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Síria: uma rosa por desabrochar

por Viviane Vaz, em Jerusalém — publicado 10/03/2011 17h00, última modificação 14/03/2011 18h01
O jeito ocidentalizado da ditadura síria de Bashar al-Assad não impede que a oposição ao regime floresça na internet, mas o líder sírio garante que a onda revolucionária não se espalhará pelo país. Por Viviane Vaz, de Jerusalém
Síria: uma rosa por desabrochar

o que aconteceu com aquele pacato oftalmologista metamorfoseado em presidente com intenções de modernizar seu país? Foto: AFP

Enquanto a Líbia sofre com o ditador Muamar Gadafi, retratado pela imprensa internacional e pelo próprio mundo árabe como um assassino louco, feio e extravagante, a Síria, governada por uma ditadura com pinta de democracia ocidental, vive uma luta interna velada. Sua primeira dama, Asma al Assad, saiu na semana passada na capa da Vogue americana como “uma rosa no deserto”. Diz a revista que a “glamourosa, jovem e muito chic, a mais refrescante e magnética das primeiras damas” é quem dá a cara moderna ao regime do marido Bashar al-Assad. Por outro lado, uma opositora síria ao regime escreve no Facebook que “nenhuma moda pode ajudar uma mulher com um ditador a tiracolo”.

A Vogue ressalta que Bashar foi eleito em 2000 com “um assombroso 97% dos votos”, após a morte do pai, Hafed al-Assad. A publicação menciona que o poder na Síria é hereditário, mas não detalha que Bashar, assim como o pai, não disputou eleições contra candidatos de oposição, pois há cinco décadas existe apenas o partido Baath no país. Em 2007, Bashar foi reeleito para mais um mandato de sete anos em um referendo no qual ele era novamente o único candidato reconhecido pelo sistema eleitoral.

O líder sírio não teme que a primavera árabe chegue a seu país. Nesta quinta-feira, Bashar se pronunciou contra a intervenção estrangeira na Líbia e também afirmou que não há chances de que a mobilização no mundo árabe se espalhe para a Síria. Segundo ele, a hierarquia que governa a Síria é “intimamente ligada às crenças do povo” e as massas não estão descontentes com o Estado, como aconteceu na Tunísia, no Egito e agora na Líbia.

Os sírios ainda não conseguiram reunir multidões nas praças públicas, mas a disputa política floresce na rede social com sites a favor e contra o governo de Bashar. Uma página com 25 mil integrantes anunciou há uma semana que a data para as manifestações “em todas as cidades sírias” estão sendo cuidadosamente estudadas e “serão definidas em poucos dias”. Os organizadores dizem que não pertencem a nenhum partido, mas defendem os direitos humanos no país. “A primavera na Síria virá mais cedo este ano e será o cheiro de flores da liberdade”, diz o sírio Hamy Mutahader.

Na contramão revolucionária, o apoio a Bashar também cresce na rede. Titulado em árabe “Campanha para abolir a oposição ao regime do-sol na Síria”, o site iniciou a manhã de quinta-feira com dois mil integrantes e já conta com mais de nove mil pessoas nesta segunda-feira --a maioria manifesta seu “orgulho” por ter Bashar como presidente. “Vamos resgatá-lo, ó comandante da nação árabe”, escreveu o manifestante Alaa Almolqi. “Viva a resistência e as regras do presidente Bashar al-Assad”, exaltou a jovem Anas Abaji.

Segundo o Departamento de Estado americano, “o governo sírio conduz intensa vigilância física e eletrônica sobre seus cidadãos e visitantes estrangeiros”. A ONG Repórteres sem Fronteiras corrobora o dado. Em uma lista que avaliou a liberdade de imprensa em 178 países no ano passado, a Síria amargou a 173ª posição devido ao controle sobre a internet. O jornalista paquistanês, Saada Khan, recorda o caso da jovem Tal al-Mallouhi, presa em 2009, aos 17 anos, acusada pelo governo de Bashar de trabalhar para a CIA. “Seu único crime foi escrever blogs sobre democracia e o povo no poder. Outros blogueiros e jornalistas estão enfrentando destino similar”, alerta Khan.

Nesta segunda-feira, de acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), 13 militantes foram presos no país, entre eles os advogados Haytham Maleh e Anouar Bounni, que anunciaram uma greve de fome para exigir o fim da opressão na Síria. Os manifestantes denunciaram “o Estado de emergência decretado na Síria há 48 anos por uma autoridade militar não eleita”. Segundo a agência Lusa, a OSDH vem pedindo a "promulgação de uma lei moderna para organizar o trabalho dos partidos políticos e das associações da sociedade civil na Síria" e a autorização "de regresso sem condições de sírios que vivem no estrangeiro e que temem ser detidos se voltarem ao país".

Primavera árabe

"O mundo árabe está vivendo a sua primavera”, disse à rádio Vaticano Samir Khalil Samir --padre jesuíta egípcio e professor de História da Cultura Árabe e Islamologia da Universidade São José de Beirute. “O que o Ocidente nem sempre compreende é que o mundo árabe tem a consciência do seu estado. Os árabes têm essa consciência, escrevem-no todos os dias, que o mundo árabe está muito mal, que estamos entre os piores do mundo. É um sentimento muito difundido entre os intelectuais. Há uma aspiração a poder viver como os outros países”, explica Samir.

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