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Internacional

Reivindicação Semântica

Senhora ou senhorita?

por Gianni Carta publicado 29/09/2011 21h09, última modificação 06/06/2015 18h15
Feministas lançam campanha para abolir o termo 'mademoiselle' porque ele 'simboliza desigualdades' e é discriminatório

Madame ou mademoiselle? Na França, a questão é séria no trato diário com senhoras e senhoritas. Por madame entende-se uma mulher casada, mas não necessariamente mais idosa. Mademoiselle, claro, tem estado civil de solteira, mas a senhorita pode ter 90 anos.

Nesta semana, as associações francesas Osez le féminisme e Chiennes de garde deram início a uma campanha para pôr um fim à categoria “mademoiselle”. Já que o uso do título “mademoiselle” não tem valor legal, feministas propõe o fim do item madame e mademoiselle à frente, por exemplo, de nomes e sobrenomes de mulheres em boletos bancários. Assim, pouco a pouco a distinção desaparecerá.

Em entrevista para o vespertino francês Le Monde, Julie Muret, da Osez le féminisme, argumenta que a diferença entre senhora e senhorita pode parecer um detalhe, “mas simboliza as desigualdades” entre mulheres e entre mulheres e homens. E “obriga a mulher a expor sua situação pessoal e familiar”. No caso de uma solteira idosa, mademoiselle tem “conotação condescendente”.

E por que os homens são todos monsieurs? Por que não pensaram em petit monsieur para os jovens e solteirões? Eis aí outra reivindicação semântica válida das feministas, pelo menos no caso da França.

Na Itália, por exemplo, nenhuma mulher precisa escrever signora ou signorina num boleto bancário. Idem na Alemanha, onde jovens ou solteiras idosas não se identificam como Fraeulein. É raro, no Brasil, alguém chamar uma jovem de senhorita.

Porém, a França é um país muito conservador, pelo menos naquilo que diz respeito à língua francesa. Lá não existe, como manda a Academia Francesa, escritora, mas apenas “écrivain”, escritor.

Ao se dirigir a uma mulher ou homem, é imperativo dizer: “Bonjour madame, ou mademoiselle (se ela for demasiado jovem para estar casada), e bonjour monsieur”. Jamais esqueça o título da pessoa abordada: o risco é ser taxado de mal educado.

Veja o caso de Marie Dupont (nome fictício, mulher real), a gerente bancária de uma agência no centro de Paris. Dupont já passou dos 40, mas se apresenta a novos clientes como mademoiselle Dupont. No seu cartão de visitas lê-se Mademoiselle Dupont.

Chamo-a de mademoiselle Dupont, não de Marie, visto que ela está a exercer seu ofício e com ela não tenho intimidade.

Quando alguém diz bonjour madame Dupont, ela, com ar solene, corrige: mademoiselle Dupont.  Ah, perdão, diz, constrangido, o cliente.

Por que Marie quer ser mademoiselle? Importa se ela é casada, vive com alguém, ou é uma solteirona? E se ela for casada, mas prefere não usar o nome do marido? Marie talvez aprecie seguir a velha tradição francesa. Ou talvez queira, ao se apresentar como mademoiselle, parecer mais jovem.

Marie, na verdade, é mais uma vítima de uma língua, a francesa, que continua a discriminar as suas mulheres.

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