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Sequestrados pela polícia?

por Redação Carta Capital — publicado 02/11/2012 05h09, última modificação 06/06/2015 19h23
Jornalista que denuncia violência excessiva contra movimentos sociais e ativistas viram alvo das autoridades chilenas
Secuestro Liceo Amunategui

Imagem de fotógrafo amador mostra um dos sequestros realizados em Santiago. Foto: Codepu

Por Victor Farinelli

Não era uma tarde qualquer. Naquele 10 de junho, às 14h, o centro de Santiago cheirava a gás lacrimogêneo. Pouco mais de mil fanáticos de Augusto Pinochet saíam do teatro que sediou uma homenagem ao ex-ditador custodiados pela polícia, que confrontava também os manifestantes de esquerda. A alguns metros dali, o jornalista Víctor Arce sente duas mãos agarrando repentinamente seus braços e o capuz de sua blusa cobrir rapidamente o seu rosto: “você fica quietinho, mané, que a gente não vai te fazer nada”.

Arce tampouco é um jornalista qualquer. Desde fevereiro, por meio do seu blog Factor Absoluto, ele vem denunciando a violência excessiva da polícia chilena contra os movimentos sociais. O capuz que lhe puseram sobre a cabeça cortou parcialmente a sua visão, mas não o impediu de olhar para o chão e identificar os calçados dos seus sequestradores: eram botas usadas por soldados do batalhão de Forças Especiais da polícia militar chilena.

Levado a um quarto escuro sem janelas, onde apenas podia sentir o frio azulejo do piso e constatar que estava numa casa, não numa delegacia, o jornalista independente tentou, em vão, se comunicar com amigos e reportar o que sentia naquele estranho cárcere. Passou cerca de sete horas ali, sem luz, nem comida, nem banheiro.

Quando os sequestradores o levaram do quarto, pensou que poderia ser o fim, pelas piadas ameaçadoras que escutou no caminho. Foi deixado no mesmo lugar onde havia sido apanhado. “Se não quiser ter problema, você tem que contar até vinte antes de tirar o capuz”. Descobriu a cabeça antes de contar o nove, e conseguiu identificar um nissan branco sem placa, virando a esquina.

Chegando em casa, Arce viu que sua desaparição repercutia na televisão. A intendente da região metropolitana, Cecília Pérez, responsável pela ação da polícia na capital chilena, dizia que ele havia estado detido na 3ª Delegacia de Polícia do Centro de Santiago. Arce sabia que era mentira, porque esteve preso naquela delegacia no mês anterior, pelo suposto roubo de uma rádio policial – caso que está sendo julgado pela Justiça Militar. Sua convicção é reforçada pelo fato de que a própria delegacia não possui registro de sua passagem naquele dia.

“Apesar das ameaças e da privação de liberdade, eles não me agrediram, sequer insinuaram violência física, aquela ação foi para tentar me intimidar”, comenta o jornalista, que no dia 16 de agosto, após uma marcha estudantil, foi novamente sequestrado, dessa vez por policiais uniformizados, que o colocaram dentro de um ônibus da instituição e passearam com ele pela cidade por cinco horas, tempo em que teve que escutar calado diversos tipos de ameaças e comentários humilhantes – “você não usa o blog para nos avacalhar? Agora, nós é que vamos avacalhar você”, disse o sujeito que o jogou para dentro do ônibus.

O sequestro de Víctor Arce não é o único denunciado contra policiais chilenos nos últimos meses. As demais onze vítimas, no entanto, possuem uma ligação entre si: são todos estudantes secundaristas, menores de idade e que estiveram participando ativamente das marchas e ocupações do movimento estudantil chileno desde o ano passado.

Entre eles está Alberto Contreras, de 17 anos, mais conhecido como “El Zeta”, que tampouco é um estudante qualquer, pelo menos não para o prefeito de Santiago, o conservador Pablo Zalaquett. Em maio, El Zeta foi citado pelo prefeito em um discurso onde ele condenava o suposto vandalismo de pessoas ligadas ao movimento estudantil.

Por volta das 9h da manhã de 22 de agosto, Alberto caminhava sozinho pelas imediações do colégio Confederación Suiza, onde estuda, quando sofreu uma rápida abordagem um grupo de pessoas que o colocou dentro de um porta-malas de um carro. Passou várias horas dando voltas dentro do porta-malas enquanto escutava ameaças dos sequestradores, em cujos comentários demonstravam conhecer seus hábitos, os lugares que frequenta e os nomes de seus parentes e amigos mais próximos.

Abandonado em um terreno baldio, fora do perímetro urbano de Santiago, El Zeta logo foi contatado pelos familiares, quando já eram quase 19h. O estudante diz ter certeza de que os sequestradores eram policiais: “o veículo era civil, mas a gente conhece o linguajar deles, fora que do porta-malas eu escutava as conversas dos sequestradores, por rádio”, relata.

Dos onze estudantes que sofreram casos de sequestros entre agosto e setembro deste ano, quatro são de alunos do Confederación Suiza, um colégio público cuja administração é terceirizada. Desses, "El Zeta" Contreras é o único que foi atacado duas vezes, como Víctor Arce.

Porém, o segundo ataque não se tratou de um sequestro, mais parecia uma tentativa de homicídio. Na tarde de 31 de agosto, Contreras novamente caminhava pelas redondezas do seu colégio, acompanhado de um amigo, e não percebeu a aproximação de pessoas que vestiam camisetas da Fundação Nuestros Hijos (que atende crianças com câncer) e se faziam passar por voluntários. Inesperadamente, um dos voluntários saca uma faca e enterra no ombro esquerdo do estudante, próximo ao seu pescoço, ataque que por alguns centímetros não foi fatal.

O estudante foi salvo pelo colega, que conseguiu buscar ajuda rapidamente, mas teve que permanecer seis dias internado em estado grave. A Fundação Nuestros Hijos afirmou que não tem nenhuma ligação com o sujeito que realizou o atentado. “É complicado acusar sem provas, mas o ataque foi só contra mim, o cara não atacou o meu colega, e o fato de ter sido na semana seguinte à do sequestro faz a gente suspeitar”, comenta "El Zeta".

A Codepu (Corporação de Defesa dos Direitos do Povo) tem prestado assessoria jurídica a Arce, Contreras e aos outros dez estudantes que afirmam que foram sequestrados por policiais, e deu entrada com um pedido de investigação no Ministério Público. Segundo a advogada Alejandra Arriaza, que atua no caso de Contreras, ainda não existem pistas suficientes para uma acusação formal contra a polícia militar chilena. “Temos fotos e vídeos entre as provas, os sequestros são quase sempre com veículos civis de chapa fria ou sem chapa, não podemos afirmar que a instituição em si esteja por trás disso, mas há indícios da participação de alguns policiais, que estamos tentando identificar”, explica a advogada.

Um dos indícios é o ataque de hackers contra o blog de Víctor Arce, no último dia 17 de setembro, quando a página passou a estampar uma foto do ditador Augusto Pinochet, junto com a mensagem “Aos que esquecem suas origens, a família cobra com juros. Você será o próximo Víctor Jara (famoso cantor chileno, assassinado durante a ditadura)”. Arce é filho de um policial e lembra que, desde o lançamento do blog, suas denúncias contra os abusos policiais têm soado na família como uma espécie de traição.

Arriaza, a advogada, afirma que todos os casos assessorados pela Codepu ocorreram na região metropolitana de Santiago e que não receberam nenhuma denúncia parecida de cidades do interior do país. Isso pode indicar que os sequestros podem ser obra de um grupo clandestino dentro da polícia, agindo à revelia do alto mando da polícia.

O fato de os sequestros recordarem o atuar dos serviços de perseguição a opositores durante a ditadura de Pinochet, segundo a advogada, deve ser tratado com cuidado. “Sabemos que existem nostálgicos da ditadura dentro da polícia, e se isso for verdade, estaríamos revivendo um dos momentos mais sórdidos do nosso passado recente”, ressalta a advogada, que diz também que “é preciso ter muita cautela e provas bastante sólidas para se chegar a essa conclusão, pois acusar sem as provas pode fortalecer esses grupos, o que é o contrário do que nós pretendemos conseguir”.

Procurada pela reportagem, a direção da polícia militar chilena não quis comentar os sequestros. Apenas pronunciou, por meio de sua assessoria de imprensa, que os casos estão sendo investigados por uma sindicância interna, e que serão encaminhados à Justiça Militar, caso seja detectada alguma irregularidade no procedimento ou comportamento indevido de policiais.