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Tartufagens criminosas

por Paolo Manzo — publicado 26/09/2010 15h15, última modificação 27/09/2010 15h15
Giulio Andreotti faz mais uma das suas e ofende os cidadãos italianos honrados

Giulio Andreotti faz mais uma das suas e ofende os cidadãos honrados

Um dos maiores tartufos do século passado, Giulio Andreotti poderia ter sido inventado por Molière. Trata-se, porém, de personagem real. Senador vitalício da República italiana aos 91 anos, sete vezes primeiro-ministro, democrata-cristão desde o imediato pós-Guerra, autor de livros assinados “anônimo” de escrita esbelta e irônica, consumidor de hóstias sagradas em quantidades industriais, envolvido em alguns dos mais clamorosos escândalos ocorridos na Península nos últimos 40 anos, contado no filme Il Divo do diretor Paolo Sorrentino, premiado pelo júri de Cannes em 2008.

Uma frase sua, pronunciada em um programa da televisão estatal na semana passada, ofendeu gravemente os cidadãos honrados. O tema era o assassínio do advogado Giorgio Ambrosoli. Milanês, 46 anos, especialista em liquidações administrativas, abatido dia 11 de julho de 1979 a tiros por um killer convocado para a tarefa pelo banqueiro siciliano Michele Sindona, cujas atividades ilícitas o advogado investigava por conta do Banco da Itália.

Perguntado sobre as razões do assas-sínio, Andreotti, que foi julgado há seis anos por associação mafiosa e escapou da condenação inevitável por ter o crime caído em prescrição, responde: “Difícil dizer, claro que se trata de alguém che se l’andava cercando”. Algo assim como “alguém que procurava sarna para se coçar”.

Imediatas as reações da sociedade civil. Começando por Umberto, filho do advogado assassinado e também ele advogado: “O episódio comenta-se por si mesmo, evidencia uma forma de raciocinar que coloca em primeiro lugar o interesse pessoal. Este é exatamente o oposto daquele que foi o exemplo de vida de meu pai”.

Esqueletos saíram do armário. Vejamos quem é quem nessa história e, principalmente, quem fez o quê. O banqueiro Michele Sindona, com comprovadas relações com o clã mafioso dos Gambino, no decorrer dos anos 70, transformou-se no mago criminoso das finanças italianas. Entre suas operações mais sujas, a transferência, por meio de cadernetas ao portador, de 2 bilhões de liras para as caixas da Democracia Cristã, partido do qual Andreotti foi um dos principais expoentes. Andreotti sempre teve grande estima por Sindona e ainda recentemente o definiu como “o salvador da lira”.

Em 1971, o Banco da Itália iniciou uma investigação sobre as atividades do banqueiro, na tentativa de não deixar falir os institutos de crédito por ele geridos, e aqueles envolvidos nas suas atividades criminosas, como o Banco Ambrosiano. O que emergiu da operação em 1974 levou o Banco da Itália a nomear um comissário para cuidar da liquidação. Para a tarefa foi escolhido o advogado Giorgio Ambrosoli, e este descobriu sem maiores dificuldades gravíssimas irregularidades.- A partir desse momento, Ambrosoli foi pesadamente pressionado por parte de lideranças da DC e pela loja maçônica golpista P2, até seu assassínio em 1979.

Em 1986, Sindona foi condenado à prisão perpétua por ser o mandante do homicídio, executado por um profissional americano chamado dos Estados Unidos. No decorrer das investigações verificou-se que Sindona era militante da P2, mantinha contatos com o Vaticano e com o Instituto de Obras Religiosas (IOR) e, principalmente, com a Máfia siciliana e americana. O banqueiro morreria em 1986 na cadeia, envenenado pelo cianureto despejado no cafezinho, não se sabe, ainda hoje, a mando de quem.

O jornalista e professor universitário Sergio Turone lançou a suposição de que foi Andreotti mesmo a fazer chegar o envelope com o açúcar contendo o veneno fatal. Segundo Turone, o motivo do homicídio teria sido o receio de que Sindona revelasse no transcorrer do recurso ao processo, segredos relacionados com a DC, Cosa Nostra e P2. Chega-se por esse caminho a Giulio Andreotti: desde sempre suspeito de envolvimento com a máfia, no processo de 2004 foi reconhecido réu de “concreta colaboração” com a Cosa Nostra até 1980. Salvou-se graças à prescrição do crime. Seu currículo é impressionante. Secretário do primeiro premier da República italiana, Alcide De Gasperi, em 1946 foi eleito para a Assembleia Constituinte e, em 1948 para a Câmara dos Deputados. A sua habilidade em manobrar a política o tornou protagonista de enredos muito comentados. Por exemplo: ao se apresentar para um comício eleitoral em um pequeno lugarejo próximo de Roma conhecido pela produção de alcachofras, Andreotti começou perguntando se os presentes preferiam falar de civilização cristã ou de alcachofras. Obviamente falou-se somente destas e Andreotti foi eleito triunfalmente.

Indro Montanelli, grande jornalista e escritor, disse que “quando iam à igreja juntos, De Gasperi falava com Deus, Andreotti com o padre”. A corrente DC de Andreotti, católico praticante, sempre contou com apoio irrestrito do Vaticano e do embaixador dos EUA.

Foi em 1972, que Andreotti se torna premier pela primeira vez. Teórico da firmeza com os terroristas no sequestro em 1978 de Aldo Moro, que então tecia uma fórmula de governo destinada a incluir o Partido Comunista, nunca foi perdoado pela esposa e pelos filhos do líder assassinado pelas Brigadas Vermelhas. Vale acentuar que os EUA viam com péssimos olhos as negociações entre Moro e Enrico Berlinguer, líder do PCI. Há também quem observe que com a morte de Moro, Andreotti ganhou ainda mais espaço dentro do seu partido.

O primeiro a referir-se a uma “entidade” política misteriosa conluiada com a máfia foi Tommaso Buscetta em 1984 em deposição a Giovanni Falcone, grande protagonista da luta contra a máfia. Quem revelou que os capi consideravam Andreotti “santo no paraíso” a ponto de chamá-lo “tio” foi o colaborador de Justiça Leonardo Mes-sina. O qual sublinhava-lhe a condição de “punciutu”, ou seja, afilhado da Cosa Nostra pelo ritual de um pacto de sangue.

Depois do assassínio de Falcone, Buscetta se dispôs a revelar o nome da “entidade”. E quem mais senão o nosso herói? Em seguida, todos os mais importantes colaboradores de Justiça confessaram relações e acordos com o senador. Francesco Marino Mannoia e Balduccio Di Maggio são também testemunhas oculares dos encontros de Andreotti com os chefões Bontate e Riina. Este, ele homenageou com um beijo em perfeito estilo mafioso.

Andreotti teria também encomendado em 1979 o assassínio do jornalista Mino Pecorelli, que lhe seguia as pegadas. Foi condenado na primeira e na segunda instâncias, absolvido em definitivo pela Cassazione, o Supremo da Itália, então presidido por seu grande amigo Corrado Carnevale, o juiz que passou à história com o apelido de ammazza-sentenze, mata-sentenças, e por inúmeros favores prestados à Máfia. •

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