Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Ucrânia: Situação de ex-premier gera boicote na Eurocopa

Internacional

Futebol e política

Ucrânia: Situação de ex-premier gera boicote na Eurocopa

por Fernando Vives — publicado 03/05/2012 09h37, última modificação 03/05/2012 09h37
Alemanha é mais um país que não deve enviar dirigentes políticos para a Eurocopa da Polônia e da Ucrânia; Michel Platini, presidente da Uefa, é pressionado a falar sobre os direitos humanos no país
Yulia Tymoshenko

Imagem das supostas agressões da ex-premier ucraniana Yulia Tymoshenko, na prisão. Foto: AFP PHOTO / UKRAYINSKA PRAVDA

Fato 1: a Ucrânia é, ao lado da Polônia, uma das organizadoras da Eurocopa de futebol deste ano, a segunda competição mais importante do futebol mundial depois da Copa do Mundo, que ocorre em junho e julho próximos.

Fato 2: O governo ucraniano mantém encarcerada a ex-premier Yulia Timoshenko por razões que a Europa Ocidental entende como políticas.

Junte os dois tópicos e tem-se uma crise política que cresce dia a dia na Europa. Nesta quarta-feira 2, a chanceler alemã Angela Merkel declarou que estuda fazer seu estafe político boicotar a Eurocopa 2012. Importante ressaltar: o boicote seria da presença das lideranças políticas do país, e não da seleção alemã, uma das favoritas na competição de futebol.

Se confirmada a ausência, Merkel seguiria o exemplo dos líderes políticos da Áustria, Bélgica, Estônia, Eslovênia, Letônia e República Tcheca, que já anunciaram publicamente não estarem presentes na Euro 2012. A presença de dirigentes nos bastidores de um evento esportivo de tal magnitude é um exercício constante de relações públicas. A ausência deles simboliza um protesto importante.

Presa política ou presa por corrupção?

Yulia Tymoshenko liderou o movimento conhecido como Revolução Laranja, que em 2004 evitou a posse de Viktor Yanukovych após uma eleição fraudulenta, segundo o Ocidente. Ela foi duas vezes primeira-ministra do país (em 2005 e entre 2007 e 2010) e, em 2010, perdeu a eleição presidencial para o próprio Yanukovych (sem denúncias de fraudes desta vez). E foi aí que os problemas para Tymoshenko começaram.

Yanukovych instigou o parlamento dominado por seu partido a investigar o mandato da antecessora. A investigação acabou acusando Tymoshenko de abuso de poder e fraude fiscal ao fechar um acordo de fornecimento da gás com a Rússia durante sua gestão. Ela foi condenada a prisão.

Nas últimas semanas, os partidários da ex-premier divulgaram que ela está recebendo maus tratos na cadeia. A própria Tymoshenko diz que já apanhou de carcereiros durante uma tentativa de fazer uma greve de fome por conta de sua situação. Nos últimos dias, uma fotografia dela com o rosto machucado foi divulgada como prova dos maus tratos recebidos, o que gerou a indignação na Europa Ocidental.

Tymoshenko x Yanukovych, ou Ocidente x Rússia

A crise envolvendo a ex-primeira ministra expõe as feridas internas do povo ucraniano. A população de 45 milhões de pessoas praticamente se divide ao meio sobre uma questão histórica: o alinhamento ou não à Rússia. Os dois países foram a espinha dorsal da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas entre 1922, ano em que os ucranianos se juntaram oficialmente aos revolucionários bolcheviques russos, e o colapso vermelho de 1991.

As eleições na Ucrânia na última década foram marcadas por brigas ferozes por conta desta divisão. Tymoshenko é contrária a influência russa; Yanukovych, a favor. Mas a maneira como é conduzida a briga nas eleições, bem como as fraudes relatadas no pleito de apenas oito anos atrás indicam a fragilidade da democracia do país, que luta para ser um integrante da União Europeia. E a nebulosidade sobre as condições do cárcere da ex-primeira ministra pesam ainda mais.

A crise chega ao futebol

Apesar de ninguém cogitar um boicote das 16 seleções nacionais que disputam a Eurocopa da Polônia e da Ucrânia, a polêmica da prisão de Yulia Timoshenko já chegou aos bastidores da bola. O presidente do clube alemão Bayern de Munique e ex-jogador Uli Hoeness pediu ao presidente da Uefa (associação que rege o futebol europeu) que proteste formalmente contra a perseguição à ex-premier e sobre a postura anti-direitos humanos no governo do país.

A postura de Michel Platini, presidente da Uefa, até o momento é de silêncio absoluto - a mesma postura, aliás, do governo polonês, que organiza o evento junto com os ucranianos. Caso Platini siga os passos de seu mentor na política do futebol, o suíço presidente da Fifa Joseph Blatter, ele certamente não vai se manifestar. Para a Fifa, os direitos humanos estão muito abaixo dos negócios do futebol.

registrado em: