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Sob suspeita, premier espanhol balança no cargo

por Redação Carta Capital — publicado 04/02/2013 15h36, última modificação 05/02/2013 13h41
Caso de corrupção envolvendo o chefe de governo espanhol leva 77% dos espanhóis a desaprovarem um governo eleito há menos de um ano

Uma rede de corrupção denunciada pelo diário El País, em 31 de dezembro, coloca o primeiro-ministro, Mariano Rajoy, em risco e ameaça agravar ainda mais a governabilidade e recuperação econômica da Espanha, um dos países mais afetados da Zona do Euro pela crise internacional. A espanha apresenta as maiores taxas de desemprego da região, cerca de 26%, e uma das mais duras políticas de austeridade da União Europeia.

O caso denominado de Gürtel pela polícia espanhola indica a existência de uma rede de corrupção a envolver o Partido Popular (PP) espanhol - atualmente no poder - e a uma dezena de administrações governadas por ele e grupos empresariais que pagavam propinas ou comissões ilegais em troca de contratos públicos entre fevereiro de 2002 e julho de 2004.

 

 

Nomes de peso, que integram o Partido do primeiro-ministro, como o do ex-tesoureiro do partido, Luis Bárcenas, e do atual ministro da Fazenda, Cristóbal Montoro, integram a lista de beneficiários do esquema. O próprio Rajoy, de acordo com as acusações, já havia recebido durante 11 anos cerca de 25,2 mil euros anuais, que não foram declarados.

Em face disso, o apoio da população a Mariano Rajoy, eleito há menos de um ano, nunca foi tão baixo. De acordo com uma pesquisa de opinião, publicada no domingo 3 pelo El País, 77% dos entrevistados afirmaram desaprovar Rajoy como primeiro-ministro, enquanto 85% têm pouca ou nenhuma confiança nele.

Motivado pela insatisfação popular, o líder da oposição, o socialista Alfredo Pérez Rubalcaba, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), exigiu a demissão de chefe de governo espanhol, no domingo. Rubalcaba alega que Rajoy perdeu a credibilidade e que por isso não tem condições de governar a Espanha diante dos sérios problemas econômicos que o país enfrenta atualmente. "O melhor que (Rajoy) pode fazer para a Espanha e para seu partido é se demitir porque ele é um presidente incapaz de queixar-se contra Bárcenas e romper com Cristóbal Montoro e com Ana Mato", disse. Montoro, como dito acima, é o atual ministro da Fazenda da Espanha, enquanto Ana Mato ocupa o cargo de ministra da Saúde. Ambos são citados no caso Gürtel.

O escândalo aumentou o descontentamento da população com o governo e motivou protestos em Madri no sábado 2.

Rajoy nega

Por sua vez, após dias de silêncio no dia 2 Rajoy saiu a público para afirmar que não deixará o cargo e classificar as informações veiculadas pela imprensa espanhola como "perseguição". "Não preciso mais do que duas palavras: é falsa (a acusação). Nunca, repito, nunca recebi e nunca dividi dinheiro irregular nem neste partido, nem em qualquer outro lugar", afirmou Rajoy. "Não estou na política por dinheiro", garantiu.

O premier disse ainda que não se pode "permitir que os espanhois, a quem estamos demandando sacrifícios, pensem que não estamos respeitando o mais severo rigor ético". Rajoy prometeu publicar detalhes de sua conta pessoal no site do Palácio la Moncloa, sede do Palácio do governo da Espanha. "Na próxima semana, minhas declarações de renda e de bens estarão acessíveis a todos os cidadãos", prometeu o chefe de governo.

Nesta segunda-feira 4, o vice-secretário de organização do PP, Carlos Floriano, disse que o Partido moverá ações judiciais, sem especificar se civis ou penais, contra "todos" que divulgaram que o PP se financiou ilegalmente, segundo o jornal El País. Floriano é considerado o "número três" na hierarquia do Partido.

Desilusão
A pesquisa realizada pelo El Pais revelou ainda que para 96% da população espanhola a corrupção no país é generalizada e não está sendo punida adequadamente. Em apenas dois dias, uma petição online, que pede a saída do primeiro-ministro, conseguiu reunir mais de 650 mil assinaturas.

O conservador Partido Popular chegou ao poder no final de 2011 com uma ampla maioria, após uma derrota histórica do PSOE, que estava no governo desde 2004. No entanto, de acordo com a pesquisa de opinião publicada no domingo 3, se houvesse hoje novas eleições, as duas legendas seguiriam praticamente empatadas: apenas 23,9% da população votaria novamente no PP, enquanto o PSOE obteria 23,5% dos votos.

Propinas por 11 anos
De acordo com as anotações do ex-tesoureiro do Partido Popular, Luis Bárcenas, o partido teria mantido uma contabilidade paralela entre 1990 e 2009, tendo repassado recursos, sem prestar contas, a ocupantes do alto escalão – entre eles, ao próprio Rajoy.

Nos documentos obtidos pela polícia constam as iniciais “L. B.”, de Luis Bárcenas, que supostamente teria cobrado, entre 2002 e 2004, 600 mil euros procedentes de fundos da Construtora Hispânica: 270 mil em fevereiro de 2002 e 330 mil euros em dezembro de 2003.

Nessa mesma época, Bárcenas anotou em seu caderno quatro doações ao PP: duas de 30 mil euros, uma de 60 mil e outra de 24 mil euros. Ou seja, menos de 25% do montante que supostamente recebeu.

De acordo com as investigações, o intermediário de Bárcenas era o empresário Francisco Correa – que era o chefe da rede de corrupção e, por isso, dá nome à operação (Gürt, em alemão, significa cinto ou correa em espanhol).

 

*Com informações da Deuschtwelle e do El País

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