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Um aniversário que quebrou tradições

por Envolverde — publicado 27/07/2010 10h34, última modificação 27/07/2010 11h46
Comemoração anual ao ataque do quartel de Moncada fica sem o discurso oficial

Comemoração anual  ao ataque do quartel de Moncada fica sem o discurso oficial

 Por Patrícia Grogg, da IPS*

 Havana, Cuba, 27/7/2010 – O presidente de Cuba, Raúl Castro, quebrou ontem uma tradição da era revolucionária ao deixar de discursar na comemoração oficial do 57º aniversário do ataque ao quartel de Moncada, revés militar que acabou marcando o início da revolução triunfante, em janeiro de 1959. “Não sabemos o que aconteceu... ficamos esperando seu discurso”, disse à IPS por telefone um pesquisador cubano que estava presente no ato realizado na cidade central de Santa Clara. O governante cedeu a tribuna ao primeiro vice-presidente, José Ramón Machado Ventura, pegando de surpresa praticamente todo o país.

Inclusive, quando na véspera foi anunciado que a comemoração seria encabeçada por Raúl Castro, eleito em fevereiro de 2008 presidente do Conselho de Estado, muitas pessoas esperavam até mesmo a presença de seu irmão mais velho, Fidel Castro, que este mês deu mostras de recuperação e reapareceu publicamente. Comemorado como Dia da Rebeldia Nacional, o dia 26 de julho representa um simbolismo. Segundo dados oficiais, a primeira vez que Fidel se ausentou foi em 2007. Um ano antes, ficara doente dois ou três dias depois da comemoração dessa data na província de Granma.

Porém, em 1994 e 1997, o discurso de encerramento do ato central coube a Raúl Castro, enquanto em 1992 foi adiada a celebração para 5 de setembro, depois que Fidel voltou de uma viagem à Espanha onde participou da II Cúpula Ibero-Americana e visitou a Galícia, região natal de seu pai, Ángel, morto em 1956. Esta efeméride comemora o ataque aos quartéis Moncada, de Santiago de Cuba, a 847 quilômetros da capital Havana, e Carlos Manuel de Céspedes, em Bayamo, a 730 quilômetros da capital, que Fidel dirigiu, em 1953, à frente de um grupo de jovens, entre os quais estava Raúl.

A data é motivo de comemorações que incluem um ato oficial, tradicionalmente aproveitado para informar sobre a situação do país e seu contexto internacional. Em 2007, Raúl desnudou os problemas econômicos do país e falou de mudanças estruturais e de conceito para fazer a terra produzir. Suas palavras foram tomadas como promessa das transformações que Cuba precisa para melhorar sua debilitada economia, e agora eram esperados anúncios importantes sobre o tema.

Após quatro anos, Machado Ventura evidenciou que o governo não tem pressa nesse assunto. “Continuaremos os estudos, bem como a tomada de decisões que levem a superar deficiências e aperfeiçoar a sociedade; mas estas não serão populistas, demagógicas, pois terão senso de responsabilidade, passo a passo, sem improvisações nem precipitações para não errar, e deixar para trás erros e medidas que não sejam adequados às condições atuais”, afirmou.

Em seu, até agora, único discurso deste ano em Cuba, feito em abril, Raúl atribuiu o desespero dos que desejam mudanças “imediatas” ao desconhecimento “da magnitude da tarefa e da profundidade e complexidade das inter-relações entre os diferentes fatores do funcionamento da sociedade que deverão ser modificados”.

A reunião em Santa Clara tampouco contou com a presença do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que, dois dias após anunciar que estava convidado e figurava entre os oradores, informou ter suspendido a viagem por motivo de “agressão” ao seu país pela Colômbia, apoiada, segundo disse, pelos Estados Unidos. Em seu lugar falou seu ministro de Energia e Petróleo e presidente da estatal Petróleos da Venezuela, Alí Rodríguez, que acusou Washington de fomentar um enfrentamento entre Bogotá e Caracas. A tensão binacional aumentou depois da decisão de Chávez de romper relações totais com a Colômbia, depois que o presidente Álvaro Uribe o acusou de proteger guerrilheiros esquerdistas do país vizinho.

“Somos amantes da paz, lutaremos até o infinito para garantir a paz, mas não tememos a guerra se nos apresentar”, disse Alí, um dos representantes da Venezuela que participou, nos dias 24 e 25, de uma reunião ministerial em Cuba, onde foi feito um acordo para executar cerca de 140 projetos bilaterais. Segundo especialistas, trata-se de fortalecer as iniciativas que mais atendem aos interesses das duas nações e também com maiores possibilidades na área produtiva. Desde 2005, o intercâmbio entre Cuba e Venezuela cresceu para mais de US$ 3 bilhões em 2009. A Venezuela fornece a Cuba cerca de cem mil barris diários de petróleo e derivados, o que a torna vulnerável a qualquer desestabilização desse país.

“A situação internacional que nos cerca é muito grave. É melhor que Raúl não tenha falado”, disse à IPS um veterano militante do Partido Comunista de Cuba (PCC). Em meio a este contexto adverso, a atenção da população de 11,2 milhões de habitantes se voltou, desde ontem, para a sessão ordinária do parlamento, prevista para 1º de agosto, cujo discurso de encerramento até agora cabia ao presidente Raúl Castro.

No entanto, Fidel mantém seu posto de deputado na Assembleia Nacional. Inclusive sua cadeira permanece até agora vazia, junto à de Raúl, no plenário do Palácio de Convenções de Havana, onde os deputados se reúnem. O octogenário líder desistiu, em fevereiro de 2008, de disputar novamente o cargo de presidente do Conselho de Estado e comandante em chefe, mas conserva o posto de primeiro-secretário do PCC além de sua bancada parlamentar.  Envolverde/IPS

*Matéria originalmente publicada no site Envolverde

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