Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Ultimato da ONU ao tirano

Internacional

Mundo árabe

Ultimato da ONU ao tirano

por Gianni Carta publicado 21/03/2011 16h56, última modificação 13/10/2011 11h15
O Conselho de Segurança autoriza a zona de exclusão aérea e a intervenção militar para evitar o massacre
Ultimato da ONU ao tirano

O Conselho de Segurança autoriza a zona de exclusão aérea e a intervenção militar para evitar o massacre. Matéria da edição 638 da revista CartaCapital, publicada na sexta-feira 18. Por Gianni Carta, de Paris

A intervenção militar na Líbia é questão de horas*, segundo fontes americanas e francesas, para evitar o massacre que Muammar Kaddafi se prepara a ordenar em Bengazi, capital do governo rebelde na iminência de cair nas mãos das forças do ditador. Autorização da ONU para tanto existe desde a noite da quinta-feira 17: o Conselho de Segurança não somente decidiu impor uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia, mas também, e sobretudo, autorizar “todas as medidas necessárias”, ou seja, a ação militar, para proteger os civis ameaçados.
A resolução foi aprovada por 10 votos e 5 abstenções (Rússia, China, Brasil, Índia e Alemanha) e festejada em Bengazi pelos rebeldes que aguardavam a decisão. Bases militares americanas na Itália estão de prontidão, bem como a VI Frota ao largo da costa líbia. Kaddafi promete vingança.
A primeira manifestação do tirano depois do anúncio da resolução do Conselho de Segurança deu-se pelo canal português RTP: “A resolução é um ato de colonização flagrante, loucura, arrogância. Se o mundo ficar maluco conosco, nós também ficaremos malucos com eles. Vamos responder e fazer sua vida um inferno. Eles nunca mais terão paz”.
Até agora, a luta dos rebeldes líbios pelo controle da cidade estratégica de Ajdabiya parecia decisiva, para uma ainda possível resistência. A cidade a leste do país é estratégica porque é o último bastião a impedir o exército líbio de chegar a Bengazi, a 160 quilômetros. Mesmo se não estava claro quem detinha o controle de Ajdabiya, as forças de Kaddafi começavam, no dia 17, a bombardear Bengazi.
Com o costumeiro tom de desafio, Saif al-Islam, filho de Kaddafi, afirmou no dia 16 para a rede de tevê em língua francesa Euronews que a resolução, se votada, chegaria tarde. “Em 48 horas”, garantia, a rebelião terminaria. Saif aproveitou para atacar Nicolas Sarkozy, o líder do Ocidente mais ativo em defesa da intervenção na Líbia. E ameaçou: “Nós financiamos (a campanha presidencial de Sarkozy em 2007), e temos todos os detalhes para revelar tudo”. Se a França continuar a reconhecer o Conselho Nacional de Transição da Líbia, os Kaddafi, disse Saif, revelarão ainda mais detalhes sobre o “segredo grave” que poderia implicar o fim de Sarkozy na Presidência. O Palácio Élysée nega, contudo, qualquer financiamento da campanha presidencial de 2007 por parte da Líbia.
Washington, até meados da semana, era cauteloso em relação à proposta franco-britânica de delimitar uma zona de exclusão aérea. De súbito, ficou mais agressivo. Outras medidas, além de neutralizar a aviação de Kaddafi através da no-fly zone, seriam necessárias, declarou no dia 16 Susan Rice, embaixadora dos Estados Unidos na ONU. “A situação evoluiu”, resumiu Rice.
Em relação à situação no pequeno reinado de Bahrein, no Golfo Pérsico, os EUA parecem preferir, por ora, a política de uma no cravo, outra na ferradura. As autoridades de Bahrein, disse Hillary Clinton, “estão na pista errada”. E logo emendou: “Deploramos o uso de força contra manifestantes, e também o uso de força por parte dos manifestantes”. Ocorre que populares acampados na Praça da Pérola, símbolo da resistência na capital, Manama, usaram coquetéis molotov contra tanques, helicópteros, bombas de gás lacrimogêneo, canhões de água. Há uma forte discrepância entre a violência de uns e de outros.
Coube a Navi Pillay, chefe de direitos humanos da ONU, condenar o “chocante” uso de força perpetrada pelas forças de segurança contra a multidão. Em Manama morreram pelo menos seis civis e seis policiais no dia 16. Em manifestações anteriores, cerca de dez civis perderam a vida. São centenas os feridos, e numerosos deles têm de ser tratados em casas de rebeldes ou em mesquitas. Isso porque o principal hospital, Samaniya, está cercado pelos soldados. Médicos e pacientes são impedidos de entrar pelos militares. Funcionários do hospital relatam à mídia internacional as ameaças a que são submetidos pela tropa. Pessoas são atingidas pelas balas até dentro do hospital. Pillay repete em vão que a tomada de hospitais por militares é violação da lei internacional. Enquanto isso, toque de recolher foi imposto em Manama, das 16 às 4 horas. A lei marcial, em vigor por três meses, já foi declarada.
Encorajadas pelas rebeliões na Tunísia e no Egito e movidas por redes sociais como o Facebook, a população do Bahrein, em sua maioria xiita (70%) num reinado de pouco mais de 1 milhão de habitantes, pede a “queda da monarquia”. Protestam contra o reinado sunita, no poder desde 1783, e sempre empenhado em discriminar os xiitas. Segundo os manifestantes xiitas, os empregos disponíveis ficam para os sunitas.
Semanas atrás, quando do início das manifestações, o rei Hamad bin Issa al-Khalifa agiu como Kaddafi: reprimiu brutalmente os manifestantes. Resultado: sete mortos, centenas de feridos. Em seguida, o rei apresentou suas condolências às famílias dos mortos na rede de tevê CNN. E preferiu então interromper a repressão ao apostar no arrefecimento do movimento de oposição após suas ofertas de abertura política. Mais: propôs-se, por exemplo, a dialogar com a oposição, na esperança de dividi-la. E concedeu um singular sucedâneo de bolsa família de 2.020 euros. Faria a felicidade de muitos brasileiros.
Em seguida, demitiu dois ministros, no quadro de uma reforma do gabinete e deslocou mais cinco para outras pastas. De todo modo, o premier não é substituído há mais de quatro décadas. É o xeque Khalifah ibn Salman al-Khalifah, da família, claro, tido como um autoritário. Sua atuação é contestada pelo príncipe herdeiro, o xeque Salman Bin Hamad al-Khalifah, considerado reformista. O príncipe, em meados de março, teria conseguido dialogar com a oposição. Prometeu, entre outras concessões, um Parlamento com “total autoridade legislativa”. O premier interveio e convenceu o rei a deixar as coisas como estão.
O rei Hamad entrou em contato com Riad, capital da Arábia Saudita, onde vozes logo se alçaram para dar proteção ao reinado dos Khalifah. A monarquia sunita em Riad teme o advento de um governo pró-democrático, disposto a abrir as portas do reinado vizinho aos xiitas. Os xiitas em Bahrein têm uma ligação com a grande potência não árabe e xiita, o Irã. Para Teerã, Bahrein historicamente faz parte do Irã. E o Irã tem espalhado sua influência na região durante a Primavera Árabe. O Hezbollah, movimento xiita financiado pelo Irã, há poucos meses tirou do poder o governo pró-saudita no Líbano. Isso, claro, sem contar a influência do Irã na comunidade xiita no Iraque. Após a repressão em Bahrein, houve manifestações no Líbano e no Iraque.
Bahrein, é importante sublinhar, é o primeiro país do Golfo Pérsico a ser realmente sacudido pela agitação popular. Por ora, é fora do comum na região que monarquias sunitas sejam ameaçadas por xiitas. Preocupados, os paí-ses vizinhos resolveram intervir à sombra da força comum do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), composto e integrado, além de Arábia Saudita e Bahrein, por outros quatro reinados sunitas: Emirados Árabes Unidos (EAU), Catar, Omã e Kuwait.
Já no início desta semana, um contingente de 2 mil soldados, 1,2 mil da Arábia Saudita e 800 dos EAU, adentrou o reinado de Bahrein e se instalou em casernas a 20 quilômetros da Praça da Pérola. Objetivo principal: vigiar instalações de petróleo, gás e instituições financeiras. Aparentemente, não ajudou as forças do Bahrein a conter as recentes manifestações. Mas sua mera presença reveste-se de extrema força simbólica. Mas até que ponto manifestações nos países do Golfo Pérsico poderão ser contidas? O Irã, diante da presença saudita em Bahrein, falou em “ocupação” e mesmo de “invasão”.
Em seu site Aljasem.org, o analista político do Kuwait Abdelikader Al-Jasem indaga até que ponto “as petromonarquias do Golfo” e suas divididas famílias reinantes conseguirão resistir às “ondas de mudanças”. De fato, a necessidade de ser ajudados pelos sauditas demonstra como os Khalifah, no Bahrein, estão enfraquecidos diante da “Primavera Árabe”.
Al-Jasem demonstra, ainda, como a família saudita reinante está dividida em relação à sucessão de seu rei, Abdallah bin Abdul Aziz, de 87 anos. Os primeiros na linha de sucessão são octogenários, enquanto os jovens herdeiros divergem sobre o futuro do país, que durante a Primavera Árabe aumentou os salários de funcionários em 15%. Segundo o antropólogo Madawi Al-Rasheed, em artigo publicado pelo periódico Foreign Policy, “a nova geração não se contentará mais com os presentes do regime”.
Embora a Arábia Saudita seja rica, escreve Al-Rasheed, “a grande maioria dos jovens não encontra trabalho, quer no setor público, quer no privado”. Isso diante de um crescimento econômico anual de 430 bilhões de dólares, a beneficiar uma elite de empresários próximos da família reinante. Cerca de 40% dos sauditas entre 20 e 24 anos estão desempregados em um sistema gangrenado pela corrupção e pelo nepotismo, conforme Al-Rasheed.
O que levaria qualquer alma a se indagar: por que os EUA são comedidos diante das atrocidades cometidas pelo Bahrein e duros com a Líbia? Por ora, é verdade, Bahrein não foi suficientemente longe em termos de números de manifestantes mortos.
Mas em Bahrein os Estados Unidos mantêm sua maior base naval na região, a V Frota. E segundo o Center for Strategic  and International Studies, de Washington, “a estratégia americana no Oriente Médio repousa inteiramente na presença de um regime benevolente na Arábia Saudita”. Até 2025, os EUA dependem das importações de petróleo do reinado saudita. Riad, ademais, tem um peso fundamental em face do radicalismo do Irã. E ainda: Riad é parceiro crucial dos EUA e da Europa na guerra ao terrorismo.
O efeito dominó iniciado na Tunísia e no Egito com a Primavera Árabe não é infinito. Ou definitivo, como foi o caso das revoluções que varreram regimes autoritários do Leste Europeu, em 1989. Por ora, a Primavera Árabe parece ter esmorecido. As flores a inspirar revoltas murcharam. Mesmo assim, a esperança permanece. E a posição da França e da Grã-Bretanha, mesmo se engatilhada por motivos políticos internos, principalmente no caso de Nicolas Sarkozy, tem muito peso.
*A reportagem foi fechada antes do início da intervenção militar na Líbia, que começou no sábado 19

registrado em: ,