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Tarcisio Bertone, o "papa interino"

por Gabriel Bonis publicado 11/03/2013 08h11, última modificação 11/03/2013 10h41
Homem de confiança de Bento XVI, polêmico cardeal comandará a Santa Sé, mas sem poderes para grandes mudanças

Oficialmente, Bento XVI não comanda mais a Santa Sé. Abandonou também os mocassins vermelhos, embora mantenha o nome de pontífice e diga que será obediente ao seu sucessor, ainda a ser escolhido. Enquanto isso não ocorre, as responsabilidades de chefiar o Vaticano ficam a cargo do polêmico cardeal Tarcisio Bertone, que será o “papa interino” até o conclave escolher o próximo comandante da Igreja Católica.

O italiano, de 78 anos, é secretário de Estado do Vaticano e número dois da pequena monarquia absolutista. Desde 2007, também acumula o cargo de camerlengo, uma função que ganha importância apenas com a morte ou renúncia de um papa. É este cargo que permitirá a Bertone cuidar do Estado com a ajuda de três cardeais até o fim do conclave.

Seus poderes, porém, serão limitados. “Ele cuidará de algumas coisas de ordem prática que o papa faria, mas não pode mudar nada na linha de governo da Igreja", explica Valeriano dos Santos Costa, diretor da faculdade de Teologia da PUC-SP. "Exerce funções para preservar as questões urgentes e de patrimônio do Vaticano.”

Durante a transição, cabe a Bertone administrar os bens da Santa Sé porque todos os demais cardeais renunciam aos seus postos. O italiano também deve organizar as acomodações daqueles que participarão do conclave. “O camerlengo governa a igreja apenas em assuntos ordinários que não podem esperar a eleição do novo pontífice”, diz Boris Nef Ulloa, um dos coordenadores do curso de Teologia da PUC-SP.

Neste cargo, Bertone não terá como exercer grande influência sobre os cardeais do conclave, que desperta grande interesse mundial. O gabinete de imprensa do Vaticano já recebeu mais de 3,6 mil pedidos de credenciamento de 61 países para cobrir a eleição do sucessor de Bento XVI. “Ele não terá influência no voto de outros cardeais porque não comanda o processo de escolha do novo papa. Quem faz isso é o cardeal decano”, diz Costa. O cargo ficará com o também italiano Giovanni Battista Re, de 79 anos, o mais velho entre os votantes (aqueles com menos de 80 anos).

    

Homem de confiança de Bento XVI, Bertone nunca foi unanimidade na Santa Sé. Desde sua nomeação a secretário de Estado, em 2006, sofre oposição, especialmente do cardeal Angelo Sodano, que ocupou o cargo no pontificado de João Paulo II. Sodano se opôs abertamente à nomeação e, por meses, se negou a liberar o escritório oficial para o seu sucessor. Bertone deu o troco ao assumir as funções executivas do Vaticano. Ele expurgou aliados de Sodano para o exterior ou os colocou em cargos de menor importância.

A nomeação também lhe rendeu outros inimigos, pois diplomatas mais experientes esperavam ganhar uma chance na secretaria. Em meio a isso, Bertone foi taxado de incompetente como administrador e na forma de lidar com casos que feriram a imagem de Bento XVI, como tensões com líderes muçulmanos em 2006.

Outras razões para a discordância apontada por opositores é que o cardeal não fala inglês ou francês, excede o limite de seus poderes e não soube responder de maneira adequada ao vazamento na mídia de documentos secretos do Vaticano. O caso, um dos maiores escândalos recentes da Igreja Católica, foi apelidado de Vatileaks.

Os papeis revelaram um cenário de intrigas no interior da Igreja, lutas por poder, nepotismo de representantes da Santa Sé e do Estado em contratos, casos de corrupção e críticas a Bertone e à diretoria do Banco do Vaticano, escolhida por ele. Vazaram também cartas do papa, que deram origem ao livro As Cartas Secretas de Bento XVI, do jornalista Gianluigi Nuzzi.

Alguns analistas acreditam que o vazamento foi uma iniciativa contra a administração de Bertone, iniciando uma batalha pela sucessão de Bento XVI. À época, o secretário de Estado definiu o episódio como “ataques organizados, ferozes e dilacerantes” contra o papa, mas negou uma divisão na Igreja.

Quem comandou o esquema ainda é um mistério. Apenas o mordomo do papa, Paolo Gabriele, admitiu ter vazado as cartas do pontífice. Foi condenado a 18 meses de prisão, mas acabou perdoado e solto.

O Banco do Vaticano

A revelação de documentos secretos colocou Bertone em posição delicada e mostrou raízes de corrupção no Banco do Vaticano. O jornal La Repubblica afirma que Bertone boicotou diversas vezes uma reestruturação da instituição, inundada pela lavagem de dinheiro. Ele também teria blindado o banco com aliados na cúpula.

Na entidade financeira, apenas religiosos, institutos religiosos e cidadãos do Vaticano podem manter uma conta. Por outro lado, qualquer um com a autorização do correntista pode operá-la, o que virou um disfarce para máfias e outras atividades ilegais.

Segundo o jornal, os segredos dentro do banco eram tantos que nem mesmo o ex-presidente Ettore Gotti Tedeschi tinha acesso à identidade dos correntistas. O executivo queria mais transparência a fim de cumprir regras básicas da União Europeia contra lavagem de dinheiro, mas acabou demitido sumariamente em maio.

Destino parecido teve o arcebispo italiano Carlo Maria Viganò que enviou cartas ao papa em janeiro de 2012 queixando-se da corrupção no alta cúpula do Vaticano. Pela acusação, ou Bertone estava corrompido ou teria fechado os olhos para uma série de casos graves. Viganò foi vice-governador do Vaticano entre 2009 e 2011, quando tentou acabar com a corrupção. Ao levar a carta ao papa, no entanto, acabou nomeado por por Bertone núncio apostólico nos Estados Unidos, um posto bem distante do Vaticano.

Em 2010, Bertone também criou polêmica ao associar a homossexualidade à pedofilia. "Numerosos psicólogos e psiquiatras demonstraram que não havia relação entre o celibato e pedofilia, mas muitos outros demonstraram, e disseram-me recentemente, que existe uma relação entre homossexualidade e pedofilia". A fala provocou a ira de organizações homossexuais.

Trajetórias

Nascido em 2 de dezembro de 1934, em Romano Canavese, Bertone foi ordenado em 1960, aos 26 anos de idade. É arcebispo emérito de Gênova, teólogo com dissertação em tolerância e liberdade religiosa, além de doutor em lei canônica. Em 2003, foi proclamado cardeal por João Paulo II.

Foi desde professor universitário a comentarista esportivo. Queria inclusive montar um time de futebol do Vaticano capaz de jogar o campeonato italiano. Teve que se contentar com uma equipe amadora composta por guardas do Vaticano e seminaristas.

O apoio recebido de Bento XVI vem de anos, quando colaborou com o papa como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Mas a confiança do ex-pontífice ao cardeal teria sido abalada com o escândalo do Vatileaks, a luta por poder na Igreja e também quando Bertone quis obter mais poder em um importante instituto de Milão. O papa foi contra.

Em uma das últimas cerimônias como pontífice, Bento XVI recusou um abraço e um beija-mão do cardeal, em um gesto visto como uma mensagem de perda de apoio. Mas esse ponto de vista é contestado por teólogos. “Ele tinha a confiança do papa Bento XVI a ponto de acumular os cargos de camerlengo e secretário de Estado, que normalmente não ficam com mesma pessoa”, diz Costa. E Ulloa completa: “O papa disse publicamente depositar nele toda a confiança. Esse gesto de não abraçar não significa perda de apoio, pois o papa é alemão e tem uma formação cultural diferente dos latinos. Não abraça com frequência".

Com informações AFP.

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