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Trilhos da alma lusitana

por Gianni Carta publicado 06/01/2011 11h15, última modificação 25/10/2011 11h53
Brasileira revê os trajetos que fizeram do eléctrico o transporte por excelência de Lisboa
Trilhos de alma lusitana

Brasileira revê os trajetos que fizeram do eléctrico o transporte por excelência de Lisboa. Por Gianni Carta

Brasileira revê os trajetos que fizeram do eléctrico o transporte por excelência de Lisboa

Nysse arruda recorda-se, nostálgica, dos passeios feitos em bondes amarelos, na companhia da avó, pelo centro de São Paulo. “Era muito pequena, mas me lembro dos assentos revestidos de pele, dos interiores em madeira e da campainha a soar trim-trim. Meio infantil de minha parte, mas eu achava tudo isso o máximo.”
Jornalista radicada em Lisboa há 20 anos, Nysse parece ter mantido o olhar de menina apaixonada no que se refere a esses veículos que Portugal intitula eléctricos. Em seu livro Eléctrico 28: Uma viagem na história, ela uniu o amor por Lisboa ao fascínio pelo antigo meio de transporte urbano.
Especializada em esportes a vela para o jornal Diário de Notícias, Nysse narra a história de Lisboa enquanto sobe e desce as colinas da capital a bordo do eléctrico da linha 28. “Quem ler o livro vai se aperceber que pode conhecer a história e as belezas de Lisboa só com um bilhete de eléctrico na mão”, ela declarou à TVI 24 em longa entrevista.
Indago de onde vem o amor por essa capital “habitada e visitada há mais de três milênios”. “Adoro a cidade, seus monumentos, sua incrível luz, e principalmente adoro poder olhar o Rio Tejo todos os dias ao acordar. É uma cena meio mágica.” Acrescenta: “Saber que tantas coisas aconteceram aqui, a chegada dos fenícios, a ocupação dos romanos, a presença árabe, a partida dos grandes navegadores, gente de todo o mundo reunida no Terreiro do Paço, a Praça do Comércio... Hoje Lisboa é um mix disso tudo, história e modernidade, é saudável e é encanto. É luz e é o Tejo”.
O Tejo, claro, rio a se confundir com o mar, também inspira a jornalista empenhada em coberturas de competições pelo mundo. Ela escreveu o primeiro livro em português, pela Editora Brasiliense, sobre a regata de circum-navegação Whitebread Round the Word Race (1989-1990), com patrocínio da Ford, do velejador paulista Eduardo Sousa Ramos. E a uma amante de regatas parece bastante natural viver em Lisboa, capital de um país europeu “que redesenhou o mapa do mundo com seus audazes navegantes”, como ela escreve em Eléctrico 28.
Publicado pela prestigiada Imprensa Nacional-Casa da Moeda em versões portuguesa e inglesa no fim deste ano, e com apoio da Carris, empresa de transportes urbanos, a primeira edição de Eléctrico 28 esgotou-se em um mês. A segunda já está nas livrarias. No início do próximo ano, haverá uma versão em espanhol. O livro custa 30 euros.
A magnífica capa em 3D, na qual dois eléctricos 28 se cruzam rumando para sentidos opostos, é assinada pelo designer Henrique Cayatte. As fotos de Clara Azevedo, a terceira parceira no projeto, retratam não somente imagens internas e externas de bondes, mas também A Beleza de Lisboa, como se lê no alto da capa dura quadrangular.
A obra é ideal para planejar um -passeio pontuado por atrações ao longo da rota 28. E nas páginas finais há um índice de monumentos, com endereços e horários. Mas Eléctrico 28 foge às características de um guia turístico. Em formato luxuoso, não detalha somente as histórias da cidade, de seus miradouros, teatros, museus, jardins. Ao citar a crucial parada no Terreiro do Paço, Arruda não fala somente sobre a paisagem no “inconfundível azul das águas do Rio Tejo”.
Ali chegaram as maravilhas vivas do Oriente e da África, como, por exemplo, os primeiros elefantes “vistos na Europa”. Um deles, o albino Hanno, foi presenteado pelo rei dom Manuel I ao papa Leão X, em 1514. O elefante Hanno tornou-se o mascote preferido do papa. Quando morreu, o pontífice escreveu o epitáfio do elefante.
Arruda também revela segredos. Nas cercanias da Sé, único edifício românico-gótico de Lisboa construído no local de uma mesquita, jazem casas de banho públicas. Lá a jornalista encontrou a guardiã Maria Alexandre Borda D’Água Carvalho Marques.
Quando da construção do sanitário público, Dona Maria fotocopiou um texto com detalhes encontrados em 1993 das casas naquela área terraplanada após o terremoto de 1755, o qual devastou Lisboa. Dona Maria entrega as fotocópias aos turistas “desse pedacinho da história da cidade”. A jornalista diz que as casas de banho são “impecáveis”, abertas de segunda a sábado entre 9 e 12 horas, e das 14 às 18 horas.
No Chiado, outra parada do 28, “bairro mais cosmopolita de Lisboa”, vem à tona o interesse da jornalista pela literatura lusitana. Fernando Pessoa nasceu perto do Teatro Nacional de São Carlos. Batizado na Basílica dos Mártires, escreveu sobre o bater dos sinos: Ó sino da minha aldeia/ Dolente na tarde calma,/ Cada tua badalada/ Soa dentro da minha alma.
Pessoa frequentava os cafés boêmios do Chiado, entre eles A Brasileira, onde tomava umas “bicas”, o verdadeiro café brasileiro. Isto, claro, sem contar os outros tragos. A Casa Fernando Pessoa fica em Campo Ourique, onde ele passou seus últimos anos. Eça de Queirós, crítico da burguesia lisboeta, escreveu sobre o Chiado: “Aqui até a lama é de boa qualidade”.
Após citar a rua no Chiado com nome do poeta Almeida Garrett, Nysse Arruda desce no próximo ponto, no sentido do ponto final de Prazeres, a Praça Luís de Camões. Tece belas linhas em homenagem ao autor de Os Lusíadas. Boêmio, briguento, perdeu o olho direito em Ceuta na luta contra os mouros. Viveu em Goa, Macau, Moçambique. Morreu na penúria.
Na parada na Rua de São Bento, a jornalista aconselha uma visita à casa da cantora Amália Rodrigues, a artista “a inovar o fado”. No Cassino de Copacabana, conta a jornalista, deu-se seu primeiro triunfo, em 1950. Aliás, há várias associações com o Brasil em Eléctrico 28. Considerável parte da Lisboa pombalina foi reconstruída com riquezas da antiga colônia.
A empresa Carris nasceu no Rio de Janeiro, em 1872. Tratou-se de um projeto colocado em prática no ano seguinte pelo diplomata Francisco Cordeiro de Sousa e seu irmão, o escritor Luciano. O objetivo era estabelecer em Lisboa “carruagens movidas a tração animal, deslocando-se sobre carris”. De certa forma, o fato de uma brasileira escrever um livro capital sobre Lisboa a partir de bondes fecha um círculo.

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