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Editorial

Terrorismo, um e dois

por Mino Carta publicado 21/04/2011 00h20, última modificação 25/04/2011 10h12
O presidente da Itália, Giorgio Napolitano, celebra as vítimas dos anos de chumbo enquanto um dos assassinos está no Brasil
Terrorismo, um e dois

O presidente da Itália, Giorgio Napolitano, celebra as vítimas dos anos de chumbo enquanto um dos assassinos está no Brasil. Por Mino Carta. Foto: Michal Cizek/AFP

Giorgio napolitano, presidente da República italiana, anunciou celebrações do “Dia da Memória das Vítimas do Terrorismo” para 8 de maio no próprio Quirinale, o palácio presidencial. A razão da decisão repentina está na campanha de difamação desfechada pelo premier Silvio Berlusconi contra a magistratura. Último lance, outdoors afixados pelas ruas de Milão, onde Berlusconi está sob processo por corrupção de menor e concussão, em que os juízes são chamados de brigatisti.

As Brigate Rosse foram a maior organização do terror de direita e de esquerda que infelicitou a Península ao longo dos chamados anos de chumbo, mas houve outras, como, por exemplo, o PAC, Proletários Armados pelo Comunismo, na qual militou Cesare Battisti, envolvido em quatro homicídios, em dois deles como autor material. Quanto aos magistrados acusados pelo premier, o próprio não tem a mais pálida dúvida a respeito do gênero de terrorismo que praticam: trata-se de “elementos eversivos de esquerda”. O comunismo, segundo Berlusconi, ainda está vivo na Itália, a agir às claras nos tribunais bem como na escola pública, incumbida de doutrinar os cidadãos de amanhã.

O premier enxerga o país através de lentes vermelhas e alguns dos seus apaniguados se incumbem de espalhar os cartazes ofensivos por Milão às vésperas das eleições administrativas. Mas a agressão transcende os magistrados, atinge um dos poderes democráticos e o Estado de Direito. O prefeito direitista de Milão, Letizia Moratti, cuidou de escalar o bode expiatório, um candidato à vereança que acaba de anunciar a sua renúncia. Nem por isso arrefece a ameaça do choque institucional de consequências imprevisíveis. E Napolitano emite um comunicado duríssimo para afirmar que “nas polêmicas sobre a administração da Justiça está a ser alcançado um limite que, ultrapassado, vai gerar exasperações e degenerações”.

Conforme o regime parlamentarista em vigor na Itália, o presidente da República representa o Estado e é guardião da Constituição. No seu pronunciamento, ao se referir aos outdoors milaneses, os define como “antes de mais nada, ofensa intolerável a todas as vítimas do terrorismo”. Entre elas, dez magistrados, e o presidente cita-os um por um.

A manifestação de Napolitano recebe o aplauso da opinião pública, e a aprovação mais emocionada vem de um ex-aliado de Berlusconi, o presidente da Câmara Gianfranco Fini, para quem o chefe do Estado “mais uma vez interpreta o sentimento de todos os italianos”. Situações como esta provam que na Itália a memória do terrorismo, à época condenado por todos os partidos, inclusive o comunista, onde então militava Napolitano em posição destacada, permanece intacta.

Enquanto o presidente da República italiana assume a defesa da Justiça agredida pelo Executivo e convoca a nação a celebrar as vítimas do terrorismo que ensanguentou o país até o começo dos anos 80, o Brasil ainda abriga Cesare Battisti, condenado por essa mesma Justiça na qual o governo brasileiro não confia. Se Berlusconi ofende um Estado Democrático de Direito, o nosso Executivo não deixa por menos.

Há diferenças nas possíveis reações de Napolitano. Contra o agressor da casa o presidente eleva o tom de voz em vários decibéis, no caso dos governantes de um país amigo, pondera pacatamente, como fez em cartas remetidas há tempo e em conversas com o então presidente Lula. Mas é da compreensão até do mundo mineral que, se ministros da Justiça brasileiros contestam sentenças passadas em julgado em quaisquer países democráticos, o seu gesto é no mínimo espantoso. Mesmo que os ministros em questão se comovam com a evocação da hipocrisia de Mitterrand e de sua doutrina destinada a dar guarida a um bando de assassinos, de resto cancelada por seu sucessor.

A elite brasileira já se curvou extasiada como convém ao colonizado diante da cultura francesa, hoje observa-se o esforço concentrado de imitar Tio Sam. De todo modo os nossos mestres em Direito preferem mesmo manter seus pied-à-terre em Paris, quando não belas vivendas na Provence.

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