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Triste burguesia europeia

por Gianni Carta publicado 09/05/2008 15h11, última modificação 25/10/2011 13h41
Brown, não há a menor sombra de dúvida, é certamente um intelectual de alto nível, mas visivelmente é um homem complexo

Brown, não há a menor sombra de dúvida, é certamente um intelectual de alto nível, mas visivelmente é um homem complexo

Na Europa, a esquerda vai mal. Após a vitória nas eleições francesas de Nicolas Sarkozy, em 2007, e de Silvio Berlusconi, neste ano, na Itália, o Partido Trabalhista do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, levou verdadeira tunda nas urnas na quinta-feira 1º de maio. Isto, claro, não significa que os conservadores vencerão no Reino Unido em 2010. Mas vai saber. Segundo alguns cientistas políticos, o fim de Brown é próximo, e sua queda poderia preceder as legislativas de daqui a dois anos. Espero que não seja esse o caso.

Que mal fez Brown para que sua legenda recebesse 24% dos votos, atrás do Partido Conservador (44%) e do Liberal Democrata (25%)? Eis a resposta: o subúrbio das verdejantes e chuvosas terras britânicas é dominado por senhores e senhoras de mais de 50 anos. E que votaram, em massa, contra as políticas fiscais (impostos mais elevados) de Brown. E, por favor, pasme: os suburbanos (e certamente vários londrinos) se manifestaram também contra a maneira de Brown lidar com a crise do crédito, iniciada nos Estados Unidos, a qual teve, como em outros países, repercussões em Londres.

Mas quem pode lidar com a crise americana? E por que Brown, além de ser visto como esquerdista, está em baixa, ao menos no momento?

O atual premier britânico padece de falta de carisma inenarrável. Este escriba pôde constatar o fato numa entrevista com o então chanceler na Embaixada do Brasil, em Londres, no final dos anos 90 – quando o futuro premier já era um homem reservado. Brown, não há a menor sombra de dúvida, é certamente um intelectual de alto nível, mas visivelmente é um homem complexo. Por exemplo, quando este jornalista lhe perguntou como tinha sido o encontro com o então embaixador do Brasil, Rubens Barbosa, Brown, como sempre, mecanicamente abriu seus maxilares – como se a amplitude da abertura de sua boca buscasse mais ar e ficasse travada no empenho – e retrucou: “Foi ótimo”.

Devo admitir que essas breves frases, fruto de movimentos robóticos (e, por tabela, lacônicos), são algo notável: os maxilares se congelam. Contudo, acredite, frases, com freqüência, fluem da boca de Brown, razoável orador e homem de alto calibre intelectual. O impacto de sua articulação pode ser contundente, como não foi esse o caso no nosso efêmero encontro, na Embaixada do Brasil.

Contudo, e é importante frisar, Brown tornou seu suposto companheiro do Partido Trabalhista, Tony Blair, em um popular primeiro-ministro, graças às suas reformas econômicas. Isso, claro, até Blair ter adentrado na guerra contra o Iraque. A partir de então, Blair tornou-se impopular mundo afora e Brown, seu natural sucessor, ganhou força para substituí-lo.

O atual premier, não resta a menor sombra de dúvida, é o homem que colocou a economia do Reino Unido em ordem, dando-lhe maior flexibilidade e, ao mesmo tempo, sempre levando em conta questões sociais. Foi Brown quem manteve Blair no poder, visto que, como todos os burgueses europeus, os britânicos (e continentais europeus) votam com as mãos nos bolsos – e Brown lhes fez promessas.

Por que, então, agora votaram maciçamente na direita do jovem conservador David Cameron, líder Tory, e em seu protégé Boris Johnson, para tomar o lugar do popular Kevin Livingstone, atual prefeito de esquerda (Labour) londrino, que fez excelentes reformas em seus oito anos de mandato?

Ex-editor da semanal ultraconservadora The Spectator por mais de uma década, Johnson representará, na verdade, o programa piloto para garantir um governo similar de Cameron, caso (esperamos que não) ele, Cameron, seja eleito premier em 2010. Entre outras reformas, Johnson quer reformar o metrô londrino. Esta, diga-se, será uma grande vitória, caso consiga colocá-la em prática.

Porém, privatizações, como quer, são a solução?

O sistema público nas escolas e hospitais britânicos (i.e. continentais) é excelente. E os transportes em países como a Itália e a França, impecáveis. Será preciso, como prega Cameron, influenciado pelo modelo social falho dos Estados Unidos, privatizar tudo? Eis a questão. E ela é decisiva.