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Internacional

Entrevista

Cabe ao G-20 buscar solução para a crise, diz Mantega

por Luiz Antonio Cintra — publicado 18/06/2012 18h03, última modificação 18/06/2012 18h07
Para o ministro da Fazenda, tarefa não é simples, pois 'cada vez mais os europeus conseguem aprofundar a crise'
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Para Mantega, responsabilidade do G20 é encontrar uma saída para a crise. Foto: Sergio Amaral / Carta Capital

Na quarta-feira 13, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, recebeu CartaCapital em seu gabinete, em Brasília, para uma entrevista exclusiva publicada na edição 702 da revista, nas bancas desde a sexta-feira 15. Alguns trechos inéditos da conversa, com foco no encontro de ministros do G-20 que ocorre até a terça-feira 19 no México, são publicados a seguir. “Temos uma situação financeira grave”, diz Mantega, referindo-se à Zona do Euro, principal tema do encontro de cúpula.

CartaCapital: Qual será a posição do governo brasileiro no G-20?
Guido Mantega: O G-20 vai se reunir sob a égide do agravamento da crise. Portanto, teremos uma responsabilidade maior, já que cabe ao G-20 encaminhar alguma saída. Isso evidentemente não será fácil porque cada vez mais os europeus conseguem aprofundar a crise, e não solucioná-la. Parece que eles não se dão conta do tamanho da encrenca que têm nas mãos. A estratégia que eles estão utilizando é insuficiente, equivocada, eles caminham na direção errada.

CC: De onde vêm as resistências para uma política acertada?
GM: As resistências vêm de alguns países, sendo o epicentro a Alemanha, que tem um pensamento conservador arraigado na política, nos dirigentes e na população. Desde o primeiro G-20 que fizemos a Alemanha sempre foi o polo mais conservador. Quando estourou a crise, fizemos um primeiro G-20 no final de 2008, em Washington. Depois tivemos uma reunião de ministros de Economia e, a partir de 2009, tivemos uma reunião em Londres, depois em Pittsburgh. Conseguimos chegar a um consenso no sentido de que era uma crise monumental que exigia uma ação coordenada de todos os países mediante estímulos econômicos. Então a prioridade clara era recuperar o nível de atividade e não deixar os bancos, no caso mais os norte-americanos, quebrar. Era preciso ter uma política monetária muito agressiva, o que foi feito pelo Fed americano. Ao mesmo tempo uma política de estímulo e recuperação dos países. Naquela época os bancos europeus tinham sido atingidos, mas ficaram na moita. As moitas escondiam os seus problemas, que eram até maiores do que os americanos. Embora os bancos americanos estivessem dentro do subprime, fossem os geradores daquele subprime, os bancos europeus estavam muito mais alavancados do que eles, coisa que veio se descobrindo mais recentemente. Os bancos europeus são duas e vezes e meia mais alavancados do que os americanos. Nos americanos, o volume de ativos financeiros que eles têm nas mãos é praticamente igual ao PIB dos EUA, 15 trilhões de dólares. No caso europeu, o volume é duas vezes e meia o PIB da Europa. O PIB da Europa é parecido com o PIB americano, portanto, eles são muito mais alanvacados, com 40 trilhões em ativos, contra 15 trilhões dos bancos americanos. Com a diferença de que nos EUA existe apenas uma autoridade monetária, que pode fazer aquilo que bem entendeu e foi muito agressiva. Na União Europeia são 17 autoridades que muitas não se entendem, em uma situação política muito mais complicada. O problema dos bancos espanhóis não é de 100 bilhões de dólares. Os ativos deles equivale a três vezes o PIB espanhol, de 1,5 trilhão de dólares e 3,5 trilhões de ativos, dos quais uma parte deles é comprometida. Ou seja, uma desconfiança em relação a esses bancos ou uma marcação a mercado do que realmente valem as suas carteiras seria fatal porque, no caso dos espanhóis, sabemos que existe todo um setor imobiliário, não é segredo para ninguém a esta altura, está em todos os jornais, as cajas estão todas comprometidas com um mercado imobiliário que é todo insolvente, algo como metade dos ativos delas são insolventes, então não é coisa pequena. Temos uma situação financeira grave.

CC: Essa situação tem a ver com a falta de regulação?
GM: Sim, nasceu na desregulação nos mercados e com a euforia financeira que ocorre na véspera de todas as crises. Os europeus viveram uma verdadeira euforia financeira, com crédito barato e abundante. Os bancos fizeram um volume grande de negócios, negócios tão irresponsáveis como aqueles dos bancos americanos, de pouca segurança. Os bancos europeus são responsáveis por 80% do crédito ao comércio mundial. Bancos de toda nacionalidade fizeram emissões de títulos em euros, inclusive alguns bancos brasileiros, que colocaram com facilidade eurobônus. A França também tem uma alavancagem de quatro vezes o PIB, que é de 2,5 trilhões de dólares, com 10 trilhões de ativos. Somam-se a fragilidade financeira com a econômica, causada por uma política de recuperação equivocada por ter se concentrado exclusivamente na consolidação fiscal, um ajuste fiscal draconiano imposto a todos os países com a redução do poder de compra das pessoas, dos trabalhadores, gerando um alto desemprego e, portanto, reduzindo os mercados. Então os mercados encolheram, a capacidade de consumo baixou e eles estão à beira da recessão. A União Europeia neste ano vai para 0,02% de crescimento, se tanto. Então ao combinar uma coisa com a outra, cai-se em um círculo vicioso, uma coisa agrava a outra. E já tem um problema que é como um iceberg: fica uma pontinha para fora e tem um baita iceberg lá embaixo. Se se deixa o iceberg quieto, tudo bem. O problema é quando ele emerge. Então existem bancos com dificuldades, aí começa a desconfiança, o pessoal começa a sacar ao mesmo tempo, têm os consumidores e os devedores que não tomam crédito ou não pagam as contas bancárias. Quando a atividade econômica cai, a inadimplência sobe, o que agrava ainda mais a situação dos bancos. Os bancos têm de ‘desalavancar’, diminuir empréstimos e financiamentos, e fica o círculo vicioso. Ao mesmo tempo, os Estados arrecadam menos com a atividade econômica em baixa. Portanto, em vez de diminuir a dívida em relação ao PIB, ela sobe. De 2007 a 2011, a dívida nos países europeus aumentou, só na Alemanha permaneceu mais ou menos estável. É, portanto, uma combinação de políticas equivocadas. No passado, de liberalização financeira, de liberalidade, emprestaram para a Grécia sem critérios. Esses bancos não podem se queixar, deveriam saber o risco que estavam correndo ao emprestar 350 bilhões de crédito para a Grécia. Ganharam dinheiro com isso também. E o problema da falta de dinamismo, que é a orientação dada principalmente pela Alemanha. Então estamos à beira de uma nova crise de grandes dimensões, que pode ser evitada caso haja medidas muito mais ousadas do que as tomadas até agora. Tanto no âmbito financeiro, porque agora a situação financeira tornou-se crucial, está pegando fogo, e temos necessidade de olhar qual seria o contágio que uma saída da Grécia, que poderá ocorrer agora, ocasionaria rebatendo na Itália, na própria Espanha e, na verdade, em todo mundo porque os bancos franceses não estão melhores. Eles estão quietos, na moita, mas se fizer um barulho sai todo mundo correndo da moita. Ali a situação não está boa para ninguém. Essa medida de 100 bilhões (para a Espanha), que no passado teria sido significativa, não resolveu nada, mesmo porque não dá para entender se é dívida espanhola ou se não é dívida. (Esse dinheiro) vai para o FROB (fundo estatal), mas o FROB é o quê? É uma entidade do governo espanhol. E 100 bilhões equivalem a 10% do PIB de déficit. E eles têm hoje 8,7% de déficit nominal. Então até agora não ficou claro onde os alemães querem colocar esse dinheiro, com que classificação contábil. Os espanhóis estão dizendo que é um empréstimo, mas perceba que não vem diretamente para os bancos, mas para esse organismo, que se for estatal representará dívida. Aí a situação fiscal da Espanha vai degringolar, fica insustentável.

CC: O que é preciso?
GM: É preciso uma grande mudança, que não sei se é possível, principalmente da Alemanha, que lidera a política que está posta em prática neste momento, no sentido de dizer que está na hora de dar estímulos econômicos. A Alemanha deveria ser uma força de tração da Europa. Claro que os países mais endividados estão com as mãos amarradas, alguns estão inclusive com as mãos e os pés amarrados, não têm o que fazer a não ser ajuste fiscal e economia. Mas esses países precisam ter algum estímulo que venha de fora, não têm como fazer. E há países que têm condições de dar esses estímulos, a Alemanha é o principal deles. Mas a Alemanha diminuiu as suas importações... porque a Alemanha vive de exportações, uma parte importante do PIB alemão é exportação para a própria União Europeia, então é hora de estimular o consumo interno para estimular a atividade econômica europeia. É preciso dar uma reviravolta. Já tive ocasião de dizer isso ao ministro das finanças alemão, dizendo que era preciso estimular o consumo. Os gregos não têm o que fazer, eles estão esperando alguma luz no fim do túnel, não dá para ficar só cortando despesas, isso não vai levar a lugar nenhum. É preciso diminuir o saldo em transações correntes da Alemanha, que é enorme, e fazer como a China está fazendo. A China está estimulando o seu mercado interno. Também na Ásia houve um desequilíbrio, só olhamos para a China e a Coreia, mas existe ali uma miríade de países exportadores para a China, uma derivada primeira da China para exportar para outros países, e existem países em que a exportação representa 80% do PIB, na Malásia, Indonésia, a exportação é tudo para eles. Aí de repente eles entram em colapso. A China, portanto, é fundamental. E a China está voltando a fazer esse papel. Ela passou por uma desaceleração inicial, em um processo semelhante ao brasileiro. Tivemos ambos uma pressão inflacionária no início de 2011, resultado de estímulos dados em 2009 e 2010, aí ambos fizemos uma política monetária contracionista, eles deram uma apertada no crédito, aliás, eles tinham inclusive bolha imobiliária. Aí o nível de atividade começou a desacelerar, perceberam isso e começaram a reverter a situação. Na semana passada, reduziram a taxa de juros, estão diminuindo compulsórios, flexibilizando as condições para as compras no mercado imobiliário, dando estímulos. E voltaram a fazer projetos de investimento, mesmo de aço e de outras coisas em que eles têm uma posição bastante grande. Com isso, já deram uma concertada, tanto que o nosso comércio bilateral com a China não foi afetado, o que é importante para os dois. Estamos praticamente na mesma sintonia, eles anunciando coisas lá, nós anunciamos coisas aqui.

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