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Telegramas mostram que EUA fecharam os olhos para massacre anunciado

por Agência Pública — publicado 13/04/2011 16h45, última modificação 15/04/2011 14h16
Informes sobre assassinatos de dissidentes iranianos por tropas do governo do Iraque revelam como americanos falharam na prevenção da morte de 19 pessoas
EUA fecharam os olhos para massacre anunciado

Informes sobre assassinatos de dissidentes iranianos por tropas do governo do Iraque revelam como americanos falharam na prevenção da morte de 19 pessoas. Da Agência Pública

Por Melanie Newman e Henry Richards, do Bureau of Investigative Journalism. Publicado em português pela Agência Pública.

Informes sobre assassinatos de dissidentes iranianos por tropas do governo do Iraque revelam como americanos falharam na prevenção da morte de 19 pessoas

The Mujahadeen e-Khalq (MEK), ou People’s Mujahedin of Iran (PMOI), um grupo de oposição iraniano, afirma que mais de 19 de seus membros foram assassinados na noite de sete de abril depois que tanques iraquianos invadiram a cidade de Ashraf, ao norte de Bagdá, onde a organização vivia exilada há décadas. O campo não é acessível aos jornalistas e as informações ainda não foram confirmadas.

A incursão acontece após um massacre anterior, ocorrido em julho de 2009, quando 11 residentes de Ashraf foram mortos e centenas foram feridos. Na época, o MEK divulgou fotografias na internet de cadáveres com ferimentos a bala e imagens de dissidentes sendo levados e atropelados por um Humvee em alta velocidade.

Telegramas da diplomacia estadunidense vazados pelo Wikileaks e obtidos pelo Bureau mostram que os oficiais dos Estados Unidos estavam cientes do potencial desastre humanitário antes dos assassinatos de 2009. Um general do exército dos EUA até alertou que suas tropas teriam a responsabilidade de intervir. O grupo estava desarmado, tendo baixado suas armas sete anos antes. No entanto, os telegramas revelam como o governo dos EUA falhou em agir por medo de romper o acordo de segurança com o Iraque sobre pessoas ainda classificadas como terroristas.

Num telegrama enviado em março de 2009, a chefe da missão Patricia Butenis disse: “O UGS (governo dos Estados Unidos) enfrenta um dilema desafiador: ou nós protegemos membros de uma organização terrorista internacional contra as ações das forças de segurança iraquianas, violando o acordo de segurança entre EUA e Iraque, ou negamos proteger o MEK no enfrentamento de uma crise humanitária, nos conduzindo, então, para uma condenação internacional”.

Após os assassinatos de julho de 2009, o Departamento de Estado dos Estados Unidos defendeu as ações das forças iraquianas como “razoáveis”. Um tribunal espanhol está, neste momento, investigando as mortes como potenciais crimes de guerra cometidos pelas forças iraquianas.

A responsabilidade por Ashraf e seus 3.400 residentes passou dos Estados Unidos para o Iraque em 2009 como parte da transferência geral de poder. Durante três meses, os oficiais dos Estados Unidos estavam prevendo uma crise humanitária em Ashraf, uma vez que as autoridades iraquianas, pressionadas pelo Irã, tentavam expulsar os dissidentes.

Em março de 2009, Butenis assinalou que “a pressão feita pelo GOI (governo do Iraque) ao MEK para que este saia do Iraque está começando a cruzar os limites rumo ao tratamento desumano”. Outro telegrama enviado em março gravou um aviso de um general dos EUA alertando que suas tropas teriam a responsabilidade de intervir em danos graves causados por qualquer incursão à cidade.

No começo de julho de 2009, o embaixador dos EUA Christopher Hill, substituto de Butenis, observou em um telegrama que a incursão iraquiana em Ashraf “provavelmente custaria vidas”.

Duas semanas depois, membros armados do exército iraquiano, juntamente com a polícia, pressionaram sua entrada na cidade depois que as negociações por um ingresso pacífico falharam. Sete dos onze homens que morreram no confronto possuíam ferimentos fatais a bala em seus corpos.

Em resposta às críticas internacionais de que as muitas centenas de tropas dos EUA baseadas nas proximidades falharam em intervir, o Departamento de Estado dos EUA disse: “A ação do governo iraquiano em Ashraf foi um ato razoável de sobrevivência e de manutenção de suas obrigações para manter a segurança em Ashraf”.

Os telegramas também confirmam o papel de Teerã nas ações do governo iraquiano contra o MEK. Eles continham numerosas reclamações do primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki sobre ameaças dos iranianos de atacar os campos usando mísseis de longo alcance ou insurgentes altamente treinados.

Um dos telegramas de Buteni, de março de 2009, mostra o conselheiro de Segurança Nacional Mowaffaq al-Rubaie justificando uma incursão em Ashraf â opinião pública afirmando que o Irã havia ameaçado atacar a cidade se seus ocupantes não fossem removidos no período de dois meses. Outros documentos mostram oficiais iraquianos acusando o MEK de atividades terroristas, o que pode não ser comprovado pelos EUA.

A Corte Nacional da Espanha está investigando as mortes de julho e convocou o chefe de polícia da província de Diyala, o major-general Abdul Hussein al-Shemmari, a comparecer para depor no dia 8 de março. O inquérito também examinará as condições atuais em Ashraf e as alegações do MEK de que as autoridades do Iraque estão impedindo o acesso a tratamento médico.

Mohammed Mohadessin, líder do braço político da MEK, o Conselho Nacional de Resistência do Irã, disse, em janeiro de 2011: “A situação em Ashraf continua muito instável. Para evitar outra catástrofe humanitária, os Estados Unidos e as Nações Unidas precisam se responsabilizar pela proteção do Campo Ashraf”. Ele acrescentou: “nós avisamos os oficiais dos EUA em inúmeras ocasiões que a transferência da proteção de Ashraf às autoridades iraquianas levaria a uma catástrofe humanitária”.

Para as autoridades estadunidenses no Iraque, a situação se complicou pela presença do MEK na lista de organizações terroristas estrangeiras, apesar do desarmamento voluntário do grupo em 2003. O MEK foi removido de lista semelhante da União Europeia em janeiro de 2009.

Publicado originalmente no The Bureau of Investigative Journalism, em inglês.

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