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Irã

Sob o véu da censura

por Willian Vieira — publicado 22/07/2010 12h10, última modificação 29/07/2010 16h42
A crescente repressão leva os iranianos a uma vida dupla: desconfiada nas ruas, descontraída e ocidentalizada entre quatro paredes

 A crescente repressão leva os iranianos a uma vida dupla: desconfiada nas ruas, descontraída e ocidentalizada entre quatro paredes

De repente, o silêncio. As luzes se acendem e o anfitrião vem à entrada, ressabiado – é noite de terça-feira no reduto de classe média no oeste de Teerã. Quando a porta se abre, 18 olhares suspiram aliviados. Oito mulheres sem véu, cabelos pintados, lábios coloridos e rostos maquiados. O véu sempre ao alcance da mão, na bolsa, a 1 metro dali, descansa das obrigações cotidianas. Há ainda dez homens perfumados, com camisas abertas, cabelos com gel e calorosos sorrisos. A porta se fecha, a música persa eletrônica volta ao máximo volume, todos dançam, os braços desenhando círculos no ar. Entre quatro paredes, a paz do ambiente privado é retomada.
Como, talvez, em nenhum outro país, o Irã vive o dualismo entre o ambiente público e o privado, entre a aparência e a rea-lidade, entre o que se mostra e o que se faz. “Os iranianos têm lidado com essa dicotomia há mil anos e aprendido a conviver com ela”, diz o professor de história iraniana Touraj Daryaee. “Só que sempre que o governo é mais restritivo, a diferença entre o jeito que as pessoas agem nos ambientes públicos e privados se expande.” O contraste é mais óbvio nas duas últimas gerações: no tolerante governo dos Pahlevi, a classe média obteve liberdades expostas nas ruas – até o véu fora proibido. Mas, desde que a Revolução Islâmica empossou um regime teocrático em 1979, período coroado pelos últimos cinco anos linha-dura de Mahmoud Ahmadinejad, o país regrediu socialmente, ao menos em público. Um Irã de duas faces.

“Hoje, mais do que nunca na história recente do Irã, há um cisma claro entre o Estado e as pessoas, o que leva a condutas diversas”, explica Hossein Ziai, pesquisador e diretor de estudos iranianos da Universidade da Califórnia (EUA). “O genuíno, o normal, é desconectado do Estado. Há uma persona pública deliberadamente falsa, enquanto o essencial e verdadeiro é da vida privada.”
Nas ruas, entre as mulheres, os gestos são tão contidos quanto as roupas, longas e negras nas cidades menores e áreas tradicionais. As conversas, se tocam em religião e política, baixam o tom, viram suspiros, olhares de soslaio. Homens e mulheres desconhecidos raramente conversam. Casais mal se tocam. Tudo fica ainda mais formal com um mulá passeando, olhar em riste, Corão na mão.
No espaço privado, nas casas, outro Irã aparece. Mulheres sem véu flertam abertamente. Homens criticam o regime à primeira oportunidade, enquanto abrem uma garrafa de vodka Absolut trazida ilegalmente da Turquia e oferecem aos convidados, entre poemas do ilustre Saadi. É uma realidade dentro da realidade. “Com homens e mulheres jovens cada vez mais educados e alinhados a outro mundo, as restrições soam mais irracionais”, diz Daryaee. “Eles comem pelas beiradas: véu menor, roupas coloridas, botas e cabelos diferentes para os rapazes são símbolos dessa resistência. Assim desafiam o status quo.”
Aos pés das montanhas Alborz, parte rica de Teerã, o carro alcança 100 quilômetros por hora em cinco segundos, ao som de reggaton em farsi ou, repetidamente, de Soosan Khanum, a pegajosa música que toca em nove entre dez carros de jovens teeranis e retrata rapazes e moças em um dialético flerte. Farzin, engenheiro químico, filho de uma família milionári-a ligada ao ramo petroquímico, mora sozinho numa espaçosa casa ao norte da capital – os pais vivem em Londres. Ele ultrapassa dois carros e encosta ao lado do automóvel da presa: abre o vidro, sorri, faz elogios e consegue o que queria, o telefone da moça. “Essa eu vou encontrar amanhã, se tiver tempo, em uma festa lá em casa.”
Poucos minutos depois, Farzin aponta para a rua, fechando os vidros: um policial está prendendo quatro moças e três rapazes que atuavam da mesma maneira em meio ao trânsito. “Está vendo? É isso que nos dá adrenalina ao paquerar. No Irã, tudo é proibido. Então é uma delícia desafiar o sistema em prol das garotas.” Farzin, claro, nunca iria para a prisão. “Meus  amigos foram pegos. Mas não tem problema. Você paga uns 200, 300 dólares em propina e ninguém te prende. Sai uns 10 dólares a chibatada. O Irã é corrupto, meu amigo: se você tem dinheiro, pode tudo, até comprar as chibatadas. Se você não tem, então é melhor rezar segundo a cartilha.”
Nas últimas décadas, ao menos na classe média, os iranianos tentam viver de forma cada vez mais liberal, ocidentalizada. “Há dez anos, era raro ver gente namorando antes do casamento, por exemplo. Hoje, qualquer rapaz ou moça nas grandes cidades tem namoros”, diz Farzad, engenheiro industrial de 30 anos, três namoradas. Só que, nos últimos cinco anos, o cerco se fechou, a ponto de ser comum ver policiais flagrando flertes na rua, dando multas, prendendo gente. Os ônibus continua-m separando homens e mulheres – a traseira do veículo, exclusiva delas, segue vazia e a frente, masculina, entupida.

Para quem vive no Irã do petróleo, com dinheiro para pagar por tudo (até  ilegalmente), a realidade dói menos. Para o grosso da classe média, que não pode conseguir um passaporte sem prestar quase dois anos de serviço militar e que acaba na cadeia por causa de uma foto nos protestos pós-eleição, o Irã é um fardo – doloroso para uma gente nacionalista, apaixonada pelo passado de glórias dos persas. Candidatos a povo mais hospitaleiro do mundo, cujas portas foram há tanto tempo trancadas, eles se derretem em polidez diante do estrangeiro. Querem mostrar que a imagem cravada na mente ocidental de um presidente a vociferar contra a América e perseguir armas atômicas destoa daquela do cidadão comum.
“Impossível haver uma distância maior entre o que  Ahmadinejad fala nas tevês estatais e o que os iranianos pensam do resto do mundo”, diz Farzad, enquanto passea-mos pelo parque Mellat, cenário dos protestos pós-eleição. “Somos um país que existe antes do Islã. Nossa cultura é persa, é mais europeia que árabe. Nossa classe média ignora qualquer ódio contra Israel ou contra os EUA. Eles seriam bem-vindos para nos ajudar a derrubar esse regime autoritário.” Os problemas para os iranianos, além da falta de liberdade, são o desemprego e a inflação, ambos de dois dígitos – maquiados pelo governo, os números são sentidos no cotidiano da maioria.
À espera de um amigo, também desempregado, Farzad quer um cigarro. Vai à banca de jornais comprar um. “Isto é um festival de notícias felizes”, ironiza, ao folhear os jornais em uma banca na zona oeste de Teerã (custam o equivalent-e a 20 centavos de real).  Mas não é por isso que a classe média iraniana deixa de se informar. Todo liberal que se preze tem um software antifiltro e um servidor proxy para driblar a censura do governo. Podem ler versões digitais do New York Time-s ou centenas de sites produzidos por iranianos da diáspora, em farsi. Há ainda o sinal de tevê via satélite que traz, do exterior, canais na língua local, inclusive a BBC. Assim estão sempre cientes dos protestos e de como os discursos de Ahmadinejad são recebidos no resto do planeta.
O amigo chega, embalado pela tradicional música persa que atrai ouvintes para comemorar o martírio de um religioso qualquer. Sentados em cadeiras ao redor do lago, entre as estatuetas dos mais famosos filhos da nação, como os poetas Hafez e Ferdowsi, eles aproveitam o domingo. “Este é o retrato do Irã que amamos, mas que está enterrado”, diz o amigo Azad, aos pés de Hafez. Engenheiro industrial formado na Alemanha, fluente em quatro línguas, 15 anos de experiência, ele busca ocupação há um ano. Recebeu uma proposta para trabalhar no governo, mas declinou. “Se o sujeito não for religioso e não apoiar explicitamente o regime, não consegue emprego público. E eu não posso apoiar um regime que prende meus amigos. O Irã é hoje um paí-s de mentira. Todo iraniano se especializou em representar um papel para a sociedade. Todos têm duas caras: uma pública e outra verdadeira. Numa sociedade que é baseada na farsa, não se pode confiar em ninguém. Hoje você é meu amigo. Amanhã, meu delator.”

De Teerã, no norte, um carro parte para Kerman, no centro-sul, em uma típica viagem à iraniana: cestas de comida para o piquenique, garrafas de chá e um mapa rodoviário. Quatro amigos acolhem o estrangeiro: Amir, Jalil, Mahsheed e Zohreh querem mostrar as paisagens, a cultura persa, o xiismo – os três orgulhos do Irã. Todos fumam, véus subindo e descendo conforme o carro para ou segue, até chegar, 12 horas depois, à mesquita da religiosa Yazd. Todos saem do carro para a foto. As meninas posam em frente à mesquita. Sorriem. Até que um homem surge a vociferar. Ambas ajeitam apressadamente o véu, desculpam-se, agradecem, despistam-no. “Às vezes se esquece que não se está em casa”, diz Mahsheed. A punição para a mulher flagrada sem o véu são 40 chibatadas.
O Irã é o maior país xiita do mundo: 89% de seus cerca de 67 milhões de habitantes são xiitas: acreditam na existência dos 12 imãs que se seguiram ao profeta, conferindo devoção especialmente ao primeiro, Ali, e que hoje se misturam à vida iraniana de maneira indissociável. Tumbas, locais de nascimento, tudo é sagrado – seus nomes são os preferidos das famílias religiosas; seus retratos vivem pendurados na parede, no espelho do táxi, no pescoço (uma aberração para os sunitas, denominação majoritária do Islã no mundo).
Um clima de medo envolve a sociedade iraniana. Entre os amigos, o afeto e a intimidade são infinitos. Entre desconhecidos, só a polidez amaina a rispidez surgida da desconfiança. Nas ruas, onde sobram placas com um número da inteligência do governo a incentivar denúncias de “comportamento estranho”, é comum para um estrangeiro perguntar as horas e ser convidado a assistir a um casamento. Mas nenhum iraniano participará de uma festa sem que algum amigo garanta a sua “confiabilidade”. Uma viatura passa fazendo barulho. Mahsheed se mexe no banco. “Eles assustam, estão sempre por perto. Como ter paz?”
Para boa parte da classe média iraniana, especialmente na capital, o dia após o resultado das eleições, 12 de junho de 2009, foi o estopim que levou à explosão uma geração inteira de frustrados – uma gente que viu o país ser alçado à segunda classe internacional, regredir nas liberdades civis e se tornar mais e mais dependente da economia do petróleo, processo coroado por um governo que, acreditam, corrompeu as eleições para se manter no poder. Queriam a mudança, mas viram o país se afundar ainda mais em relatos de injustiça, violência e morte.
Arad, 30 anos, apanhou nas costas e nos braços ao proteger a cabeça dos cacetetes da polícia. Engenheiro industrial nascido em família rica, que pode pagar a mensalidade da universidade mais cara do Irã, vive sozinho em uma casa ampla em uma rua arborizada aos pés das Alborz. Raramente desce para o centro, pobre e poluído, repleto de fundamentalistas. Namora, viaja ao exterior, frequenta festas privê. Vive numa bolha de conforto. Por que decidiu dividir o espaço sangrento das ruas com estudantes e a classe média? “Porque ninguém aguenta viver num país que engana seus filhos. A única alternativa é derrubar este governo.”

Três de seus amigos ficaram presos por três semanas, um deles na temida Evin, prisão de onde brotaram histórias de estupro de homens e mulheres envolvidos com a “Revolução Verde”. Mesmo assim, Arad decidiu que no aniversário da eleição voltaria às ruas. No último dia 12, novos protestos ganharam as ruas do Irã. Segundo a Human Rights Activist News Agency, de 200 a 900 cidadãos foram presos. Mas nada se compara aos protestos de 2009, quando o rastro de sangue ficou e-xposto. Segundo a Anistia Internacional, só entre a eleição e a posse de Ahmadinejad, em 5 de agosto, foram 112 execuções – o governo confirma nove –, algumas em público. De acordo com a Anistia, entre agosto e dezembro, o Irã deteve mais de 5 mil pessoas. O que começou como protestos pacíficos, levando milhares às ruas e parques do país, vestidas de verde, pedindo liberdade, terminou criando a maior crise política iraniana desde o fim dos anos 70.

Sem líderes de fato, a não ser oposicionistas moderados como o candidato derrotado Mir Hussein Moussavi, os verdes logo encontraram seus mártires, como a estudante de filosofia Neda Soltan, assassinada com um tiro na cabeça por um integrante da milícia Basij durante um protesto pacífico nas ruas de Teerã. Outro manifestante filmou a execução de Neda. O vídeo rodou o mundo, arrancando gritos de protesto contra o regime, seguido de outras prisões midiáticas, como a do cineasta Jafar Panahi, autor de O Círculo, crítico filme sobre o papel da mulher no Irã (ele foi preso em um dos protestos verdes).
O governo de Ahmadinejad representa uma mudança de sentido para o Irã, a transferência de poder dos representantes da Revolução Islâmica para a linha-dura nascida durante a guerra com o Iraque e contrária às reformas liberais trazidas por Mohammad Khatami. Um governo mantido com o apoio da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), espécie de polícia criada apenas para “proteger a revolução”, mas que investiga a população, está infiltrada nas universidades e controla qualquer tensão social com violência.
Especialistas dizem que Ahmadinejad e o líder espiritual, Ali Khamenei, estão mais fortes do que nunca. Mas, sem o apoio maciço dos clérigos de 30 anos atrás, o governo sabe que só pode se manter no poder intimidando e punindo. A resposta aos protestos tem sido quase didática: com jornais de oposição extintos e sites na internet controlados, a polícia moral agora aumentou sua presença nas ruas. Festas com ambos os sexos têm sido invadidas e multas equivalentes a cerca de mil dólares aplicadas indiscriminadamente. Conversas telefônicas, afirmam ONGs, são gravadas. Policiais filmam mulheres vestidas “impropriamente”. “Eles têm um arquivo absurdo de todos, com fotos, dados, conversas, tudo”, diz Amir.

O aparato repressivo conseguiu esmae-cer a “Revolução Verde”. Da confrontação, a campanha de Moussavi decidiu que “não vale a pena o derramamento de sangue”. Protestos em massa foram cancelados após o governo negar permissão e advertir que responderia “com dureza” – mensagens chegaram aos celulares dos manifestantes com ameaças. A conclusão parece óbvia: nada de concreto advirá dos protestos. “As pessoas querem mudança, mas não querem uma guerra civil”, diz Ghazal Omid, ativista iraniana de direitos humanos. “Os iranianos precisam de um líder por quem possam morrer. O líder não é Karroubi, não é Moussavi, não é Rafsanjani. Eles têm limitações. O que o Irã precisa é de uma figura central, apoiada por dinheiro externo. Se a oposição não se refizer em torno de um líder, o momento vai passar e entrar para a História como mais um protesto em vão.”
Muitos que participaram das manifestações não gostaram da intromissão brasileira na discussão sobre os acordos nucleares. Não à toa vários deles, após elogiar o futebol, perguntam o que o presidente Lula faz ao lado de Ahmadinejad. “É uma vergonha um país como o Brasil apoiar um ditador que mata manifestantes na rua”, diz Hashar, engenheiro eletrônico de Khorramabad, no oeste do Irã, a caminho do enterro do irmão. Até meses atrás, a única imagem do Brasil para ele eram Pelé e Ronaldo. Mas as capas dos jornais iranianos, retratando “a potência” brasileira “apoiando” a soberania local em relação ao programa nuclear “pacífico”, mudaram as coisas.
“Será que o seu presidente sabe que está lidando com um regime que tem sistematicamente abusado dos direitos humanos, com casos documentados de tortura generalizada, estupros e assassinatos?”, pergunta Ziai. “Fico chocado que um governo democrático como o seu e uma pessoa confiável como Lula tenham i-gnorado tais atrocidades e apoiado Ahmadinejad. Como ficam os direitos de centenas de mães que viram suas crianças espancadas até a morte e nem sequer tiveram os corpos entregues de volta?”
Após passar por dezenas de painéis com imagens dos aiatolás Khomeini, líder da Revolução Islâmica, e Ali Khamenei, atual, o carro para em outra mesquita, esta vazia. Todos descem, tiram os sapatos, entram no prédio, ajoelham-se diante da tumba de mármore marcada por dizeres do Corão, tocam-na, fecham os olhos e rezam, em silêncio. Pedem proteção contra o regime. “Alá é algo que está aqui dentro, eu não preciso mostrar a ninguém”, diz Mahsheed.
O silêncio é interrompido pela melodia triste que, cinco vezes por dia, em ambientes públicos, jorra das caixas de som – a ladainha dos minaretes, convidando à oração em direção a Meca. Ninguém se altera. Ninguém reza. É como um pano de fundo. “Passei 12 anos de escola ajoelhando para rezar todos os dias”, diz Amir. “Hoje, essa imagem se mistura aos aiatolás. Como este regime conseguiu transformar o Islã em uma má lembrança?”

Sociólogo e pesquisador da Universidad-e de Michigan, nos EUA, Mansoor Moaddel afirma: “Qualquer análise após a Revolução Islâmica mostra que a tendência dominante entre os iranianos é rumo ao individualismo, à identidade nacional e à política secular. O que não é uma surpresa. Quando um governo religioso autoritário impõe um discurso monolítico à sociedade, de cima para baixo, isso leva a um declínio da religiosidade geral pública”.
Os iranianos, assim como os sauditas, tendem a frequentar menos as mesquitas durante as orações diárias do que outros países islâmicos de regime laico, além do fato de que muitos dos apoiadores de 1979 terem virado, garante o professor, reformistas e secularistas. “Mas que não se entenda errado: os iranianos são religiosos. Sua e-spiritualidade está migrando da religião organizada para uma onde a escolha individual tenha papel mais proeminente que a promovida pelo regime dominante”.
Em outra terça-feira à noite, dia sagrado para os xiitas de Qom, o coração do regime dos aiatolás, sentados no chão do segundo maior complexo religioso do Irã, três jovens discutem detalhes do Corão. O regime de Ahmadinejad surge na conversa. “Muitas pessoas acham que a polícia religiosa que está prendendo os manifestantes é o Islã e por isso têm deixado a mesquita de lado, se fechado em si mesmas”, afirma Haled, professor de inglês de 32 anos que dá aula para mulás interessados em criticar os americanos em inglês. “Este governo infeliz não representa Alá. As coisas vão mudar e o nome de Alá deixará de ser dito em vão.”

Finalmente, a caravana de Teerã chega a Kerman. A Primavera de Vivaldi brota do aparelho de som, enquanto Arsalan, no melhor estilo da hospitalidade iraniana, serve, em delicados cálices de cristal persa, o líquido rubro. “Você nunca ouviu falar do vinho de Shiraz? Eu mesmo fiz.” O sorriso maroto no rosto denuncia o hobby ilegal do engenheiro civil. No porão da casa onde vive com a esposa, a esteticista Sanam, Hamed tem quatro tonéis de 50 litros cada. Em dois deles faz vinho, nos outros dois, vodka. “A técnica é simplíssima”, explica, enquanto destampa o tonel com mosto de uva, pronto para destilar em um alambique artesanal, comprado nos mercados de Kerman para extrair a delicada água de rosas tão presente nos doces locais. “Uma semana para a fermentação, um dia para destilar, e pronto: temos uma festa bem mais animada.”
Tão animada que troca de ambiente. A 5 quilômetros dali, Kaled recebe os amigos não com vinho, mas com uma cerimônia igualmente tradicional: no chão, sobre o onipresente tapete persa, uma bandeja de prata com dois cachimbos de porcelana com imagens do antigo xá, ao lado de um braseiro e algumas esferas negras. “Para os kermanis, receber amigos sem oferecer ópio é uma falta de polidez”, explica Kaled, entre baforadas perfumadas da droga. O jovem afirma ter perdido terras para o governo. Detesta o regime. Na rua, franze o cenho, desgostoso com a falta de liberdade. Entre as paredes de casa, transforma-se em um animado anfitrião. “A minha casa é sua casa. Aqui ninguém entra, aqui somos o que somos, fumamos, bebemos, gargalhamos, porque eu digo que deve ser assim.” Todos riem.
Há uma única concessão feita pelos iranianos em público: a indissociável paixão pelo piquenique. “Precisamos de, no mínimo, um piquenique por semana, de sentar na grama e comer. É uma técnica de sobrevivência, uma pílula de relaxamento. Sem essa pequena liberdade não conseguiría-mos suportar 30 anos de teocracia”, diz Ghazal. “O governo sabe disso. Nada de proibir o piquenique. Acho que aí as pessoas derrubariam o governo de vez.”
Enquanto as ruas são dominadas por carros antigos que perfazem uma perigosa dança – os Paikans, carros ingleses dos anos 60, cospem fumaça de diesel mal queimado – uma quantidade incrível de Mercedes, BMWs e Land Rovers de vidros fumê dos filhos do petróleo brigam por espaço. O governo subsidia os artigos de primeira necessidade, fazendo um pão-folha que alimenta uma pessoa sair pelo equivalente a 4 centavos de real e o litro de gasolina custar menos do equivalente a 10 centavos, os ricos desfilam pelas ruas com um esparadrapo discreto no septo. No Irã são realizadas, todos os anos, cerca de 100 mil cirurgias para redução do nariz – custam entre 2 mil e 8 mil reais. É uma febre nacional. Muitos usam o curativo mesmo sem ter feito a cirurgia – por aqui, é um símbolo de status.

Longe de tudo, dos protestos, das cirurgias, dos carros, Mohammed, 19 anos, sorri. No ônibus velho que faz o percurso entre Qom a Isfahan, após quatro noites de vigília no templo sagrado à espera do Messias (o 12º imã, para os xiitas), o mais jovem de cinco irmãos (além dele, há Houssein, Hassan, Ali e Fátima, todos nomes religiosos), criador de galinhas, volta para sua vila. Mohammed é virgem. “Meu coração é de Deus até eu casar.”
Quando uma garota maquiada passa ao lado, faz expressão séria. Até que surge a oportunidade de perguntar sua opinião sobre o Irã. “É claro que gosto do presidente Ahmadinejad. Ele está colocando ordem no país, acabando com a falta de vergonha e dando dinheiro aos pobres.” Mohammed completa, grave. “O problema é que umas poucas pessoas estão fazendo algazarra nas ruas. Acredito que, depois de um tempo, tudo vai voltar ao normal. Aceita uma xícara de chá na minha casa?” •

Por Willian Vieira

Pesos, medidas e contexto 

O Irã não é um modelo de democracia, mas isso não justifica as sanções  

O regime iraniano é teocrático e suas instituições políticas
e garantias a direitos humanos deixam muito a desejar. Mas há três questões a considerar.
Primeiro, o Irã está cercado de vizinhos que, embora aliados do Ocidente, cometem abusos iguais ou piores. No Iraque sob ocupação dos EUA, prisioneiros são torturados e mortos. Na Arábia Saudita, um animador de tevê libanês, preso ao peregrinar a Meca, foi condenado à morte como feiticeiro por “prever o futuro” de convidados. As mulheres sauditas, obrigadas a cobrir-se com o niqab, podem invejar a relativa liberdade das iranianas, que podem sair às ruas com um simples lenço na cabeça. No emirado de Dubai, centro financeiro de arquitetura futurista, um casal britânico foi recentemente condenado à prisão por um beijo em público. Nem se pense em campanhas eleitorais, mesmo com as limitações do Irã: ambos são monarquias absolutas.
Segundo, a tradição autoritária do país vem de muito antes dos aiatolás. O xá Reza Pahlevi era aliado dos EUA e promovia a ocidentalização dos costumes, mas mostrou ainda menos respeito por instituições democráticas. Matou e torturou oposicionistas e governou como monarca absoluto.
Terceiro, o Irã dos aiatolás, retórica à parte, nunca agrediu outras nações nem reivindicou territórios vizinhos, ao contrário de aliados dos EUA como o próprio xá do Irã nos anos 70, Saddam Hussein e os talebans nos anos 80 e o Paquistão do general Pervez Musharraf nos anos 90. Ou o Israel de hoje. Pelo contrário, teve de defender-se de agressões como a do Iraque de Saddam e das ameaças ocidentais.
As bravatas de Mahmoud Ahmadinejad contra Israel, por condenáveis que sejam, são menos agressivas do que a imprensa ocidental faz crer. Frases como “o regime que ocupa Jerusalém deveria ser apagado das páginas do tempo” são expressões de crença ou desejo, não ameaças de ataque nuclear. Assim como Nikita Kruchev disse, nos anos 50, que “a história está do nosso lado, nós os enterraremos” e a frase foi usada pela propaganda dos EUA como evidência de que a URSS pretendia destruir o Ocidente, quando apenas expressava a expectativa de superar o capitalismo.
Por incômodo que seja ao Ocidente e hostil a seus interesses, o Irã não é uma ameaça real à paz no Oriente Médio, primeira questão que deveria preocupar a diplomacia. Quem queira argumentar que esta não se pode separar dos direitos humanos, que seja coerente e proponha também sanções à China, Arábia Saudita, Dubai, Israel e Paquistão. Sem esquecer dos EUA em Guantánamo.

Longe de casa  Estima-se que a cada ano 150 mil iranianos deixem
o país. Para o FMI, é uma das mais sérias fugas de cérebros do planeta
Do alto de um minarete abandonado em uma mesquita de Qom, coração dos estudos religiosos e bastião do fundamentalismo no Irã, Houssein, 24 anos, canta uma música triste. Não porque perdeu os pais, mulás de uma família tradicional, aos 12 anos ou porque, formado em administração de empresas, não consegue emprego. Houssein está triste porque, há uma semana, pagou 16 mil dólares a uma empresa ilegal para cruzar a fronteira com a Turquia, onde conseguirá um passaporte falso e embarcará rumo
à França, em busca de asilo político. “Vai ser bom ter de volta a liberdade. Mas me dói deixar meu país.”
Houssein é um dos estimados 150 mil iranianos, boa parte deles com estudo superior e qualificação profissional, que deixam o país a cada ano para viver na Europa, Estados Unidos, Canadá e Austrália, no que foi considerado pelo Fundo Monetário Internacional como uma das mais sérias fugas de cérebros da história. Participante dos protestos do dia 12 e preso por três semanas, Houssein viu coisas que não queria. “Meu companheiro de cela tinha o mesmo plano, mas foi pego, então tentou se matar três vezes, duas com lâminas de barbear e uma com corda.
Na última tentativa, conseguiu.” Libertado sob uma fiança equivalente a 10 mil dólares, paga pelo tio, ele ainda foge do Exército, de onde desertou no meio do serviço militar. “É agora ou nunca. No Irã não sobrou mais nada para mim.”
A exemplo de Houssein, Amir sonha com o exterior mesmo acordado. Sem emprego há dois meses, ele viaja pelo Irã. Estudou alemão por dois anos no Instituto Goethe, conseguiu ser aceito em uma universidade alemã, levantou todos os documentos, mas foi proibido de sair. “Disseram que não estava claro por que eu gostaria de ir estudar alemão na Alemanha.”
Sua irmã vive em Los Angeles há dois anos e meio. Engenheira industrial, ela migrou para a área de tecnologia da informação, logrou um emprego em uma companhia de software no Vale do Silício, na Califórnia, e conseguiu o visto de trabalho permanente. Vive uma confortável vida com o marido, também engenheiro, em San José. Só se entristece por ser tão difícil visitar a família no Irã: se o fizesse, ao retornar aos EUA, teria de enfrentar a investigação da alfândega americana e correr riscos que prefere evitar.
Estima-se entre 4 milhões e 5 milhões o total de expatriados, um mundo persa vivendo especialmente em Los Angeles (apelidada Teerângeles), Paris e Londres. Nos EUA e Canadá, por exemplo, existem associações de classe específicas para os migrantes: associação de psicólogos iranianos dos EUA, associação de escritores iranianos do Canadá, e assim por diante.
Isso sem mencionar a produção cultural: um exército de bandas de rock, rap, hip-hop, de artistas plásticos, jornalistas e escritores que produzem conteúdo em inglês e farsi e que chega ao Irã ilegalmente, via satélite ou pela internet. Com a repressão elevada após os protestos, o fluxo parece ter aumentado. Após os protestos, muitos oposicionistas saídos da prisão têm sido abertamente  “encorajados” a deixar o país.
“O governo está usando as ONGs para esterilizar a oposição”, diz Ghazid Omid, ativista de direitos humanos e autora de Living Hell, biografia de uma sobrevivente da repressão no Irã. “Eles prendem, soltam sob ameaças e encorajam o êxodo. Fora do país se pode fazer pouco para mudar as coisas.”
Além do enfraquecimento político interno, o êxodo vira um drama pessoal. Se em sua terra natal eles são engenheiros com Ph.D., médicos, pesquisadores, na selva de pedra americana serão o Houssein do táxi, o Hassan da padaria,
o Mohammed do mercadinho. “Quando se deixa o Irã, é preciso
um plano. Aqui fora não é o paraíso. Muitos parentes meus chegaram exultantes com a liberdade, mas acabaram em subempregos.”
O fluxo não para. E até surpreende o governo. Recentemente, a filha
de um assessor pessoal de Ahmadinejad, Narges Kalhor, 25 anos, apareceu no Festival de Cinema de Nuremberg e solicitou asilo político.

Por Antônio Luiz M.C. Costa