco no hospital. Logo fui ao marco zero, para tentar ajudar nos resgates. Havia policiais, bombeiros, paramédicos, médicos. Ficávamos ali à espera de um sobrevivente em meio aos destroços. Na verdade, o socorro das vítimas foi praticamente nulo. Na hora que os prédios caíram pouca gente sobreviveu. Atendíamos bombeiros e o pessoal de resgate com dificuldade para respirar. Frequentemente disparava uma sirene a anunciar a ameaça de desabamento de outros prédios.

CC: E o medo?

RT: Você sabe o perigo que corre, mas não o valoriza. Você define sua tarefa e vai adiante. E não falo só de mim, todo mundo ajudou como pôde.

CC: Foi difícil conseguir voo para voltar ao Brasil?

RT: Os voos eram postergados por que toda hora chegavam notícias de atentados. No meu voo, com quatro dias de atraso, havia muita gente passando mal. Por ansiedade, jejum prolongado, privação de sono. Eram intercorrências relativamente simples. A tripulação pediu então auxílio a médicos, e eu me apresentei. O comandante me chamou e disse que o médico da empresa aérea queria que voltássemos para Nova York. Mas ninguém queria voltar. Estavam todos em pânico. Liguei para o médico da companhia aérea, disse-lhe que sou médico e as intercorrências estavam sob controle. Disse-lhe, ainda, que assumia a responsabilidade de continuar com o voo até São Paulo.

Ele deu sinal verde. Então brinquei com o piloto. “Meu nome é Tuma. Pouco tempo atrás, um dos comandantes do exército iraquiano tinha o meu sobrenome.” Eu tinha pedido ao piloto para abaixar a altitude porque melhoraria a pressurização do avião. Não sei como me deixaram continuar. Com meu sobrenome e minhas ordens, poderiam ter achado que era outro atentado.

Assista ao vídeo da entrevista de Gianni Carta com Rogério Tuma

Vídeo e edição: Maria Clara Parada

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