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Internacional

Abismo fiscal

Tapando um abismo com uma moeda

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 07/01/2013 17h09, última modificação 07/01/2013 17h09
Economistas e analistas dos EUA começam a levar a sério a proposta de cunhar uma moeda de um ou dois trilhões de dólares
moeda

Quem sabe se com a cara de Reagan os republicanos aceitariam melhor a moeda de um trilhão de dólares?

Parece coisa de gibi do Tio Patinhas – talvez um plano mirabolante para esconder sua fortuna dos Irmãos Metralha ou poupar o custo de construir uma segunda caixa-forte – mas economistas e analistas dos EUA começam a levar a sério a proposta de cunhar uma moeda de um trilhão ou dois trilhões de dólares como solução para o problema do “abismo fiscal”. O primeiro a fazer a proposta a sério, na virada do ano, foi o deputado democrata Jerrold Nadler, de Nova York. O prêmio Nobel de economia Paul Krugman a apoiou em seu blog e a economista Stephanie Kelton, editora de New Economic Perspectives, criou no Twitter a hashtag #mintthecoin para apoiá-la, multiplicada por especialistas da área econômica e financeira, incluindo os analistas Joe Wiesenthal e Henry Blodget, de Business Insider.

Como sabe quem acompanha o noticiário político e econômico dos EUA, a intransigência do Partido Republicano, majoritário na Câmara, bloqueia as negociações de uma solução para a crise enquanto não forem atendidos em sua exigência de corte radical e imediato de despesas do governo federal, incluindo programas que proporcionam assistência social, saúde e alimentos para os cidadãos pobres. Ameaçam negar autorização para elevar o teto (já alcançado) da dívida pública ou aumentar impostos, deixando o país na iminência de declarar moratória ou paralisar atividades governamentais.

Para Blodget, isso é irresponsável, equivale a manter o país inteiro como refém e pode ser chamado de “terrorismo econômico doméstico”. Contra essa tática ultrajante e ridícula, julga digna de consideração a tática igualmente ultrajante e ridícula de cunhar a tal moeda, embora julgasse mais digno e sensato que o presidente Barack Obama peitasse a oposição e autorizasse o Tesouro a honrar seus compromissos por meio de uma ordem executiva, apesar de que isso levaria a uma batalha legal na Suprema Corte.

A questão é que a lei dos EUA não permite que o governo federal pague suas dívidas simplesmente imprimindo dinheiro. Este precisa ser criado pelo Fed (Banco Central dos EUA) que o põe em circulação comprando dívida federal, mas esta não pode ser aumentada sem autorização do Congresso. Descobriu-se, porém, uma brecha legal: uma lei de 1997 (ironicamente proposta por um deputado republicano, Michael Castle), permite ao secretário do Tesouro (atualmente, Tim Geithner), cunhar moedas de platina na quantidade e valor que bem entender. A intenção era autorizar a emissão de moedas comemorativas para colecionadores e investidores, mas nada na letra da lei impede que o Tesouro cunhe em platina uma moeda com o valor nominal de dois trilhões de dólares, pague com ela parte da dívida nominal com o Fed e mande os líderes do Partido Republicano conversar com suas gentis genitoras.

Por maior que seja, a moeda obviamente não teria um valor intrínseco de dois trilhões de dólares: isso significaria quarenta mil toneladas de platina, ou sete vezes a quantidade desse metal minerada em todo o mundo desde sua descoberta em meados do século XVIII. É apenas uma maneira de contornar a proibição de imprimir cédulas ou bônus do mesmo valor. Claro que se fosse cunhada de fato, ela se tornaria o sonho de consumo de todo colecionador de moedas, mas dificilmente chegará às mãos de qualquer deles. Nos EUA, notas e moedas nunca são desmonetizadas, de modo que ela teria de permanecer no Fed ou ser derretida.

Alternativamente, também seria possível lançar mão de outra lei, de 2010 (de autoria do também deputado republicano Denny Rehberg), que autoriza o Tesouro a cunhar moedas de paládio de 25 dólares em qualquer quantidade. Por que não 80 bilhões delas? O problema, nesse caso, é que o paládio é tão raro quanto a platina – menos de 5 mil toneladas dele foram mineradas em todo o mundo – de modo que as moedas teriam de ser microscópicas, coisa de um miligrama ou menos.

Um deputado republicano, Greg Walden, anunciou que vai propor um projeto de lei para tentar tapar a brecha, mas é improvável que se chegue a tentar pôr em prática qualquer dessas soluções. O mais razoável é que sejam usadas como advertência aos republicanos de que, caso continuem a se portar como crianças, eles poderão ser driblados de maneira igualmente infantil. Caso contrário, será preciso concluir que, embora o mundo não tenha acabado em 2012, em algum momento ele inexplicavelmente se converteu em uma história em quadrinhos.

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