
Elogios após o anúncio da aposentadoria do executivo fazem dele quase um Moisés do mundo moderno, com os gadgets no lugar dos mandamentos
Quando a notícia da aposentadoria de Steve Jobs percorreu a internet no fim da tarde da última terça-feira (24), faltou pouco para muitos applemaníacos estragarem seus ipads ao derramar-lhes as mais sentidas lágrimas. Steve Jobs, atualmente o mais cultuado homem de negócios do planeta, deixou o cargo de CEO da Apple para cuidar de sua saúde – aos 56 anos, sofre de um tipo raro de câncer de pâncreas e já passou por transplante de fígado.
Boa parte dos grandes portais do Brasil e do mundo trataram a aposentadoria de Jobs nas principais manchetes, o mesmo espaço que seria usado em caso de morte de presidentes de países importantes. A idolatria ao chefão da Apple também é endossada por comentaristas de tecnologia. Um importante (e, normalmente, acima da média) articulista do ramo declarou em seu blog que “Steve Jobs é o John Lennon” de nossa geração. Mais que exagerada, compare-se abacaxi com galinha.
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Houve também quem dissesse que a aposentadoria é mais uma chance para Steve Jobs “se mostrar genial”, num caso clássico de tietagem mais próximo de fãs clubes do que de imprensa especializada. Outra frase pinçada: “Ao renunciar ao cargo, ele (Jobs) deu apenas uma demonstração de lucidez” e que a aposentadoria “traria nova dimensão à sua genialidade”. Lucidez em relação a quê é impossível entender, uma vez que o guru deixou o cargo exclusivamente por conta dos graves problemas de saúde pelos quais enfrenta.
Jobs é, de fato, um cara muito talentoso e isso não se discute. Ele fundou a Apple em 1976 e foi um dos responsáveis por diminuir o tamanho dos microcomputadores, fato que permitiu a invasão deste aparelho pelo mundo corporativo ainda nos anos 1970 e, a partir da década seguinte, as casas dos Estados Unidos e do mundo. A Apple quase faliu quando ele deixou a empresa, mas, com sua volta já nos anos 1990, ela se tornou referência com os Macintosh e, na última década, com os ipods, iphones e ipads. Hoje as marcas de aparelhos eletrônicos seguem sempre a tendência lançada pela Apple.
E esses não são os únicos fatores que fazem o ex-CEO ser retratado como uma espécie de Moisés do mundo corporativo, com seus gadgets no lugar dos mandamentos. Ele é bom no gogó e fez apresentações muito empolgadas no lançamento de seus produtos. Usa sempre as mesmas roupas pretas e tênis simples, vendendo uma imagem limpa e cool de si, a mesma que dá aos seus aparelhos.
O problema é que o gênio high tech também tem feitos discutíveis, o que foi amenizado (ou esquecido) nas epígrafes sobre sua carreira.
O primeiro é que, apesar da qualidade dos aparelhos que produz, a Apple vai exatamente de encontro às tendências open source da tecnologia atual. É como se você comprasse um carro de uma marca e fosse obrigado a comprar todos os equipamentos dele como bancos, rádio, pneus e combustível exclusivamente fabricados pela mesma marca. E só conseguisse comprar estes equipamentos nas lojas da fabricante do carro. A Apple é assim. Enquanto várias empresas concorrentes usam sistemas que, em parte, podem ser modificados e aprimorados por usuários, a Apple é totalizadora das tecnologias e dos direitos em usar seus sistema.
Os beatos de Steve Jobs também não falam que sua empresa mantém parceria com a fábrica taiwanesa Foxconn, terceirizada que produz os componentes da Apple. A Foxxconn virou notícia mundial por conta dos altos índices de suicídio entre funcionários no ano passado. Entre janeiro e maio de 2010, 16 empregados da fábrica tiraram a própria vida, a maioria dos quais se atirando do alto da sede da empresa. Como boa parte das fábricas da China e de Taiwan, a Foxxconn, segundo amplamente veiculado pela imprensa, tem uma gestão considerada militarizada, na qual os funcionários da linha de produção trabalham demais e ganham pouco, normalmente em condições aviltantes de trabalho. A Apple, assim como Dell, Nokia e Sony, que também terceirizam a produção com a Foxxcom, seleciona muito imprudentemente as empresas com as quais trabalha.
Parece que, de alguma forma, Steve Jobs tem outro mérito indiscutível: sua capacidade de fazer com que analistas de tecnologia se transformem em fãs e releguem a segundo (ou nenhum) plano os temas polêmicos de sua carreira. Talvez nem John Lennon tenha alcançado tal feito.
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A concorrência tem o seu lado bom e seu lado predatório. Coisas como a Foxconn são o lado predatório da concorrência, a alienação de seu objetivo e deve ser combatida.
A tecnologia é um fato concreto. Hoje uma granja produz um milhão de ovos por dia, o que tira muto gente da fome, pois cada unidade é accessível a qualquer pobre. E por aí vai.
A ideologia e a religião, que são a mesma coisa, uma abstração. Produtos da mente humana, com suas fantasias de mundos perfeitos e promessas de justiça, têm como fim escravizar as massas, para deleite de seus mentores, que só pensam numa coisa: o poder e seus privilégios.
Diz que estão comparando abacaxi com galinha e depois escreve isso:
“… a Apple vai exatamente de encontro às tendências open source da tecnologia atual. É como se você comprasse um carro de uma marca e fosse obrigado a comprar todos os equipamentos dele como bancos, rádio, pneus e combustível exclusivamente fabricados pela mesma marca. E só conseguisse comprar estes equipamentos nas lojas da fabricante do carro.”
Comparação ridícula.
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Na foto que vocês publicaram Steve Jobs está com um típico “sorriso Roberto Carlos”. Rir pela força do hábito ou por obrigação profissional deve ser realmente deprimente. Um ser humano normal não ri por obrigação, não sorri desta maneira. Well… mas quem pode dizer que o Jobs e o Robertão são normais?
A aposentadoria do mago da Aplle certamente vai deixar os iPadiotas muito tristes. Em razão da natureza quase religiosa da relação que eles tem com os produtos Aplle/Jobs, suponho que muitos iPadiotas ficarão esperando o retorno triunfal de Steve Jobs como os fervorosos cristãos esperam o retorno de Cristo há 2.000 anos.
E se o Jobs não voltar? Well… no tempo certo alguém conseguirá substituir a Aplle criando produtos moderninhos, legalzinhos, carinhos e igualmente disputadinhos pelos consumistas compulsivos.
A grande “virada” da Apple só se deu quando o Sr. Jobs retornou à empresa e, após constatar que os números de suas vendas não melhoravam, passaram a utilizar os processadores Intel (antes, usaram Motorola e IBM Power PC). O sistema da apple é um “unix like”, o BSD. Apesar disso, o Sr. Steve passou a processar os concorrentes por “quebra de patentes” (até o formato de retângulo do iPhone ele quer ficar com o mérito… daqui a pouco, vai dizer que a roda foi uma invenção sua). Isso é uma tática mafiosa, vergonhosa que nada tem de tecnológico. É a mesma e velha arrogância americana de sempre. Para os americanos, o avião não foi inventado por Santos Dumont, lembrem-se disso e não fiquem incensando um Pirata, em sua correta concepção.
Realmente, vamos idolatrar apenas o Lula e dizer que tudo que ele fala é fantástico.
Em 1976 quando ingressei na Faculdade de Engenharia, um professor de Programa Fortram disse no Centro de Processamento de Dados da UFBA (olhe só os nomes) que um dia teríamos computadores domésticos, isto para nossos entre-olhares irônicos. E não é que aconteceu; na minha casa de cinco pessoas tem três computadores de mesa e quatro notebooks. Fora a tralha de apetrechos eletro-eletrônicos. Mas não estou feliz.
O mundo está mais ruim, mais violento, mais injusto, mais solitário. Esse modelo de vida é perverso. Não sou fã do Jobs, nem dos que o promovem.
O mais engraçado do comentário do leitor “Mauro Julio Vieira” é que, além da tremenda confusão que ele fez entre história, tecnologia e política, transformou a tecnologia em uma ideologia, justamente o contrário do que pretendia!!!
Cada um que aparece.
“Tecnologia” por sí só diz pouco Mauro, que beneficios à humanidade tecnologias como as contidas no AK47 e na bomba atomica trouxeram? Falando em bomba atomica, apesar da Coreia do Norte tentar obsessivamente desenvolve-la, aqueles que não só a desenvolveram como a utilizaram em cima de populações civis foram os compatriotas do Jobs…Nada contra o avanço tecnologico, muito pelo contrario, mas a ferramenta não é nada sem o seu operador. Alias quem combate a ideia do “open source” não esta exatamente colaborando com a revolução digital não é mesmo? Agora, que o design da Aple é uma beleza…isso eu não discuto…
Um fato é claro, Steve Jobs e outros de sua especialidade fizeram uma das maiores revoluções da História. Revolução do bem, diga se de passagem e não como essas revoluções políticas, calcadas em ideologias , que pregam o “bem”, mas na prática, só causaram mal à humanidade. O Homem não é conservador, se o fosse não teria inventado a roda.
Enfim, a tecnologia realmente traz benefícios às pessoas, ao contrário das ideologias e religiões, com seus mundos perfeitos, cujo fim é escravizar as massas, como já se viu no século passado e ainda hoje em Cuba e Coréia do Norte.
Com as tecnologias, a qualidade de vida no planeta tem dado saltos gigantescos, e cada vez mais contradiz aqueles que profetizam o fim do mundo.
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Se houve alguma grande contribuição de Jobs para o mundo foi no marketing, criando uma verdadeira seita de adoradores da apple. Não há como fechar os olhos as diversas contribuições da companhia ao mundo da tecnologia, principalmente o avanço na qualidade da experiência dos usuários com pouco conhecimento com seus aparelhos. Contudo, sua forma de fazer negócio me faz lembrar aquele alemão de bigodinho ou o ratinho “Cérebro”, seja pela sua associação com empresas que produzem seus aparelhos, que mantém empregados em regime de semi-escravidão, seja por ter engessado a industria fonográfica e agora está tentando fazer o mesmo com as editoras. Dominar hardware, software, todo entretenimento… Dominar o mundo?
o mundo seria bem melhor se existissem muitos Lennons e poucos Jobs.
ou seja: muito mais poesia que tecnologia.
marcia barbosa, quem fez a confusão não foi o autor desse texto mas sãoa s pessoas em geral. Realmente comparar John Lennon com Jobs não é racional. Mas você também se equivocou quando compara poesia com tecnologia, duas coisas bem diferentes, porém que se completam. A tecnologia é uma ferramenta, já a poesia é ideia, o recheio. O que você faria com a tecnologia se não existissem também outras coisas como o conhecimento? Realmente nos dias de hoje não vivemos sem tecnologia, mas concordo que não podemos criar ídolos como Jobs que é um criador de tecnologia e de tendencias também. Nossos ídolos estão virando empresários.
Apesar de estar escrevendo de um Mac agora eu prefiro pc. Alem de ser muito mais barato tambem tem mais versatilidade em termos de perifericos, softwares, etc…alem disso como diz o texto os “macqueiros” são quase como fanaticos religiosos, acho engraçado ver como as pessoas babam por pequenos objetos de plastico com um chip dentro que serão obsoletos em menos de 2 anos…alis meu Mac aqui trava direto…
Que confusão. Jobs não é respeitado por ter criado algo humanitário ou democrático. Aliás, idolatrar pessoas hippescas é coisa dos 60. Ele teve algumas idéias bem interessantes, inclusive construir um hardware pensado em conjunto com o software. Nem os usuários linux como eu negam o belo acabamento dos equipamentos apple e o fato de ser o software ideal para “analfabiticos”.
Como pode uma pessoa envolvida com tecnologia ser comparada com alguém do ramo artístico ou humanístico? Comparar Jobs com John Lennon? Que ousadia!
Vivemos em um mundo high tech. A nossa vida depende mais de tecnologia do que de poesia. Quem duvidar tente passar um mês sem usar nada que envolva computador. Não vai poder tirar dinheiro de banco, usar metrô, comprar em supermercado …. Bem, eu consigo passar um mês sem ouver John Lennon.
Fernando, nao acho o Steve Jobs assim tao grande, mas nao ponho em duvida a diferenca na qualidade entre os produtos da Apple e suas concorrentes. Tive produtos HP, Dell e outras marcas e nada se quer chega proximo da Apple. Todavia, acho interessante voce falar da situacao dos empregados dos fornecedores da Apple. Isso nao e um problema apenas da Apple, mas do sistema de producao mudial, nao apenas computadores, mas tambem roupas, comida e tantas outras coisas. E o tal modelo globalizado que soh enqriquecem alguns poucos bolsos e dissemina miseria pelo planeta.
Sabia que geeks com a sua idolatria pelas lista infidáveis de novos recursos, pela engenharia longe do contato humano escreveriam o que estou a ler nessas linhas e nesses comentarios. O grande feito do Steven Jobs e que falta a capacidade de análise de vocês, é justamente democratizar a tecnologia. Toda essa conversa de open source, de sistemas não fechados, só servem pra quem os quer vender. Desculpa, mas o Linux faz hoje 20 anos e eu nao conheço ninguem que abra um computador e saiba instalá-lo. O conceito do open source é muito bom, não me entendam mal, mas não lida com a interface com o usuario. Assim mesmo o posso dizer sobre smartphones e internet ao telefone, se vocês já esqueceram, esses já existiam antes do iphone. O que o Jobs conseguiu foi obrigar as operadoras à oferecer planos de conexão ilimitados e transformar a interface daqueles tijolos da nokia usando o instrumento humano mais elementar: um dedo. Infelizmente, pessoas que não tem medo de errar são rarissimas.
Excelente matéria… Esse dogmatismo empresarial esta com os “anos contados”…….
Perfeito, Fernando. Sempre que leio essas notícias idolatrando o sr. Jobs, me ocorrem exatamento os argumentos que você acima expõe. O sujeito é um grande vendedor, sim, com faro para ‘inventar’ necessidades aos usuários de gadgets. Gênio, nessa empresa dele, é o cara que desenha tais aparelhos, tornando-os agradáveis aos olhos e à manipulação. Naquilo que cabe ao sr. Jobs, a venda, o que se tem é um verdadeiro feudo estabelecido dentro da Internet, negando tudo aquilo que a rede mundial deve ser e será. Que tenha boa saúde, o sr. Jobs, e que nesse período de recolhimento reflita sobre os males que está causando à democracia planetária. Afinal, de dinheiro ele não precisa mais.
27.04.2012
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