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Primavera Árabe

Síria aceita proposta da Liga Árabe; 17 civis morrem

por Redação Carta Capital — publicado 03/11/2011 15h59, última modificação 04/11/2011 17h13
Em acordo com a Liga Árabe, presidente sírio se mostra aberto às negociações para conter manifestações em seu país, mas ainda falta uma resposta oficial
Síria cede à Liga Árabe

Em aparente acordo, presidente sírio se mostra aberto às negociações para conter manifestações em seu país. Foto: Sana/AFP

Em mais um dia de manifestações  "contra os déspotas e os tiranos", as forças de segurança sírias mataram 17 civis e um soldado desertor nesta sexta-feira 4 de novembro, segundo informações do Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH).

Na quinta--feira 3, depois de meses de resistência às intervenções estrangeiras para o controle da violência em seu país, o presidente da Síria, Bashar al-Assad, aceitou o acordo proposto pelos membros da Liga Árabe, que reúne 22 países, no Cairo (Egito), nesta quinta-feira 2. Entre outros pontos, o pacto prevê libertar prisioneiros, retirar as forças de segurança das ruas e iniciar o diálogo com a oposição.

De acordo com integrantes da Liga Árabe (uma organização fundada por países árabes em 1945 com objetivo de reforçar e coordenar laços econômicos, sociais e políticos entre seus membros), Assad, que vem reprimindo as manifestações nas ruas com mão pesada, aceitou sem reservas o plano de solução para a crise na Síria, mas a organização ainda não recebeu resposta oficial de Damasco sobre o acordo, segundo o subsecretário-geral da Liga, Ahmed Ben Helli.

No mesmo dia que se travou a trégua aparente da Síria, 15 integrantes das forças leais a Assad e 19 civis foram mortos em Hama, de acordo com o Observatório Sírio dos Direitos Humanos. No dia seguinte, o ritual se repetiu. O Exército Livre, grupo armado de oposição síria, que tem como integrante o coronel Raid al Assad - oficial do exército que desertou pela revolta - reivindicou os ataques da quinta-feira.

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No início do ano, o líder sírio não via seu país ameaçado pelas manifestações da chamada “Primavera Árabe”. Dizia que a hierarquia síria é “intimamente ligada às crenças do povo”. Mais: o povo não estava descontente com o Estado. Mas a ditadura com jeito de democracia fez, enfim, emergir a revolta das massas.

A insurreição popular pacífica, iniciada em março deste ano, transformou-se em conflito armado com o surgimento de confrontos entre soldados, membros das forças de segurança e desertores. Nos últimos dias, dezenas de pessoas foram mortas e, desde o começo das manifestações, a Organização das Nações Unidas (Onu) contabiliza mais de 3 mil mortos.

Ainda que com violenta repressão das autoridades sírias, cercando cidades, cortando eletricidade e comunicações, bombardeando, prendendo e matando, os manifestantes se mantêm de pé, reivindicando, além de uma nova constituição, a renúncia de Assad.

Enquanto isso, a cobertura dos fatos pela imprensa internacional segue prejudicada. A ONG Repórteres sem Fronteiras confirma o dado. Em uma lista na qual avaliou a liberdade de imprensa em 178 países no ano passado, a Síria amargou a 173ª posição devido ao controle sobre a internet.

Agora, o Conselho Nacional Sírio (CNS), que reúne a maioria das forças opositoras ao regime do presidente Assad, insistiu novamente para que a Liga Árabe suspenda a adesão da Síria na organização pelo "comportamento sanguinário do regime".

Na última sexta-feira  27, os manifestantes pediram proteção à comunidade internacional  contra a repressão. Eles querem também que seja estabelecida uma zona de exclusão aérea na Síria.

Em reposta, no domingo 30, Assad deafiou o Ocidente a intervir no seu país: “Querem outro Afeganistão, ou dezenas de Afeganistãos?”

“Qualquer problema na Síria vai afetar toda a região. A Síria neste momento é como uma placa tectônica do Oriente Médio. Qualquer intervenção ocidental causará um terramoto”, avisou Assad.

Mas, na segunda-feira 31, o chefe da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Anders Fogh Rasmussen, disse que uma intervenção militar no país estava completamente descartada. "Não temos nenhuma intenção de intervir na Síria”, afirmou ele, apesar de ter condenado firmemente a repressão contra os civis.

Depois da operação Otan na Líbia, que culminou com a derrubada e morte do ditador Muammar Kaddafi, fica a dúvida se algum país do Ocidente vai liderar algo semelhante no país de Assad - que agora vive uma das situações mais difíceis entre as revoltas do mundo árabe.

Ganhando tempo

O secretário-geral da Liga Árabe acredita que a atitude da Síria é uma mudança de paradigma e tem enormes preocupações não apenas para os vizinhos da Síria, mas com toda a comunidade árabe. De acordo com reportagem da Al Jazira, a entidade não tem garantias, mas um notável compromisso da Síria para aderir a vários pontos de um cessar-fogo ao qual vinha resistindo.

Os Estados Unidos insistem em seu apelo para que Assad deixe o poder. "Nossa posição continua sendo que o presidente Assad perdeu a legitimidade para governar e deveria renunciar", afirmou Jay Carney, o secretário de imprensa da Casa Branca à Al Jazira.

Victoria Nuland, porta-voz do departamento de Estado dos EUA, disse que o governo americano estava esperando para ver os detalhes do acordo da Liga Árabe com a Síria, mas advertiu que o governo de Assad tem um longo histórico de promessas quebradas e, dessa maneira, declarou que “nós não vamos julgá-los por suas palavras. Nós vamos julgá-los por suas ações”.

Najib al-Ghadban, integrante da oposição síria do Conselho Nacional, afirmou que a implementação da iniciativa patrocinada pela Liga significaria o fim do regime de Assad e não acredita que isso vá acontecer. "O que aconteceu hoje é uma tentativa de comprar mais tempo.''

O poderoso

Bashar al-Assad assumiu o poder na Síria após a morte de seu pai Hafez al-Assad, em 2000. Sem oposição, ele foi eleito com 97% dos votos. Há cinco décadas existe apenas o partido Baath no país. Em 2007, Bashar foi reeleito para mais um mandato de sete anos em um referendo no qual ele era novamente o único candidato reconhecido pelo sistema eleitoral.

Os principais pontos do plano árabe

- Fim total da violência, qualquer que seja sua origem, para proteger os civis sírios.

- Libertação dos detidos durante os recentes acontecimentos.

- Evacuação de toda a força militar das cidades e bairros residenciais.

4 - Autorização para que as organizações pertencentes a Liga Árabe e a imprensa árabe e internacional se locomovam livremente na Síria para informarem sobre a situação do país.

Quando o governo sírio der provas de um "avanço tangível" nestes quatro pontos, "o comitê ministerial árabe iniciará os contatos e as consultas necessárias com o governo e os diferentes grupos de oposição, para preparar uma conferência de diálogo nacional em um prazo de duas semanas", segundo o texto do plano.

O plano não precisa a data para a entrada em vigor, nem o lugar da conferência. A Liga Árabe em um primeiro momento propôs que o diálogo se desenvolvesse no Cairo. De acordo com diplomatas árabes, o governo sírio quer que as conversas aconteçam na Síria, ideia rejeitada pela oposição.

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