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Sobreviventes do extermínio

por Redação Carta Capital — publicado 02/05/2012 11h36, última modificação 16/05/2012 16h12
As histórias de Baran e Weysi, sobreviventes curdos que buscaram refúgio na África do Sul e hoje lutam pela libertação de seu povo
vilarejo Baran Kalay

Amigos e familiares no vilarejo onde vivia Baran Kalay

 

Por Gleyma Lima e Polyanna Rocha

 

“A sétima vez que fui preso foi a mais cruel: fui torturado durante um ano com choque elétrico, fiquei inúmeros dias amarrado no teto e os soldados ameaçavam estuprar minha mãe e irmã na minha frente caso eu não fornecesse dados suficientes”, relembra Weysi Ciyayi, 29 anos.

“Fui preso duas vezes e torturado com choque elétrico durante três meses na prisão. Desde que nasci usurparam o direito dos meus pais de escolherem meu nome, definirem a escola onde eu deveria estudar e não pude conviver com meus pais até a fase adulta. Os encontros com eles eram raros e passei por um processo de lavagem cerebral para esquecer toda minha cultura”, conta Baran Kalay, 45 anos.

Relatos e cenas desse tipo ainda são comuns entre os milhões de curdos espalhados por países como Síria, Turquia, Irã e Iraque. A importância geopolítica do Curdistão, combinada com recursos abundantes de óleo e água, é uma espécie de barreira aos curdos na luta para o estabelecimento de uma nação independente, na porção asiática da Turquia. Os problemas enfrentados nesses países só variam em natureza e intensidade, mas há aspectos comuns nessa área em constante ebulição.

Os caminhos de Weysi e Baran se cruzaram na África do Sul, embora suas trajetórias sejam distintas. Ambos são oriundos da Turquia e pertencem ao  KHRAG (Kurdish Human Rights Action Group), uma organização sem fins lucrativos, situada na Cidade do Cabo, que luta pelos direitos dos curdos. Outro ponto em comum: ameaçados de morte, não podem retornar ao seu país.

De acordo com dados do KHRAG, desde junho de 2011 até agora, mais de 7 mil curdos foram aprisionados pelo governo turco, entre eles, políticos, jornalistas, generais, ativistas políticos, acadêmicos. Essa estatística inclui cerca de 300 crianças que foram estupradas para forçar os presos a fornecerem informações das ações do PKK - o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (na sigla em curdo) – listado como uma organização terrorista internacional por um grande número de Estados e associações, incluindo Estados Unidos.  Os conflitos entre o PKK e a Turquia resultaram em mais de 40 mil mortes, entre membros do partido, exército turco, civis curdos e também turcos. Entre 1990 e 2004 mais de 17,5 mil pessoas desapareceram.

“Programas de limpeza étnica, "arabinização" e "Turquinização”' foram implementados no Curdistão, além da proibição da prática da cultura e da língua curda. Ao longo dos últimos vinte anos, as regiões curdas foram cenários de genocídio, crimes contra a humanidade, assassinatos extra-judiciais, tortura, deslocamento em massa e censura, entre outros abusos do direito internacional”, explica Essa Moosa, presidente do KHRAG.

 

Logo que completou sete anos, Baran e mais 33 crianças curdas da mesma idade e que moravam em seu vilarejo foram levadas pelo exército turco para a chamada “Turkish Boarding School”, escolas financiadas pelo governo, que funcionam em período integral em regime rígido e fechado.

O propósito era romper os lados com a cultura curda, preparar os estudantes para servir o exército turco e, posteriormente, enviá-los para outros países, segundo Baran. Todos os anos milhares de crianças entram nesse processo na Turquia, onde há maior concentração de curdos, entre 15 e 20 milhões.

“Essas escolas fazem uma verdadeira lavagem cerebral nos curdos para que possamos assimilar a cultura turca e esquecer toda nossa história e tradição de mais de três milhões de anos, até nossa árvore genealógica. Não é permitido falar curdo, nem dividir a mesma sala com amigos do vilarejo ou parentes, todos são direcionados para diferentes escolas. Aulas acontecem nos sete dias da semana, nos 30 dias do mês. Mais de 3 mil quilômetros me separavam dos meus pais e apenas uma vez ao ano era permitido encontrá-los e, por poucas horas, na presença de soldados”, explica Baran.

Os adolescentes e adultos curdos que não frequentavam ou fugiam das escolas tentavam mais uma chance de sobrevivência ao participarem do sistema conhecido como “Village Guards” or “Korucular”, no idioma turco. Essa organização paramilitar, criada a partir dos anos 80, selecionava curdos que eram conhecidos como “militares locais”, recebiam treinamento e armas do exército turco para assassinar todos os insurgentes, terroristas e membros do PKK. Em contrapartida, recebiam bens materiais e eram retirados da lista negra do governo.

Baran foi uma exceção porque foi o único entre os amigos do seu vilarejo e de muitos outros que concluiu a escola. Mas foi necessária muita adaptação na escola turca para seguir até os 17 anos de idade.

“As crianças não entendiam por que deveriam ficar longe da família, quando adolescentes muitos foram presos ou mortos por fugirem da escola ou não se enquadrarem nos padrões estabelecidos. A vida era dura, mas por pouco não servi ao exército porque no exame final da escola obtive nota nove e, assim, pude escolher entrar na universidade. Os colegas com resultado inferior eram enviados obrigatoriamente para o serviço militar e para a fronteira de outros países para trucidar os curdos.”

Nos anos seguintes, Baran iniciou os estudos de química na universidade, na Turquia. Em 1987, foi arrastado para prisão e durante 12 dias ininterruptos foi torturado porque o governo turco acreditava que ele era um curdo perigoso e ativista do PKK. “Qualquer família direta ou indiretamente, ativista ou não, era simpatizante do partido, porque é difícil ver seu povo sendo reprimido, perseguido, morto sem ter direito de defesa”, comenta. Dois anos depois, ele foi novamente preso e torturado durante três meses, pelo mesmo motivo.

No final da universidade, Baran foi selecionado em algumas entrevistas de emprego, mas sempre no primeiro dia de trabalho recebia uma carta da empresa que negava sua contratação e não apresentava justificativas relevantes. “Quando percebi a perseguição do governo e dificuldade imposta para iniciar minha carreira no país, sem falar nos inúmeros intelectuais executados, nos meus amigos desaparecidos, senti a morte bem perto. Decidi, em 1994, buscar refúgio na África do Sul, pois na época o país entrava no processo de democratização e acreditei que poderia viver em paz”, relembra.

Já  Weysi estudou em escolas públicas, mas não concluiu o ensino médio. Ele nem sequer tinha diploma. Após sete prisões, ele abandonou a Turquia aos 17 anos e buscou refúgio na Europa.

“Embarquei para Alemanha e meus oito irmãos também se espalharam pela Europa, deixamos nossos pais para trás. Na época, a Alemanha recrutava imigrantes como força de trabalho para reconstruir a nação após a Segunda Guerra Mundial. Aproveitei a oportunidade porque precisava viver e não desejava seguir o mesmo caminho da minha mãe que não sabe ler e escrever e nunca frequentou escola. Consegui emprego e um passaporte alemão. Com muito esforço aprendi o idioma, fui aprovado na universidade e conclui o curso de jornalismo”, detalha o jovem poliglota que domina curdo, árabe, inglês, alemão e turco.

De acordo com um relatório do Ministério Britânico dos Negócios Estrangeiros, 80% dos três milhões de curdos sírios vivem abaixo da linha da pobreza. A economia baseada na agricultura, pastoreio, produção artesanal de tapetes e organização social baseada na lealdade aos clãs são os principais elementos de identidade dos curdos. A maioria é muçulmano sunita e a língua adotada é o indo-europeu. Existem vários dialetos no Curdistão não há, portanto, um alfabeto universal. No Irã e Iraque, por exemplo, a escrita utiliza uma modificação do alfabeto arábico, enquanto na Turquia e Síria, o alfabeto latim é usado. Há ainda enormes restrições em programas de tevês e rádio.

De acordo com dados do KHRAG, outros três milhões de curdos estão espalhados em vários países do mundo, especialmente na Europa. Atualmente, a África do Sul acolhe quase mil curdos. Baran está em solo sul-africano há 18 anos e já possui o título de cidadão. Entretanto, quando relembra a trajetória na Cidade do Cabo, os olhos apresentam um brilho diferente e o sorriso largo. “Não foi fácil, mas nada se compara aos anos anteriores. Cheguei sem falar inglês e tentei trabalhar em um laboratório farmacêutico norte-americano, mas sem muito sucesso. Comecei a produzir e vender meus tapetes, que aprendi com a tradição familiar e depois resolvi empreender, o que está na veia turca”, conta.

Atualmente, Baran é proprietário de uma rede de restaurantes de culinária mesopotâmica que leva seu nome. Um dos estabelecimentos ocupa três andares de um prédio no centro da Cidade do Cabo.  As paredes estampam lembranças da família e da cultura curda.

Baran recebe curdos de vários países e oferece mais do que uma oportunidade de trabalho em seus restaurantes. “Muitos curdos que aqui chegam não possuem educação, pois há um grande índice de analfabetismo no Curdistão. A grande maioria não fala inglês, mas após o treinamento eles demonstram uma grande força de vontade e aprendem rápido. É uma questão de sobrevivência”, diz.

O empresário já possui mais de 500 receitas próprias. Ele trabalhou também como diretor e ator do filme “Diyarbakir Olimpiyatlari”, que mistura o nome de uma grande cidade turca e apresenta de forma satírica a morte de curdos numa menção aos Jogos Olímpicos.

 

Enquanto isso, Weysi deixou a Alemanha, após concluir seu mestrado em Ciências Políticas. Sua tese se transformou em livro. O jovem seguiu para Londres, Canadá e aterrissou na Cidade do Cabo há alguns meses para ajudar a organização KHRAG e iniciar sua tese de doutorado que será baseada na diáspora curda. O trabalho pretende mostrar também como a África do Sul pode ser um exemplo para seu povo. “A luta dos sul-africanos contra um regime segregacionista, opressor conseguiu alcançar os objetivos da minoria de uma forma pacífica, por meio do diálogo. Esse é o sonho do meu povo, uma resolução pacífica, mas o cenário ainda é indefinido, a cada dia tudo pode mudar”, compara.

Weysi aponta semelhanças entre o líder do PKK, Abdullah Ocalan e Nelson Mandela: ambos foram presos em uma ilha, escreveram livros na prisão, enfrentaram forte perseguição dos governos e a criação de áreas exclusivas para a minoria, sem o direito de praticar sua cultura. Entretanto, Abdullah permaneceu 10 anos sendo o único preso na ilha turca e sob vigília de mil soldados do exército turco.

“A pressão de órgãos europeus de Direitos Humanos começaram logo que a Turquia tentou ser membro da União Européia e foi contestada por questões relacionadas aos diretos políticos e internacionais. O país decidiu mostrar que era uma nação democrática ao mundo e enviou outros presos para a mesma ilha que está Ocalan. Após a Turquia ser rejeitada pela UE, a situação dos curdos só piorou. Há sete meses o líder do PKK foi proibido de falar até mesmo com seu advogado”, comenta.

Baran acredita que o sistema de opressão aos curdos entrará em colapso em breve. “O ódio aumenta todos os dias e isso afeta as famílias. Os curdos se matam entre si, há muitos desaparecidos, presos. Isso vai acabar porque não será possível matar todos os curdos espalhados no mundo. A tecnologia ajudará os movimentos contra repressão dos governos, mais pessoas terão conhecimento do que acontece no Curdistão, a mobilização por meio das redes sociais já começou e vai mudar o futuro”, finaliza o empresário.

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