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Internacional

Obama

Um homem comum

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 25/03/2011 10h26, última modificação 25/03/2011 10h36
Com que cabeça um então homem comum viaja à América do Sul, se o pau está quebrando na África e no Oriente Médio dos ditadores?

Por mais que se tente dizer e acreditar que o presidente dos Estados Unidos é um homem comum, sabemos que isso não é verdade. Mesmo que a China, com seu impressionante, e desastrado, crescimento econômico de alto carbono esteja a arranhar os calcanhares dos Estados Unidos, o país continuará ainda sendo a maior potência mundial por muito tempo. Não é uma questão de ideologia, mas de imagem forjada há mais de século.

Depois que Barack Hussein Obama, em pleno cerrado brasileiro, e de dentro do Palácio da Alvorada, deu o sinal verde para atacar Kadafi, perguntas aparentemente tolas começaram a tomar forma. Com quê cabeça um então homem comum viaja da América do Norte à do Sul, se o pau está quebrando na África e no Oriente Médio dos ditadores, e desse cara depende a ordem final para uma ofensiva à Libia?

Como é olhar para as suas duas filhas e para a exuberante Michelle, ele é visivelmente um gentleman com ela, e dizer algo como: - “Mandei meter bronca naquele assassino e a agora a jurupoca vai piar.”

Um homem comum, sem temer ser vulgar, falaria assim na mais profunda intimidade. Pode ser que não? Mas em algum momento, talvez no elevador (mas lá também tem segurança), ele tem de relaxar.

Esse é apenas alguns dos pensamentos comuns que vem à mente dos comuns que olham, ao vivo, com algum assombro, para um homem que carrega o peso do mundo nos ombros. Depois da ordem dada, como se abrisse e fechasse um parênteses, para que as forças da coalização internacional comprassem a briga da Libia, o homem segue falando sobre outras coisas do mundo. Do suco de laranja ao pré-sal, do jogo do Vasco e Botafogo à obra de Jorge Ben. - “Alô!”

Como presidente dos Estados Unidos, o sujeito tem de segurar a onda, aparentemente nas 24 horas do dia, seguir em frente, e aguentar as exigências mirabolantes do Serviço Secreto do Tesouro, que faz sua segurança, sabendo o quão importante é estar seguro. Não fosse ele o líder da maior nação planeta, num tempo em que o mundo muda muito rapidamente e, como diriam os paulistas, tudo está de ponta cabeça.

No tempo da guerra fria, que não vai tão longe assim, dizia-se que os presidentes americanos andavam com uma malinha em cujo interior havia um botão e um telefone vermelhos. Se acionado, o temível dispositivo daria início a uma guerra de mísseis contra os inimigos, também vermelhos.
O pavor das crianças de então, que ouviam essa história de seus pais, temerosos pelo futuro do mundo que não acabou, ainda, era de que algum assessor estabanado ou ansioso – ninguém pensava em terroristas como os de hoje -, esbarrasse na tal maletinha e os foguetes voassem desvairados destruindo o nosso quarto, nossos brinquedos, nossa família, nossa escola, nosso país e o planeta.
(Sobre tal paranóia. há um filme, bastante engraçado - De Volta para o Presente/Blast from the Past -, sobre o casal que se enfurnou com o filho num abrigo nuclear, embaixo de sua suburbana casa, com medo do apocalipse atômico, passou lá embaixo uns 20 anos, e quando resolveu dar uma olhada havia um boteco no lugar e o adolescente não sabia nada, nada, como se diz, de assalto do trem.)

Uma das perguntas tolas de que falamos, refere-se ao sono do presidente. Será que todos os problemas que um Obama tem de resolver ficam dançando em sua cabeça antes de ele dormir? Como ele faz para estar de pé no dia seguinte, que incluirá uma ingênua sessão de capoeira na Cidade de Deus, sempre monitorado pela mídia do planeta, ávida de boas imagens? Aparentemente, apenas olheiras tênues, poucos vincos no rosto e mais fios brancos que a gravidade do momento e do cargo não deixam barato.

Talvez o presidente precise de uma boa dose de maracujina, já que a charmosa patroa é uma vege e deve preferir para os seus produtos naturais. Assim, quem sabe, Obama consiga mandar os pensamentos passear longe, embora longe seja um conceito vago no século 21, e adormecer como um homem comum. Mas quem habita a Casa Branca não pode se pretender a esse luxo , mesmo que sob o efeito levemente tranqulizante de uma frutinha que nos States se chama sugestivamente passion fruit.

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